E assim se vão os garotos
Eu gostei da resposta do Tiago Luis para o pai e para a pessoa que negocia seu contrato:
“Vocês estão mexendo com a minha carreira’”.
A declaração é do treinador santista Emerson Leão e ele se refere ao imbróglio ocorrido na manhã do domingo, quando o jovem atleta santista, que estreou na equipe poucas horas depois, quase não realizou o que ele mesmo classificava como “sonho”: jogar no time principal do Santos. Tudo isso por conta de uma reviravolta na renovação do seu contrato.
O jogador tem 18 anos, foi artilheiro da Copa São Paulo de Juniores e também destaque do Alvinegro na vitória contra o Bragantino. Fez gol, chapelou, deu assistência de letra, driblou, correu. Mas por pouco não entrou em campo. Teve que peitar o procurador, que seu pai chama de “amigo que quer ajudar”.
O nome do pivô da confusão: Wagner Ribeiro.
Virou artilheiro? Olhe bem, pois esse vai sumir em breve…
A ingerência do empresário fez com que a renovação fosse tratada em bases muito mais altas do que o acordado. Contribuiu para isso uma matéria do espanhol Marca, que classificava Tiago Luis como o “Messi brasileiro”.
Contudo, a tática não é nova. Ribeiro já havia feito algo semelhante com Lulinha, do Corinthians, aventando para quem quisesse ouvir na imprensa que estava fechando a transferência do garoto para a Europa. Não aconteceu nada. Mas o Timão renovou seu contrato por uma fábula. Garantia de futuros e gordos lucros para Ribeiro.
A tática é tão simples que impressiona o quanto os jornalistas se vêem envolvidos nela. Tanto os daqui quanto os de fora. O empresário sopra a tal “notícia”, e os incautos (será mesmo?), com medo de tomarem furos, publicam. E ajudam alguém a ganhar dinheiro.
Uma matéria da revista Piauí mostra a trajetória de Wagner Ribeiro. Começou a sua carreira transferindo o atacante França do XV de Jaú para o São Paulo, seu time do coração. Aproveitou-se da proximidade com dirigentes do Morumbi, adquirida após viagem para ver o título mundial do clube em 1993.
Na negociação, comprou os direitos federativos do atleta por 2,5 milhões de reais e, quatro dias depois, revendeu ao Tricolor por 4,6 milhões. À época, o diretor-financeiro do clube, Paulo Amaral, disse que não sabia desse “pormenor”, um dos lucros mais espetaculares de um agente em tão pouco tempo. Um dos empresários de Jaú entrou na Justiça contra Ribeiro, mas não obteve êxito. Quem vendeu, perdeu; quem comprou, também. Quem intermediou, ganhou muito.
Ribeiro se torna amigo das famílias dos atletas, é atencioso, e ganha a confiança delas. Gosta de dizer que é considerado o “pai branco” de Robinho. Sua aposta maior agora é o garoto Neymar, de apenas 15 anos, do Santos.
O agente já tentou, em 2005, negociar sua mudança para a Europa. Junto com o garoto e o pai, voaram para a Espanha a convite do Real Madrid e durante vinte dias, sem contrato – até porque, pela idade, seria impossível assinar um -, Neymar marcou 26 gols pelo juvenil do time. Isso propiciou uma oferta de 3 milhões de dólares e o Real chegou a arrumar um emprego de mecânico para o pai de Neymar, na montadora que patrocina a equipe, para justificar a forjada mudança da família.
Já está sendo sondado pelo Manchester e com ofertas do Milan. Talento na gema.
Isso rendeu a Ribeiro uma denúncia do Ministério Público por exploração do trabalho infantil. Agora, o Santos acertou a permanência do atleta, que só pode assinar contrato quando completar 16 anos. Conseguiu um contrato milionário para alguém tão jovem, a multa recisória gira na casa dos US$ 25 milhões. Fruto da pressão de Ribeiro.
No lançamento das camisas comemorativas da conquista de Copa 1958, Zito, campeão mundial pelo Santos em 1962 e 1963 e pela seleção em 1958 e 1962, declarou à imprensa:
“Se dependesse dessa pessoa (Wagner Ribeiro), o Neymar já estaria fora do clube. Pelo que ele já fez com o Santos, eu não quero nem olhar na cara dele”, disparou o hoje supervisor das categorias de base do Peixe.
Agora, Tiago Luis já teria sido até convidado a visitar o Real Madri, às custas do clube espanhol. Se isso não é assédio, não sei o que é. Outro atacante jovem da Vila Belmiro, Alemão, também “assessorado” por Ribeiro, já encontra problemas para jogar no time de cima, pelo mesmo motivo que quase afastou Tiago Luis.
Assim vão sendo minadas as esperanças e alegrias do torcedor brasileiro, e crianças e jovens vão mais cedo para ganhar dinheiro, não necessariamente para si, mas para os pais e terceiros, que se aproveitam dos talentos nascentes.
Esse é o Tiago Luis. Ele quer jogar bola.
E geram outros tantos milhares de garotos frustrados que jamais verão fama ou dinheiro. Mas é sempre bom lembrar que, para cada empresário, existem dirigente coniventes ou que até levam a sua parte, além de jornalistas despreparados ou algo pior. E depois bradam contra a globalização, fazendo sua parte no teatro do absurdo.
“Os clubes se tornaram reféns. O atleta quer jogar, aparecer, estão felizes com a oportunidade. Eu fico satisfeito de um garoto ser lançado. Fico feliz pela alegria deles chegarem ao profissional. Deixem eles serem felizes”, pediu Leão em sua coletiva no Domingo.
Acho que é pedir muito.
Glauco Faria é filho de peixe. Santista e jornalista, tem birra do Luxemburgo e escreve para o Futepoca.
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