– E você viu a contratação do Denilson?
A pergunta era baseada na notícia do dia , um fato já conhecido, antecipado e, possivelmente discutido por quem acompanha futebol. Mas depois do silêncio inicial, foi a forma de puxar papo com o taxista. Para minha surpresa, ele não tinha visto.
Expliquei, na certeza da polêmica, o contrato meio de risco, por produtividade, segundo o atual treinador do Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo. Se o cidadão não estiver em condições físicas, técnicas ou táticas de jogo, ganha menos. Mas se comer a bola, fatura o bicho.
Denílson, ele está de volta? – questiona o taxista desconfiado
Ainda sem opinião sobre o caso, o figura partiu para o genérico:
– Futebol tem umas coisas incríveis mesmo. Eu já mexi com isso, sabe?
Eu não sabia. O vínculo com o futebol era o de levar embora quem saía do estádio. O momento de ruptura, que fez o palmeirense deixar de acompanhar futebol foi uma ida a um clássico Palmeiras e Corinthians, em data não precisa.
Acompanhado de um torcedor rival, nosso intrépido taxista aceitou assistir à partida do lado alvinegro da arquibancada.
Passados 15 minutos do primeiro tempo, o pior aconteceu: gol do Parmera!
– Pior? – indignei-me.
– É, porque esse meu amigo ficou fulo da vida, começou a falar um monte de besteira, a xingar os “parmerense”…
Como representante da nação verde em meio à multidão de corintianos, restava o apelo:
– Eu disse: “Ô, meu! A gente é amigo, hoje tem essa m…, amanhã já esqueceu, futebol é assim. Agora, eu vim com você, se você abrir o bico aqui, esses caras me matam!” – borrou-se.
A partir dali, futebol seria uma referência distante. Ele é que não vai “pagar pra apanhar” na arquibancada.
Na hora, lembrei de quando uma outra pessoa parou de acompanhar o esporte bretão. O motivo, muito diferente. Hoje, aos 56 anos, ela se considera uma ex-são paulina. A crise, porém, não foi com o clube, mas o desencanto geral com o futebol.
Filha de um corintiano fanático, tornou-se tricolor por ter crescido na Vila Sônia, bairro da região Sudoeste da capital paulista, próxima do estádio do Morumbi, inaugurado em 1960, onde treinavam os jogadores.
Na rua de baixo da dela, morava um jogador do time, o “bonitão” da época. A vizinhança e a oposição ao fanatismo paterno definiram a opção – o que dá idéia de que o séqüito de torcedoras adolescentes que aderiram ao São Paulo de Raí teve seus precursores, mas isso é outra história.
Metade das brigas da adolescência giraram em torno do tema e da rivalidade. A outra metade, sobre o que sempre gira. Veio o trabalho, namorados de todas as bandeiras, faculdade paga a duras penas, o casamento com um palmeirense… Tudo sem aplacar a paixão pela bola nos gramados.
Mas em 1986, a seleção brasileira de futebol avançou na Copa do Mundo até as quartas de final contra a França. O jogo estava empatado em 1 a 1. O meia do Flamengo Zico que havia entrado em campo na segunda etapa, cisca de uma lado, de outro, acha o lateral Branco dentro da área que, derrubado, ganha um pênalti.
A bola embaixo do braço no melhor estilo “é minha”, e o Galinho bate fraco, no canto esquerdo do arqueiro Bats.
– Aquilo foi, pra mim, o fim! – explicou anos mais tarde. – O jogador fatura uma nota e faz aquilo? Nem quer saber se tem gente no Brasil sofrendo, morrendo pra ver o jogo…
Um desiludido clássico… [crédito da foto para Edmarmelo]
Culpa do Zico. Do maldito pênalti batido pelo Zico. A desilusão não deu trégua nem para o futebol local, nem internacional, nem de várzea. A raiva não foi para o Sócrates – que errou a cobrança na disputa de pênaltis – nem para o goleiro Carlos nem para o camisa 1 dos azuis.
E futebol, a partir dali, seria nos jogos de futebol de salão dos filhos. No máximo. Felizmente, não contaminou a nenhum deles.
E você? Conhece alguma história de desiludidos do futebol?
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista, e um dos autores do Futepoca.
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