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Cópia de arquivos na internet – um raciocínio em 7 pontos curtos

Eduardo Pinheiro

por
em às | Artigos e ensaios, Ciência e tecnologia, Cultura e arte, PdH Shots


A questão da cópia de arquivos na internet é muito simples: se há comunicação privada entre peers, não há como impedir a cópia do “trabalho de outros” – não garantir essa comunicação privada não só é difícil por ser (mais) antiético do que usar o trabalho dos outros, mas, com criptografia, darknets, etc., é também impossível.

Sendo impossível impedir a cópia de material que não se quer ver copiado, esqueça imperativos supostamente éticos por um momento: foquemos na economia – o trabalho intelectual tem agora menos valor econômico. Isso é “bom”? Depende.

Nós já tivemos na história muitas épocas e circunstâncias onde não se engajava em trabalho intelectual por remuneração. Em que se poderia até mesmo considerar isso desprezível. Além disso, o trabalho “intelectual” remunerado produz tumores como Justin Bieber e filmes de robôs-carros. Então, em alguns anos acabarão as superproduções blockbusters? Não sei. Isso é desejável ou indesejável? Talvez desejável, mas nem interessa.

O que interessa, para fins dessa discussão, é:

1.

O preço de algo é dado em função da disponibilidade.

2.

É impossível coibir comunicação entre peers, e hoje essa comunicação pode envolver, numa questão de dias, gigabytes, terabytes e aumentando exponencialmente, seguindo padrões semelhantes à lei de Moore. Peter Sunde, um dos fundadores do Pirate Bay, disse que os torrents e outros modos peer to peer serão logo obsoletos, visto que breve todos os filmes e músicas já produzidos caberão num espaço equivalente a um pen drive, e poderão ser copiados em questão de segundos.

3.

Ninguém se sente antiético por copiar algo sem pagar. E nem deveria, já que:

a) não há perda REAL para o criador;
b) a perda SENTIDA, uma frustração de lucros previstos, é uma função do preço, determinada pela disponibilidade (ver item 1);
c) ir contra a vontade ou os sonhos de alguém receber um valor por algo que fez não é antiético. Esse valor é determinado pelo item 1, não pelo sonho da pessoa;
d) é algo que sempre fizemos, ainda que de maneira nunca tão rápida e eficiente, mas sempre fizemos, ao emprestar os meios para os amigos.

4.

Mesmo que alguém se sinta antiético, a ética não determina as relações do mercado.

5.

Atualmente, essa cópia (seja ética ou não) é ilegal, mas, corretamente, é mais ilegal ainda bisbilhotar a conexão entre dois peers. Mesmo que o inverso infelizmente venha a ocorrer (bisbilhotar venha a ser menos ilegal). Lembre do item 2.

6.

Seria romântico pensar que as coisas devam ser de um jeito para só então as coisas funcionarem do jeito que se acha que devem funcionar: as coisas já estão funcionando assim.

7.

Não é errado ou hipócrita, no caso dos criadores, receber o que se é devido em termos de direitos autorais, mesmo considerando (sabendo, acreditando) os itens de 1 a 6. Seria errado perseguir ou processar os “violadores”, só isso.

"A rua encontra seus próprios usos para as coisas." – William Gibson

Resumidamente: eu faço algo, mas quem põe o preço é o mercado, não eu mesmo. O preço de cada cópia (que podem ser feitas quase infinitamente, a preço quase zero), hoje é, portanto, bem menor do que o valor econômico do seu tempo de atenção dado a essa cópia.

A informação bruta é um recurso sem competição – você não perde informação ao ceder informação para alguém. Com disponibilidade infinita, o preço de recursos pelos quais não se compete tende a zero. Água é um exemplo de recurso competitivo: se você toma minha água mineral, eu tenho que comprar outra. Com informação bruta, se você copia meus arquivos, nada muda para mim.

Caso o custo de uma produção intelectual fosse um valor intrínseco baseado no custo de produção, DVDs de supreproduções horrendas e fracassadas no cinema custariam muito mais caro do que ótimos filmes baratos de produzir, mas elas estão no balaio. A indústria tenta criar escassez artificial e faz lobby por legislações de propriedade intelectual cada vez mais duras de forma a arrecadar em alguns casos até centenas de vezes o valor investido – dinheiro este que fica com os produtores e outros especuladores, cuja função é apelar para o mínimo denominador comum intelectual e produzir a cultura mais rasa e insossa possível.

Além disso, com o esgotamento dos meios de produzir escassez artificial, as tentativas desesperadas dos últimos dez anos foram bombar as leis de propriedade intelectual ao ponto delas infringirem direitos civis. Essa indústria que produz toda essa mediocridade ainda por cima quer interferir no direito de passar informação privada e livremente com um igual. É ultrajante.

Quando Elvis gravou discos, ele foi beneficiado por uma legislação específica e um estado das coisas com relação a cópias (indústria fonográfica) que criou uma bolha de rendimentos absolutamente absurdos para o que devia ser, basicamente, o pagamento de um menestrel. A realidade distorcida é a em que vivíamos antes, não esta que vivemos agora. Isto que se passa atualmente está de acordo com a realidade de que a informação pode ser digitalizada e que não custa quase nada replicar dados digitais. Isso só tende a intensificar.

Ao assistir algo que você baixa, portanto, você paga, com sua atenção, muito mais do que o valor de mercado dessa cópia. Você está sendo, na verdade, extremamente generoso ao assistir e gastar seu tempo com isso. A primeira cópia, ou pelo menos até a última cópia feita num ambiente de confiança, que não torne o conteúdo público, pode ser precificada de acordo com minha vontade. Uma vez que ela caia no domínio público de facto, ela caiu em domínio público.

Não pela lei, mas pela realidade da natureza da cópia.

(Adaptado de uma conversa com Daniel Pellizzari.)

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia.


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  • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

    É impressão minha por concordar com o texto ou ele praticamente zerou o assunto?

    Parabens Daniel. Excelente trabalho.

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Então, penso que o raciocínio do Pinheiro é matador. Bastante elegante e bem amarrado, passa por várias questões e independe da própria web – esse texto poderia ser lido 10 anos atrás ou daqui 10 anos, sem sacrificar sua lógica.

      No entanto, não vejo o assunto como zerado.

      Esse raciocínio é uma *excelente* base para se construir novos desdobramentos.É bastante interessante a ideia de que o autor tem relativo controle de seu material, até que ele caia em domínio público. A partir daí, a própria natureza da cópia se encarrega de responder a outros pais além de seu criador.

      A criação/criatura se rebela e passa a responder ao mercado.No entanto, os criadores necessitam obter rendimentos de suas criações – para suprir não somente suas necessidades básicas mas também poderem criar mais e melhores trabalhos. 

      Mais, as empresas e agenciadores envolvidos no processo também querem sua fatia.

      Sendo assim, penso que é útil refletir sobre os pontos colocados pelo Eduardo e desenvolver modelos de negócio congruentes. O mundo não é unicamente do gratuito, isso é uma grande bobagem, visão limitada.Em tempos de tanto ruído e overload de informação, curadorias são cada vez mais valiosas, por exemplo.
      A sensação que tenho é que o atual sistema midiático está mordendo o osso e se recusando a pensar em novos modelos com a agilidade necessária. Estão tentando manter os modelos vigentes na base do porrete. Mas isso não vai rolar, não com a maneira como a web amplifica a voz dos consumidores.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Bom, nao sei se o objetivo era zerar — mas o texto cobre essa questão
        com puro darwinismo. Nem todas as formas de produçao intelectual
        sobreviverão. Com certeza eu não analizei como poderiam sobreviver
        certas fornas… e acho que, nesse momento, quem aprender pode ganhar
        até mais dinheiro. Se eu soubesse como ganhar dinheiro escrevendo, por
        exemplo, eu aplicaria meu método, ganharia algo e depois talvez — se
        não ficasse óbvio o método ao ele funcionar, se ele funcionasse — eu o
        explicaria.

        Mas… adiante… só não nos fixemos nas ideias de que as coisas que gostamos e que achamos importantes necessariamente irão ou precisem sobreviver. Parte da coisa é cair na real, parte é encontrar soluções. Acho que sou uma das primeiras pessoas a dizer em português que sim, vão haver vastos ramos da atividade cultural (não só lojas de discos e locadoras — ou sapateiros) que não vão conseguir doravante se sustentar. Por outro lado ha tanta coisa já produzida do passado, e coisas como a wikipedia, e há um potencial tao grande no desinteresse comercial, que não posso deixar de ficar otimista. E acho que sim, em ns casos surgirão modelos que possibilitarão renda a produtores intelectuais… so espero que sem tanta distorção, sem exageros e principalmente sem tantos intermediarios.

      • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

        Eu penso que a remuneração do artista no ambiente digital poderia ser bem mais fácil do que ela já é.

        Vide iTunes. Há quem diga que é o programa feito para vender areia no deserto, mas o fato é que é muito mais fácil, prático, rápido e seguro baixar músicas pelo iTunes do que ficar procurando arquivos de alta qualidade nos torrents da vida, principalmente se os trabalhos procurados forem difíceis de encontrar. O dólar que se paga pela música compensa o tempo poupado pesquisando torrents no google e o tempo de download, fora possíveis aporrinhações como vírus e arquivos corrompidos ou de baixa qualidade.

        Um outro exemplo genial é o LastFM, sites de pornografia e os MMOs da vida. Você paga tantos dinheiros por um acesso mensal a um conteúdo infinito. É como ir num restaurante do tipo “coma o quanto quiser pagando X”. E o mais interessante é que o acesso às obras no ambiente digital é muito mais fácil de ser monitorado do que no mundo real, dada a quantidade de ferramentas disponíveis. Outro benefício possível seria o fim da intermediação dos escritórios de arrecadação (ECAD, por exemplo), que são lentos e não trabalham de forma transparente.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Acho que realmente há uma penalização monetária para quem não entende do metier da busca, e para línguas com menos falantes, como o português. Com certeza temos menos pessoas dispostas a botar conteúdo em português do que em sueco, por exemplo — isso vale para legendas de filmes e produções locais, musica, tv, filme. Daí que se minha mãe pede uma minisserie da globo que acabou de sair em DVD, eu não acho — mas se quero um filme de arte checoslovaco de 53, encontro — algumas vezes sem legendas em português, mas com legendas em inglês pelo menos.

        Quanto à música, realmente não entendo porque as pessoas usam o iTunes (quer dizer, quem usa é principalmente americano, que foi aterrorizado com o prospecto de ser processado). Eu realmente nao conseguiria ouvir os mais de 5.000 discos que tenho, boa parte em lossless (flac). Tudo que eu realmente gosto existe em torrent de forma seguríssima (as caveiras verde, roxa, etc, no piratebay, por exemplo, indicam que um moderador comprovou a fidelidade e inexistencia de malware) — e algumas vezes até em megauploads da vida. E se vc entrar num tracker privado — coisa que eu fiz para assistir Breaking Bad 20min depois do episodio passar nos EUA, ai eu realmente não entendo quem vai na iTunes Store (e nem me venha com o software iTunes, pior peça de bloatware que ja vi na vida)

        O modelo da iTunes Store é também abusivo com relaçao aos apps, por exemplo — em termos de regras e remuneração dos programadores. É um ecossistema digital cheio de indignidades — e o único país onde o fluxo de dados por compra / pirataria está uns 2% superior na compra, por causa do netflix (que é um outro absurdo), são os EUA.

        Quanto a pagar por “buffet livre”, “estou satisfeito”…. eu não consigo consumir metade do que baixo… tem coisa que baixo e apago sem assistir. Minha maior dificuldade, creio que da maioria de nós, é me disciplinar para não passar 90% do meu tempo livre, ou invadir meu tempo de trabalho, com entretenimento — é desenvolver cada vez mais os mecanismos de filtro e curadoria para nao perder 30 min num filme que nao vale a pena (se e que vc nao acaba vendo até o fim por inércia). Em outras palavras, REALMENTE o momento de atenção esta mais caro que o momento de conteúdo. Falei isso porque é isso que eu vivo já há anos. Olha, to para te dizer que tenho uns textos que baixei da usenet em 1996 que guardei e ainda não li. Tenho muito mais livros do que jamais conseguirei ler. Se me largassem numa ilha sem internet com meus HDs e um notebook, eu ia literalmente estar entretido e ter cultura para consumir pelo resto da vida. E eu não estou sem acesso à internet.

        Eventualmente as pessoas vao se educar no consumo de informação, e sempre vai ter um intermediário disposto a tirar dinheiro dos incautos…

  • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

    Oops. Eduardo. Daniel é o rapaz com quem você conversou. Ato falho =P

  • http://twitter.com/rafaelcgo Rafael Oliveira

    Pra variar, um ataque gratuito a Justin Bieber…

    • http://twitter.com/lucasscharf Aleatório

      Acredito que o exemplo de Bieber foi utilizado por ele ser um produto comercial contemporâneo e famoso. Seria estranho se o autor citasse os Menudos, por exemplo.

      E, particularmente, se você apenas extraiu um ataque a Bieber desse texto super maroto, acho que está na hora de dar uma revisada nos seus conceitos. 

      Sobre o texto, eu só mudaria o tópico 1.
      Colocar um preço não é uma função da disponibilidade do produto, não apenas. Existem outros fatores determinantes e eu acho que mais importante do que a disponibilidade do produto, é a especulação sobre o produto.

      • Eduardo Pinheiro

        Isso. Achei que o Bieber fosse, realmente, o menos polêmico de mencionar. Mas acho que a música dele não deve ter muita qualidade não. Se é que é música o lance dele.

        Sim, disponibilidade é o fator principal, mas há vários outros fatores que fazem a pessoa pagar mais ou menos.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000104077969 Guilherme Casimiro

    Li o texto inteiro com o bico meio torto, confesso. Mas quando você disse que 
    “Você está sendo, na verdade, extremamente generoso ao assistir e gastar seu tempo com isso.” , toda verdade foi dita.

    Antigamente, tempo era dinheiro
    Hoje em dia, tempo é valor.

    Ótimo texto, parabéns. Abraço!

  • Anônimo

    Uma comparação simples:

    Em um exposição em um museu, você paga apenas para entrar no museu, não a cada olhada em uma obra, mesmo que aquele quadro valesse milhões, ele não vai se desvalorizar cada vez que alguém o olhesse, pelo contrário, se o artista é bom, a cada exposição dele, mais gente iria pagar para entrar no museu para ver suas obras.

    Pagamos a um servidor pela nossa conexão, que seira equivalente a entrada no museu, dai pra frente, querer proibir a troca livre de conteúdo de informação é complicadíssimo, pra não dizer impossível.

    Até acho que cada pode cobrar o que quiser pelo seu trabalho, mas então não o disponibilize por meios que seja possível fazer cópias. Que o músico não grave um disco, apenas faça apresentações ao vivo, que o filme só seja exibido em cinemas, não em DVD e pela TV, assim se poderia cobrar pelo seu trabalho, mas uma vez que o meio de divulgação seja um meio de massa, já era, não se tem mais controle.

    Se o Museu do Louvre ganhasse um centavo por cada olhada na Mona Lisa, seria mais rico que muito país.

    Parabéns, ótimo texto!

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      A única diferença é que o museu tem custos: o prédio precisa ser limpo, climatizado, precisa ter segurança pra ninguém roubar as obras de arte, precisa ter um profissional responsável pela conservação das obras, etc.

      Você paga não apenas pelo acesso à obra, mas também para que ela dure mais tempo.

      • Vostok1

        os servidores também. É preciso pagar impostos pelo terreno onde está instalado, pagar a energia que os equipamentos consomem, pagar pelos próprios equipamentos e os funcionários que operam o sistema.

      • Anônimo

        Eu ia responder justamente isso, os provedores são empresas tanto quanto um museu, a diferença é no que é gasto o dinheiro.

      • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

        Ué, eu pensei que a gente estava falando de comunicação P2P, sem depender de um servidor para a troca de arquivos =P

    • Mari Tiscati

      Sim… achei o texto maravilhoso e compreendo bastante sua explicação também… só reflito que no caso da comunicação livre, essa “olhada” livre das obras de um museu e até mesmo uma fotografia dessas obras (que muitas vezes não é permitida), não é a mesma coisa que pegar o quadro da parede e levá-lo consigo… e no caso da música, por exemplo, uma vez que a comunicação livre é feita PODE se transformar em algo físico idêntico ao original e ser passado adiante… estou refletindo muito sobre isso porque sou cantora, vou para o meu sétimo CD e tenho que decidir agora e não ontem ou amanhã se libero meu novo CD para download livre e assumo isso logo de vez, já que eu, nem ao mesmo tenho uma gravadora para verificar meus direitos, sou uma cantora independente…
      São só reflexões… somente isso…
      Ihhh será que entrei indevidamente nesse Papo de Homem?

      Agora… o texto do Eduardo Pinheiro e fantástico e me fez pensar com mais amplitude aqui sobre arte e valor.

      Abraços

      Mari Tiscati

      • Bruno Alexandre

        Penso que a distribuição livre pode ajudar cantores independentes. O conteúdo gratuito tem distribuição mais rápida, pois está disponível para qualquer um acessar e o próprio público divulga as músicas que gostam. Esse é um fator bom para conseguir fãs, aí você ganha com shows. Quanta mais conhecida você for, maior o público pagante em apresentações próprias e mais convites para tocar em bares e eventos.

        Com isso só perde a oportunidade de ganhar em cima das faixas gravadas, mas também não terá o custo da produção material. Estes por sua vez, podem ser confeccionados para fãs de carteirinha. Quem curte o(a) artista se orgulha de ter um cd/dvd original. E como cantora independente você nem precisaria dividir os lucros

      • http://profiles.yahoo.com/u/GKFMTD3TXJGM4KSDM4RN4HP444 Osmar

        Depois que foi inventado o CD não faz mais sentido as pessoas comprarem a obra original. Depois do MP3 ficou mais ridículo ainda a tentativa de vender-se algo que pode ser adquirido de graça. Pelo menos é isso que a grande maioria pensa. Na minha cidade, interior de Minas, haviam dezenas de lojas especializadas em vender discos, hoje acho que só existe uma e é bem decadente (e na surdina faz cópia dos próprios discos que vende).

        Mas como foi dito no texto será que a distorção tá acontecendo agora ou será que ela aconteceu no auge da indústria fonográfica?
        Antes da indústria fonográfica não existiam músicos? Quantos discos Mozart vendeu em vida?

        Penso que inevitavelmente, os artistas, os músicos serão no futuro todos independentes e que as músicas estarão sempre disponíveis de graça.

        A fonte de receita será sem dúvida as apresentações ao vivo e a arrecadação foi pelo ECAD. Muitos compositores ganham rios de direito apenas com o direito autoral advindo da execução pública de suas obras. Até mesmo o You tube vem pagando ao ECAD pela distribuição de conteúdo. Imagino que seja a única solução!

  • Anônimo

    Eu como músico e produtor musical não posso deixar de concordar plenamente com o autor do texto. A arte históricamente esteve ligada à contextos rituais, sagrados e em atividades socializadoras, mas em um mundo em que só o dinheiro é sagrado, até músicas de “louvor” são feitas com fórmulas de ganhar dinheiro e a arte é utilizada pra manipular mentes incautas que assistem TV ou passam o dia na internet em busca de anestesiar o vazio interno, é óbvio que se espera esse pagamento em troca, pois não há alma.

    Pergunte aos monges tibetanos o que os move a cantar seus belos e complexos mantras, o que os move a confeccionar aquelas mandalas de areia com tanta devoção pra depois destruí-las com um simples sopro.. Desapego amigos.

    O motivo da arte é a arte em si mesma.

    Claro que o artista deve ser reconhecido como alguém importante e pode receber dinheiro pelo seu trabalho, é justo, mas que isso não se converta nunca em objetivo da arte.

    É isso que eu penso.

    Parabéns pelo texto!

  • Alex

    Eu só acho que é muito fácil para nós, consumidores massivos e produtores ocasionais, acreditar que é um direito nosso ter acesso a toda essa informação assim, num clique. Mas, numa boa, alguém está gastando tempo para produzir todas essas coisas, e eles vivem disso. É o trabalho deles, não é um hobbie. Pode até ser que o artista/pensador/etc ganha apenas uma fração mínima do que é cobrado, mas ele pelo menos ganha algo. Com a pirataria, não.
    Afinal, qual estímulo espera-se que eles tenham para continuarem a produzir desse jeito? Ou será que a ideia é deixar rolar a chamada pirataria, já que é algo tão difícil de barrar, e esperar para ver qual solução os próprios produtores acharão?

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Resposta: estímulo que não seja financeiro.

      O proprio Eduardo diz no seu texto que não é comum, ao longo da história, pensadores e artistas produzirem suas obras sem expectativa de retorno, ou até pagando caro por isso. Vide obras criadas em contextos sociais e históricos de regimes totalitarios, por exemplo, onde o artista/pensador era perseguido e até morto por conta do próprio trabalho.

      Se a gente fosse pensar unicamente a relação custo x benefício antes de criar uma obra, eu diria que 90% das obras jamais seriam iniciadas, dado o trabalho e as possíveis aporrinhações decorrentes deste trabalho. Nem você e nem eu estaríamos lendo este texto, muito provavelmente.

      Simplesmente o cara o faz porque gosta, porque acredita, e não necessariamente porque quer lucrar milhoes. Aliás, não é errado alguém achar que merece ganhar milhões pelo proprio trabalho. Errado é achar que o retorno financeiro é o único estímulo possível e imaginável.

      Sim, a coisa escapa um pouco da lógica capitalista. Parece insano, mas é assim mesmo. Aliás, eu diria até que quando o principal estímulo é o financeiro, as chances do trabalho ser uma merda são grandes. Vide Justin Bieber.

      Alex, essa dinamica toda tem mais a ver com a mudança no sistema de criação e distribuição de bens culturais do que com direitos e deveres do publico consumidor de cultura, entende?

      • Alex

        Bem, entedo parcialmente. Do jeito como as coisas vão, caminhamos para
        uma grande mudança da produção mesmo. Ao invés de termos pessoas
        especializadas em algumas artes, elas as produziriam somente pelo lazer,
        salvo algumas raras exceções que conseguissem reunir plateias para
        shows.

        Imagino um mundo em que as pessoas vão ter diálogos assim:

        A: E aí, que bandas você curte?

        B: X, X”’, Y e Z”””. E você?

        A: W, W””, Z”. Mas a minha favorita mesmo é W”””””!

        E, no fim das contas, nenhum dos dois conhecerá nenhuma das bandas que o
        outro curte. Isso pode ser bom, porque poderia aumentar a troca de
        informações. Mas também poderia desestimular. Afinal, se cada pessoa que
        eu conheço adora pelo menos umas 5 bandas das quais nunca ouvi falar…
        pra que é que vou perder meu tempo sequer tentando descobrir quais são
        todas essas bandas?

        E mais: música é mais fácil. Mas e filmes? Há, é verdade, uma infinitude
        de filmes independentes bons, filmes de orçamentos mais humildes e que
        são um arraso. Mas eles seriam tudo, é? E os filmes que pagam por novas
        tecnologias, por locações de ambientes, por aparelhos, por especialistas
        até em iluminação… sem falar que um filme feito como hobbie levaria
        quanto tempo para ser produzido? Quero dizer, se eu e minha equipe só
        podemos nos encontrar em alguns fins de semana, quanto tempo levaríamos
        para ter a coisa feita?

        Sobre os pensadores e artistas que produziram sem expectativa de
        retorno, é verdade, existiram. Mas não foram os únicos. Quantos também
        não foram financiados por grandes monarcas, papas ou seja lá o que for?
        E, naquela época, havia menos gente produzindo. Hoje, com a internet,
        haveria tanta gente tentando produzir que seria bem mais fácil que os
        grandes produtores fossem mais ofuscados. Poxa, se você não ganha
        dinheiro com o que produz, e tem tanta gente produzindo em mesmas
        condições que se torna cada vez mais difícil você conquistar
        relevância… para quê produzir?

        Talvez a arte e o pensamento, no futuro, sejam mesmo produzidos de forma
        bem diversa da de hoje. Só não tenho certeza se esse futuro já é agora,
        tão próximo.

      • Alex

        Bem, entedo parcialmente. Do jeito como as coisas vão, caminhamos para
        uma grande mudança da produção mesmo. Ao invés de termos pessoas
        especializadas em algumas artes, elas as produziriam somente pelo lazer,
        salvo algumas raras exceções que conseguissem reunir plateias para
        shows.

        Imagino um mundo em que as pessoas vão ter diálogos assim:

        A: E aí, que bandas você curte?

        B: X, X”’, Y e Z”””. E você?

        A: W, W””, Z”. Mas a minha favorita mesmo é W”””””!

        E, no fim das contas, nenhum dos dois conhecerá nenhuma das bandas que o
        outro curte. Isso pode ser bom, porque poderia aumentar a troca de
        informações. Mas também poderia desestimular. Afinal, se cada pessoa que
        eu conheço adora pelo menos umas 5 bandas das quais nunca ouvi falar…
        pra que é que vou perder meu tempo sequer tentando descobrir quais são
        todas essas bandas?

        E mais: música é mais fácil. Mas e filmes? Há, é verdade, uma infinitude
        de filmes independentes bons, filmes de orçamentos mais humildes e que
        são um arraso. Mas eles seriam tudo, é? E os filmes que pagam por novas
        tecnologias, por locações de ambientes, por aparelhos, por especialistas
        até em iluminação… sem falar que um filme feito como hobbie levaria
        quanto tempo para ser produzido? Quero dizer, se eu e minha equipe só
        podemos nos encontrar em alguns fins de semana, quanto tempo levaríamos
        para ter a coisa feita?

        Sobre os pensadores e artistas que produziram sem expectativa de
        retorno, é verdade, existiram. Mas não foram os únicos. Quantos também
        não foram financiados por grandes monarcas, papas ou seja lá o que for?
        E, naquela época, havia menos gente produzindo. Hoje, com a internet,
        haveria tanta gente tentando produzir que seria bem mais fácil que os
        grandes produtores fossem mais ofuscados. Poxa, se você não ganha
        dinheiro com o que produz, e tem tanta gente produzindo em mesmas
        condições que se torna cada vez mais difícil você conquistar
        relevância… para quê produzir?

        Talvez a arte e o pensamento, no futuro, sejam mesmo produzidos de forma
        bem diversa da de hoje. Só não tenho certeza se esse futuro já é agora,
        tão próximo.

    • Anônimo

      Será que o estímulo não seria a própria arte em si? Acho que é aí que se separam os verdadeiros artistas.. Os melhores artistas que eu já conheci não são ricos e garanto que são muito mais felizes do que muito milionário por aí. Um abraço!

      • Alex

        Bem, se fosse mesmo isso, não haveria discussão nenhuma. Quero dizer, se os verdadeiros artistas são aqueles que fazem pela própria arte em si, sem ter os lucros como fim em mente, por que é que tanto quer-se baixar aquilo produzido por pessoas que querem, precisamente, vender?

        Há muita gente que produz de graça, hoje em dia. E há, também, os que produzem para vender. Se os artistas são os primeiros, paremos logo de baixar o que está a venda e poupemos as grandes gravadoras, produtoras, etc… de todo o estresse de tentar combater a pirataria.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        O cara tem todo direito de achar que vai receber algo, e até dizer “meu trabalho vale tanto”. Mas o que o trabalho dele vale, em dinheiro, é o que ele conhegue receber, em dinheiro. O meu pagamento ausente é só um pagamento que nunca aumentou o valor real do que ele produziu. Se ele quiser dizer que a minha cópia vale uma determinada quantia, ele vai estar delirando. A minha cópia, evidentemente, não tem valor economico nem para ele nem para mim, nem para ninguém. É só uma cópia, uns “magos” aí iludiram as pessoas que cópias tem valor, mas é só ilusionismo. O valor da cópia é o mesmo valor do ouro se absolutamente tudo fosse feito de ouro. Querer cobrar por tecido de sonho é conto do vigário.

      • Alex

        Bem, se fosse mesmo isso, não haveria discussão nenhuma. Quero dizer, se
        os verdadeiros artistas são aqueles que fazem pela própria arte em si,
        sem ter os lucros como fim em mente, por que é que tanto quer-se baixar
        aquilo produzido por pessoas que querem, precisamente, vender?

        Há muita gente que produz de graça, hoje em dia. E há, também, os que
        produzem para vender. Se os artistas são os primeiros, paremos logo de
        baixar o que está a venda e poupemos as grandes gravadoras, produtoras,
        etc… de todo o estresse de tentar combater a pirataria.

      • Alex

        Bem, se fosse mesmo isso, não haveria discussão nenhuma. Quero dizer, se
        os verdadeiros artistas são aqueles que fazem pela própria arte em si,
        sem ter os lucros como fim em mente, por que é que tanto quer-se baixar
        aquilo produzido por pessoas que querem, precisamente, vender?

        Há muita gente que produz de graça, hoje em dia. E há, também, os que
        produzem para vender. Se os artistas são os primeiros, paremos logo de
        baixar o que está a venda e poupemos as grandes gravadoras, produtoras,
        etc… de todo o estresse de tentar combater a pirataria.

      • Alex

        Bem, se fosse mesmo isso, não haveria discussão nenhuma. Quero dizer, se
        os verdadeiros artistas são aqueles que fazem pela própria arte em si,
        sem ter os lucros como fim em mente, por que é que tanto quer-se baixar
        aquilo produzido por pessoas que querem, precisamente, vender?

        Há muita gente que produz de graça, hoje em dia. E há, também, os que
        produzem para vender. Se os artistas são os primeiros, paremos logo de
        baixar o que está a venda e poupemos as grandes gravadoras, produtoras,
        etc… de todo o estresse de tentar combater a pirataria.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      A cópia não é difícil de barrar, ela é impossível de barrar. O estímulo financeiro produz vários tipos de distorção na arte e em outras produções intelectuais — quem faz pesquisa básica também, muitas vezes, dependendo do campo, não espera ganhar mais do que o seu salariozinho merreca de pesquisador, nem se fizer algo bastante revolucionário no seu campo, nem se esse algo de fato tiver uma aplicação comercial… nada disso é garantido. As pessoas, a grande maioria dos pesquisadores, faz pesquisa básica por amor — algumas vezes essas pessoas sao extremamente capazes e claramente poderiam fazer mais dinheiro em outra profissão.

      Não é preciso “deixar rolar” a pirataria. A pirataria digital é absolutamente inevitável. Ela só é evitável num estado de polícia, mas mesmo assim, precisaria ser algo que só existe meio no nível abstrato, algum tipo de panopticon. No mundo real do estado de direito, as tensões podem criar obstáculos temporários, mas não existe, por definição de conceito, forma de bloquear/impedir/diminuir a cópia. E isso que quero dizer com “realidade”. Algumas vezes ha uma tentativa ideológica de afirmar que seria antiético copiar sem pagar — porque a lei e baseada nessa ideologia. Guess what: not real!

      As pessoas que pensam “mas eu gosto desse mundo que parece justo em que as pessoas mais ou menos recebem remuneração por cada exemplar de uma produção intelectual” só não estao reconhecendo que as coisas já mudaram. Isso vai criar dificuldades para alguns produtores? Certamente. Mas também elimina certas distorções e possibilita novas motivações e caminhos — alguns ainda imprevisíveis.

      A ideia de que seja necessario produzir mais do que já existe para “suprir” a demanda é absurda. Com o que já existe, uma vida de 80 anos é absolutamente  insuficiente para digerir uma diminuta parte. Mas a produção não cessa. Pode diminuir a produçao que apela ao minimo denominador comum (que e a que “rende” mais com base na cópia), mas acho isso possivelmente positivo. Existe algo de nobre na dificuldade de ganhar por produzir: o desinteresse e nobre. Não ganhar por copias acirra o desinteresse. Diminui a produçao? Possivelmente sim, mas possivelmente tambem aumenta a qualidade. Mas isso tambem e ideólogico: o que interessa é que esse e o estado das coisas. A legislaçao se tornou irrelevante no que concerne a isso, e a falsa etica da ideologia da precificaçao da cópia (escassez artificial) não e suficiente para impedir nem quem cai nela de copiar.

  • http://www.facebook.com/people/Anderson-Dos-Santos/100001105823750 Anderson Dos Santos

    PS. Seja Livre Use Linux – KKKKKKKKKK

    A respeito de musicas um serviço (existes outros) que curto é um do site Jamendo. Em que bandas de todo o mundo (inclusive Brasil) dos mais variados estilos disponibilizam suas musicas em creative Commons, ou seja são de graça pra ouvir e baixar, totalmente legalizadas e se quiser contribuir com os direitos do cantor você pode compra-las e usa-las em qualquer projeto.

  • Anônimo

    Amigo, eu discordo do seu pensamento. Como eu disse, sou músico e produtor musical, inclusive componho algumas trilhas pra filmes, documentários, etc.. e hoje em dia existe um cenário artístico mundial que se expande em uma velocidade impressionante baseada em coletivos de artistas que funcionam com sistemas de gestão coletivos, com lucros repartidos, enfim, uma outra lógica completamente diferente dessa competição alimentada pelas (desesperadas) gravadoras e emissoras de TV, que tentam a todo custo alimentar esse tipo de pensamento expressado na sua fala.

    Não há mérito nenhum nesses “artistas” da grande mídia (ou pelo menos na maioria deles), que são marionetes na mão de uma indústria que vende “arte” (ou merda) como quem vende Coca-cola. Arte é outra coisa, e essa indústria “artística” não fez nada em prol dos artistas reais, disso você pode ter certeza.

    É exatamente por isso que hoje em dia existem alternativas aqui no Brasil, como o circuito “Fora do Eixo”, no caso da música, (http://foradoeixo.org.br/) que está longe de ser perfeito, mas aponta pra um caminho completamente diferente pra quem pretende se dedicar à arte, e o interessante dessas iniciativas é que acabam promovendo a integração de artistas do mundo inteiro, e não só no ramo da música.

    Interessante é que enquanto quem ainda sonha em ser um POPstar critica essas alternativas, a mídia popular as ignora completamente.. mas enfim, a quem interessa um movimento que vá contra a lógica da competição não é mesmo?

    E ah, sim, tudo o que eu faço é disponibilizado livremente na internet, via portais como http://tnb.art.br/ e http://www.portacurtas.com.br, dentre outros, é só procurar!

    Um grande abraço

  • Anônimo

    Amigo, eu discordo do seu pensamento. Como eu disse, sou músico e produtor musical, inclusive componho algumas trilhas pra filmes, documentários, etc.. e hoje em dia existe um cenário artístico mundial que se expande em uma velocidade impressionante baseada em coletivos de artistas que funcionam com sistemas de gestão coletivos, com lucros repartidos, enfim, uma outra lógica completamente diferente dessa competição alimentada pelas (desesperadas) gravadoras e emissoras de TV, que tentam a todo custo alimentar esse tipo de pensamento expressado na sua fala.

    Não há mérito nenhum nesses “artistas” da grande mídia (ou pelo menos na maioria deles), que são marionetes na mão de uma indústria que vende “arte” (ou merda) como quem vende Coca-cola. Arte é outra coisa, e essa indústria “artística” não fez nada em prol dos artistas reais, disso você pode ter certeza.

    É exatamente por isso que hoje em dia existem alternativas aqui no Brasil, como o circuito “Fora do Eixo”, no caso da música, (http://foradoeixo.org.br/) que está longe de ser perfeito, mas aponta pra um caminho completamente diferente pra quem pretende se dedicar à arte, e o interessante dessas iniciativas é que acabam promovendo a integração de artistas do mundo inteiro, e não só no ramo da música.

    Interessante é que enquanto quem ainda sonha em ser um POPstar critica essas alternativas, a mídia popular as ignora completamente.. mas enfim, a quem interessa um movimento que vá contra a lógica da competição não é mesmo?

    E ah, sim, tudo o que eu faço é disponibilizado livremente na internet, via portais como http://tnb.art.br/ e http://www.portacurtas.com.br, dentre outros, é só procurar!

    Um grande abraço

  • Anônimo

    Eduardo, eu discordo, pois:
    Item 3) Não consigo me sentir ético fazendo algo ilegal (você admite que é ilegal no item 5). Até poderia ter alguns casos extremos, mas com certeza não seria copiar conteúdo intelectual protegido por leis.

    Item 3A e 3B) Suponha que eu começa a copiar os textos do PdH para meu blog e os visitantes comecem a migrar para lá, o que diminuiria o número de visitantes daqui gerando prejuízos com propagandas para este site. Isso seria legal tendo em vista que não foi perda REAL, ou seja, o PdH não perdeu o que lucrou, somente deixou de lucrar?  

    Item 3D) Se o PdH viesse me questionar sobre os textos copiados e minha resposta fosse o item 3D)  eu copiei porque eu sempre fiz isso, alguém concordaria? Eu poderia ainda completar com a resposta do Item 6) “Ah mais veja bem, vocês estão sendo muito românticos, o mundo funciona assim, por isso estou copiando”.

    Item 3C) Não me devo sentir antiético por copiar um filme protegido por direitos autorais porque estou indo contra o sonho ou vontade das pessoas? Desculpe, mas não vejo isto como sonho ou vontade, isso é LEI. 

    Item 5) As pessoas que são processadas por cópia ilegal tem provas legais contra elas (provavelmente dados de provedores fornecidos mediante decisões judiciais), visto que ninguém seria ignorante de processá-lo usando como base provas ilegais. Além do mais não entendo sua justificativa do item 5 visto que uma ilegalidade não deve justificar outra. Se você tem alguma prova que alguém bisbilhota sua conexão e sente-se prejudicado por isso fique a vontade para processá-los, mas não para copiar seus arquivos.

    Depois tem uma justificativa relacionada ao preço que eu também discordo. Quem produz tem liberdade para colocar o preço que quiser. Ninguém me força ir ao cinema ou comprar um CD. Limitações financeiras para consumir uma obra não pode ser justificativa para eu consumi-la sem pagar por ela.

    E não estou sendo hipócrita de dizer que nunca copiei algo protegido por propriedade intelectual.

    E desculpe a resposta pareceu rude (sem ironia, é sério) mas não consegui escrever de outro jeito. Embora discorde de sua opinião cada um tem o direito de expressá-la e isso por si só já seria motivo para eu respeitá-la.

    Abraço.

    Éverton.

    • Eduardo Pinheiro

      Oi Everton, é claro que ética e legalidade são coisas bem distintas: na sociedade nazista muitas coisas eram legais e não éticas, e muitas vezes ocorre de uma coisa ser ilegal, porém ética. Isso é exemplificado pelo exemplo e obra de Henry David Thoureau, Sobre a Desobediência Civil — ele não quis pagar os impostos que patrocinariam uma guerra que considerava injusta (contra o México) e foi para a cadeia por isso. Sem Objetores Conscientes a sociedade simplesmente obedece o que esta nas regras, e isso significa conduzir pessoas a campos de concentração e ligar o gás: seguir a obrigação legal e trabalhista de alguém que trabalhava nisso.

      Houve um experimento em Milbrook com alunos sendo ordenados a darem choques em pessoas que, sem eles saberem, eram atores. As pessoas simplesmente obedeciam e uma porcentagem imensa foi até a ultima voltagem. Isso porque normalmente não duvidamos de cientistas e universitarios, mesmo quando vemos evidência de sofrimento na nossa frente. Esse experimento mostrou que a tendência ao conformismo e comum e perigosíssima.

      No caso do direito autoral, a lei tem sido modificada de forma a proteger por mais tempo o direito do autor. Em muitos paises, o que eram 50, viraram 70 anos. Repare nessa mudança. Repare no fato que paises diferentes tem leis de direitos diferentes. Perceba que a lei responde a posicionamentos temporais e especiais, e a ética, a realidade. Dessa forma, partidos como o partido pirata lutam pela diminuição do tempo do direito autoral — o que como mostrei no meu artigo, ja é a realidade.

      Outra coisa que vc confunde e o direito de autoria com o direito de propriedade. No meu caso, se alguém pegar atribuição desse texto para si, vou considerar isto extremamente elogioso. A comunidade que interessa (meus amigos no facebook) ja sabem que o texto e meu. Quanto ao resto, pouco me importa. De onde saiu esse, saem muitos mais. Porem o direito de autoria existe, e não é ele que estou refutando. Estou refutando o direito de propriedade. A legislação do direito de autoria é também problemática: veja David Lynch em seu filme DUNA. O estúdio destruiu o filme e o diretor teve que retirar seu nome, porque o filme ficou uma droga. Muitos diretores acabam tendo que fazer isso. E você precisa faca na bota, bala na agulha, para ganhar direito de final cut sobre um filme, mesmo você sendo diretor. Aconteceu isso com Terry Gilliam também, que chegou a processar o estúdio. Então, direito de autoria, mesmo no âmbito da lei atual, também causa injustiças. Mas esse não é um grande problema — é mais um problema para as Clarices Lispector da vida, que acabam ganhando textos e frases que não são delas. Isso é outra coisa.

      Como não recebi nada por esse texto, e só estou trabalhando de graça a responder isso para você, usando meus parcos conhecimentos de direito, ética, desobediência civil, experimentos psicológicos, economia da atenção, teoria da informação, etc, etc. esse argumento que você levanta late para a árvore errada. O máximo que eu ganho com isso é um pitaquinho de fama num nicho particular da internet, provavelmente por um tempo restrito. E eu estou escrevendo aqui na verdade não só gastando minha atenção e meu pequeno arcabouço adquirido com trabalho e tempo no passado, mas também não me engajando em trabalho remunerado que podia estar fazendo (sou tradutor, programador, escritor e professor) — tenho trabalho ali na outra janela. Porém acredito na prática de generosidade, e se eu não faço tantas outras coisas para ajudar as pessoas, pelo menos isso tenho segurança de estar fazendo relativamente bem (respondendo).

      É muito importante também, e aqui vai o ativismo, entender que essa legislação atual foi construída por lobby de interesses especiais. Essas pessoas influenciaram legislação com dinheiro por décadas. Pressionaram países, fizeram uma série de coisas duvidosas, e muitas vezes nada éticas, embora legais (nos EUA é ilegal você pagar um hamburguer para um congressista, porque você pode estar o comprando — mas é perfeitamente legal você dizer para ele “puxa, minhas ações vão subir amanhã, uma pessoa seria muito experta de comprá-las” — veja, isso está dentro da lei, mas é perfeitamente antiético). A indústria do entretenimento agiu dessa forma por décadas, distorcendo a realidade e colocando a maior parte do dinheiro não na mão dos produtores intelectuais, mas dos intermediários. A carta do Pirate Bay deixa bem claro, Walt Disney usou um monte de material em domínio público, mas fez lobby para aumentar o tempo de direitos, que seria efetivo sobre SEUS PRÓPRIOS DIREITOS. Ele usou dos outros, e não deixa os outros usarem. Esse pessoal fez a lei, não com objetivos éticos.

      O mesmo ocorre com a indústria de medicamentos, e chega a ser indecente. O brasil recentemente violou patentes de medicamentos contra a AIDS — isso foi uma decisão governamental, e foi extremamente ética. E, veja, a indústria farmacêutica alega que esse dinheiro das patentes serve para fazer mais pesquisa — mas sabe para onde vai 80% da pesquisa farmacêutica? Para produzir medicamentos que façam a mesma coisa que o do concorrente, mas que sejam suficientemente diferentes dele para que a legislação conceda uma patente separada. Isso é perfeitamente legal. Não é nada ético.

      • Anônimo

        Oi Eduardo.

        Primeiramente obrigado por responder. 

        O texto está muito focado na parte na cópia de arquivos de Internet. Quando você cita por exemplo mecanismos como Torrent, implicitamente vem a mente compartilhamento de CD´s, filmes, seriados, ebooks ou conteúdos similares, que são 99% do conteúdo compartilhado (não sou eu quem está falando, tem pesquisa referente à esta informação).

        Foi com base nesta informação implícita que descrevi meu texto, informando isto logo no primeiro parágrafo quando disse que até poderia concordar em alguns casos extremos mas não especificamente no caso de cópias de arquivos. Estou dizendo isso, porque quando você passa a argumentar com enfoque em outros exemplos como quebra de patente de medicamentos contra a AIDS, a coisa muda de figura.

        Eu também posso ter sido infeliz ao citar você como exemplo, que como diz, sentiria-se elogiado ao ter seus textos atribuído a outras pessoas. Acredito piamente que você seja exceção, talvez até mesmo por esta não ser sua atividade principal, ou por você ter outras atividades. 

        Por isso, no que se refere a cópia digital de arquivos protegidos dentro do contexto que expliquei acima, continua discordando de sua visão, pois pelo menos eu, se fosse um autor talentoso e vivesse exclusivamente de minhas obras, recebendo em média a vergonhosa fatia de 8 a 10% do preço de venda de um livro não gostaria que meus leitores, ao invés de comprá-los nas livrarias, simplesmente baixassem em um site “like-MegaUpload” mais próximo e ainda compartilhassem com seus amigos.

        E novamente obrigado por responder. Li sua resposta várias vezes e vi que você possui muitos argumentos que enriqueceram a discussão, mas na minha limitada visão ainda não consigo concordar. Mas a vida é assim, não?

        Abraço.
        PS.: Eu postei esta mesma resposta equivocadamente lá embaixo. Se algum moderador puder apagá-la eu agradeço.

    • http://www.facebook.com/thales.fagundes Thales Fagundes

      “Item 3A e 3B) Suponha que eu começa a copiar os textos do PdH para meu
      blog e os visitantes comecem a migrar para lá, o que diminuiria o número
      de visitantes daqui gerando prejuízos com propagandas para este site.
      Isso seria legal tendo em vista que não foi perda REAL, ou seja, o PdH
      não perdeu o que lucrou, somente deixou de lucrar?  ”

      Perfeito.

  • Anônimo

    Posso soar meio pretensioso, mas eu penso que a pirataria digital foi um principais fatores que salvaram a industria fonográfica na virada do século.

  • Sérgio Ricardo Braga

    Otimo texto. Abordagem bem racional do assunto.

  • Rafa

    belo texto. 

    me veio a cabeça agora algo interessante (pelo menos pra mim). um filme ou seriado é exibido em TV aberta (vamos deixar a TV a cabo de lado por enquanto). eu não pago nada para assistir, apenas eletricidade e o quanto eu já paguei pela minha televisão. então, quem paga por isso? os anunciantes e eu pago os anunciantes assistindo as suas propagandas. todos estamos acostumados com isso, é natural. Agora, qual é o problema de fazer o mesmo pela internet? eu poderia entrar no site da emissora e assistir minha série ou meu filme favorito apenas pagando pela minha atenção à publicidade. é tão simples, mas tem gente que não quer se adaptar ao mundo novo e fica criando meios de se agarrar em lucros exorbitantes do passado. 

  • Anônimo

    Oi Eduardo.

    Primeiramente obrigado por responder. 

    O texto está muito focado na parte na cópia de arquivos de Internet. Quando você cita por exemplo mecanismos como Torrent, implicitamente vem a mente compartilhamento de CD´s, filmes, seriados, ebooks ou conteúdos similares, que são 99% do conteúdo compartilhado (não sou eu quem está falando, tem pesquisa referente à esta informação).

    Foi com base nesta informação implícita que descrevi meu texto, informando isto logo no primeiro parágrafo quando disse que até poderia concordar em alguns casos extremos mas não especificamente no caso de cópias de arquivos. Estou dizendo isso, porque quando você passa a argumentar com enfoque em outros exemplos como quebra de patente de medicamentos contra a AIDS, a coisa muda de figura.

    Eu também posso ter sido infeliz ao citar você como exemplo, que como diz, sentiria-se elogiado ao ter seus textos atribuído a outras pessoas. Acredito piamente que você seja exceção, talvez até mesmo por esta não ser sua atividade principal, ou por você ter outras atividades. 

    Por isso, no que se refere a cópia digital de arquivos protegidos dentro do contexto que expliquei acima, continua discordando de sua visão, pois pelo menos eu, se fosse um autor talentoso e vivesse exclusivamente de minhas obras, recebendo em média a vergonhosa fatia de 8 a 10% do preço de venda de um livro não gostaria que meus leitores, ao invés de comprá-los nas livrarias, simplesmente baixassem em um site “like-MegaUpload” mais próximo e ainda compartilhassem com seus amigos.

    E novamente obrigado por responder. Li sua resposta várias vezes e vi que você possui muitos argumentos que enriqueceram a discussão, mas na minha limitada visão ainda não consigo concordar. Mas a vida é assim, não?

    Abraço.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Oi Everton,

      Acho que voce entende tudo exceto o ponto 6. É impossível garantir direito de cópia, assim, cópia não tem valor. É botar cerca no ar.

      A pessoa sempre vem com a ideia “puxa, mas é injusto com quem colocou trabalho não receber” — mas é só na instancia da cópia — quando ele cai no público de facto — que ele não tem como receber. Você pensa “bom, mas a lei o protege, então não devemos baixar”, mas o que eu argumento e que voce nao está privando ele de nenhum lucro baseado na realidade do valor da cópia. Leis que não podem ser aplicadas são irrelevantes — é muito justa a lei que diz “nenhuma criança deve passar fome”, mas essa lei é muito mais fácil de aplicar (e não e aplicada) do que defender o direito de cópia. O que eu digo é que, como existe uma lei, o produtor pensa “para cada cópia eu mereço receber algo” — mas a lei está em desacordo com a realidade — não a realidade das coisas que acontecem (isso também), mas a realidade de que bens imateriais (públicos) não podem ser protegidos. Ademais eu chego a mencionar que esse lucro, em particular, criou distorções nem sempre boas no campo da arte — e que antes de haver direito, quando a cópia (que era difícil, mas existia) era livre, na idade média, existia boa produção intelectual. A propriedade intelectual foi criada, embora se argumente que para defender o produtor intelectual, na verdade para defender as primeiras casas editoriais — já aí havia muita sacanagem ocorrendo em nome de remuneração por cópia.

      Se eu achasse antiético baixar, eu não baixaria. Veja a obra de James Joyce, cuja família segurou com unhas afiadas até este ano. Se uma pessoa queria trabalhar academicamente sobre Joyce, o professor já dizia “com ele não vai dar” — a família dificultava o Fair Use ao extremo. Ele morreu em 1942!

      Quando voce diz “ah, o artista passa dificuldade”. Da mesma forma, muito artista é super-remunerado. A remuneraçao do artista tem pouco a ver a) com a qualidade da arte; b) com a capacidade de defender as cópias; Em alguns casos, realmente pode estar ligada a um desses, mas existem muitos casos em que não. O fato e que ninguém espera ficar rico fazendo mimica, uma forma de arte que ninguem da muita bola, mas fando rap, rock — faz parte do glamour da coisa. Porque a arte precisa ser centrada em remuneração? Porque o artista PRECISA receber pelo seu trabalho? A escolha do artista pela arte como profissão, como eu tento ressaltar, certamente nao foi, no mais dos casos, esperando “puxa, nesse caminho eu vou ganhar tanto quanto um médico”. Ele simplesmente não sabe. Nenhum artista sabe se sua arte vai, alem de trazer satisfação pessoal, rendimentos suficientes. Querer garantir esses rendimentos com legislação que está em desacordo com a realidade (e a realidade é “bens imateriais tornados publicos não podem ser protegidos” (não podem = não é possível). Muito louvável querer que as pessoas ganhem dinheiro — só não e loúvavel cobrar por bens não-competitivos — porque? Porque nos sempre compartilhamos esses bens quando era fácil. Agora dizer “pessoal, e´ errado emprestar o livro — a pessoa não pagou, não pode ler”, isso e absurdo. A verdade e que nao ha garantia de rendimentos como artista. Nunca houve. Você podia explodir (por mérito ou por mau gosto das pessoas) e ganhar quantias literalmente absurdas, ou voce podia morrer de fome. E segue assim, na verdade um pouco melhs quantias sao cada vez menos absurdas.

      Sim, eu estou me repetindo, e provavelmente não convenço voce. Mas escrevo para todo mundo quer ler leia, então pode ser que algo fique para alguém.

      Um ponto importante e que não há tanta diferença entre uma patente de medicamento e outras propriedades intelectuais: é um direito humano que temos ao que a humanidade produz, e qualquer esforço em nivelar e universalizar o acesso a bens, em particular os não-competitivos, é não ´só bem-vinda mas necessária.

  • Henrique

    Eu só acho o seguinte: milhares de empresas gastam, sei lá, bilhões de dinheiros todos os anos, criando campanhas e tentando viralizar a sua marca.

    Hoje o artista tem uma música foda, todos copiam, a música viraliza, ele fica mundialmente famoso… tudo isso de graça. Se o artista for bom, a tour mundial já está pronta. Quer modelo de negócio melhor que esse?

    As vezes eu penso que os artistas não gostam desse modelo, afinal, eles precisam se garantir ao vivo, não dá p/ dar uma de Mille & Vanille.

  • http://twitter.com/DEPAIVAOLIVEIRA RICARDO PAIVA

    O artigo atinge O PONTO! A parte final então é perfeita. Parabéns!! 

  • http://profiles.yahoo.com/u/GKFMTD3TXJGM4KSDM4RN4HP444 Osmar

    Em relação a música, vejo que depois que foi inventado o CD não faz mais sentido as pessoas comprarem a obra original. Depois do MP3 ficou mais ridículo ainda a tentativa de vender-se algo que pode ser adquirido de graça. Pelo menos é isso que a grande maioria pensa. Na minha cidade, interior de Minas, haviam dezenas de lojas especializadas em vender discos, hoje acho que só existe uma e é bem decadente (e na surdina faz cópia dos próprios discos que vende).

    Mas como foi dito no texto será que a distorção tá acontecendo agora ou será que ela aconteceu no auge da indústria fonográfica?
    Antes da indústria fonográfica não existiam músicos? Quantos discos Mozart vendeu em vida?

    Penso que inevitavelmente, os artistas, os músicos serão no futuro todos independentes e que as músicas estarão sempre disponíveis de graça.

    A fonte de receita será sem dúvida as apresentações ao vivo e a arrecadação foi pelo ECAD. Muitos compositores ganham rios de direito apenas com o direito autoral advindo da execução pública de suas obras. Até mesmo o You tube vem pagando ao ECAD pela distribuição de conteúdo. Imagino que seja a única solução!

    Agora fica a pergunta: e os escritores? como vão ser remunerados por seus livros?

    • Eduardo Pinheiro

      O mesmo aconteceu com os livros com a invenção da imprensa. Antes os copistas eram supervalorizados. Com a invenção da imprensa de tipos móveis é que começa a disputa por direitos intelectuais e a noção de pirataria intelectual. Antes disso a pessoa compunha um tratado patrocinada pelas pessoas ricas, e pessoas ricas e influentes podiam copiar, eventualmente, esse tratado. O autor não ganhava nada mais pelas cópias seguintes: ele ganhava pelo trabalho encomendado por um patrono.

      O Peter Sunde costuma dizer que uma grande indústria na suécia antes da invenção da geladeira era a indústria de gelo. Com a geladeira, essas empresas faliram. Da mesma forma, certas produções intelectuais não vão conseguir mais ser patrocinadas, e só vão existir como produção pro bono. Outras produções intelectuais vão ser patrocinadas pela publicidade que atraem e produtos vinculados, como é com a maioria dos sites com conteúdo. Você pode imaginar um cenário em que um escritor atraia o leitor com texto gratuito e só dê continuidade quando através de micropagamentos seja atingido um certo valor. É como um leilão de seu trabalho. Você não vende a cópia, mas deixa aberta a possibilidade de recompensar o público pelas suas contribuições.

      De todo modo a literatura como um todo está virando um nicho muito específico, muito reduzido. A economia de atenção também faz a maioria das pessoas simplesmente não quererem e não serem capazes de botar atenção em cima de um livro por várias horas. Isso novamente tem aspectos bons e ruins: a literatura feita para literatos cresce em qualidade e trás dificuldade para quem lê best-sellers. O ponto é sempre questões de qualidade e quantidade, remuneração alta ou baixa, ausência de remuneração, larga distribuição gratuíta, publicidade, doação, patronagem, micropatronagem etc. São várias variáveis. O erro comum é pensar “como mantemos o nível e a qualidade atual de determinada atividade com a impossibilidade de evitar cópias perfeitas, fáceis e gratuitas” — mas essa manutenção não é garantida. Algumas coisas vão piorar e desaparecer, não há dúvida, enquanto outras vão florescer. As pessaos que vendiam gelo tiveram que arranjar outra atividade. Quanta coisa já não mudou no séc XX apenas: gente que vendia vela, óleo para lamparinas, gente que fabricava válvulas, gente que vendia amianto, tubos de raios catódicos… ih, se parar para pensar no dinamismo da economia… A questão é que temos muito apreço e quase uma visão sagrada do produtor intelectual: e ele não vai acabar, isso é certo… mas talvez certas formas, modelos, que tinhamos por comuns se tornem impossíveis — e ao mesmo tempo coisas diferentes surjam. Hoje li a felicidade de Jack Kerouac em comprar uma Enciclopedia Britanica, em 1963. Imagine a wikipedia, a internet… eu lembro o quanto era difícil ver certos filmes antigos estrangeiros antes da internet… achar certos livros. Eu lia sobre A Mulher nas Dunas de Teshigahara, e teria que esperar um especial de cinema japones da nubero bago, porque locadora, nem sonhar. Nos EUA e no Japão, talvez vc achasse em locadora. Hoje, uma busca, um clique e uns minutos e estou vendo o filme, lendo tudo sobre sua produção, pegando todos os outros filmes do mesmo diretor — que 20 anos atrás eu nem sonharia em SABER que existiam. Mudanças positivas como essas são abasbacadoramente extraordinárias — mas certas áreas SERÃO prejudicadas. Então, são dois os pontos: contentamento com o que é positivo e relaxar e gozar com o que é inevitável. E principalmente não se deixar iludir pelas visões dos lobbies poderosos e do conformismo com uma ética baseada em expectativas e garantias no mais das vezes abusivas.

      • http://profiles.yahoo.com/u/GKFMTD3TXJGM4KSDM4RN4HP444 Osmar

        Muito interessante, sem dúvida a humanidade, ou melhor, a tecnologia evolui e o que tem valor hoje pode não ter amanhã, temos que aceitar isso.

        Muito legal essa explanação sobre os copistas, Gutenberg certamente tirou o sustento de muitas pessoas, ou não. Quem sabe tenham virado tipógrafos.

        Obrigado pelo texto, em que conta posso depositar alguns centavos em seu favor? Hehehehehe

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Oi Osmar,

        No meu site, tzal.org, vc encontra o meu paypal. Escrevo na internet desde 1996, e até hoje recebi diretamente 100 euros e 300 reais. Mas esses são patronos extremamente generosos. Quando for mais fácil pagar e todo mundo estiver acostumado a passar pequenas quantias por sites como o paypal, imagino que as pessoas deixem 1, 5, 10 reais com mais facilidade. Mas, com certeza, não creio que mesmo assim dará para viver disso — a atividade não se paga.

        Por outro lado todos os trabalhos remunerados que me sustentam agora advem desse “portfólio” e de minha presença na rede nestes 15 anos. Isso não há dúvida.

        Quanto aos copistas, outra ideia importante é de como a mecanização tira o trabalho, uma preocupação que sempre retorna — robôs em fábricas, etc. Então, não sei a proporção, mas quando uma pessoa faz o trabalho de 1000 copistas, melhor, mais legível e sem erros (um problema grave dos copistas), é claro que nem todo copista vai encontrar trabalho. Ainda mais complicador é o fato de que muitos copistas trabalhavam para a igreja, e portanto relativamente pro bono. E a igreja foi bastante afetada por essa revolução cultural também: Lutero só pôde atingir o público que atingiu através da panfletagem, que seria impossível sem as máquinas. ´Dai você vê, o alemão padrão surge com Lutero — a revolução com uma máquina produz revoluções na estrutura da igreja, da cultura, na identidade cultural de um (ou mais) povo(s)… e quando Guttemberg inventou, ele com certeza não era capaz de entender todas as ramificaçoes econômicas e culturais do que fez. O mesmo ocorre com a internet … quando os caras começaram com isso, ninguem tinha muita ideia do que mudaria com o aumento da banda — também nós agora pensamos ah, leva uns 10 min para baixar um filme 720p… normal… mas se o crescimento de velocidade seguir na mesma curva exponencial, o que levaria meses passou a levar dias, horas, minutos, segundos…. e uma quantidade imensa de cópia vai ser imediata. Hoje se eu fosse uploadear minha coleção de 10tb com minha conexão atual de upload (~70kb/s reais, para 1.6mb/s download), eu levaria 4 anos para uploadear tudo, mas daqui a uns anos, levarei meses, dias, horas, segundos… quando se passar algo como 5000 horas de filmes full HD em 10 segundos de conexão, daí todo mundo já vai estar noutra cultura…

  • http://twitter.com/Pedro_Saiko Pedro Marinelli

    Meus sinceros parabéns Eduardo! Não só pelo belo texto, mas pela visão que o precedeu. Pode parecer um exagero, mas pelo menos para mim isso trouxe um conforto pratico.

    Desde a cruzada instituida pelos USA eu comecei a ver tudo como “muito errado”. Mas seus argumentos me acordaram, por assim dizer. É difícil usar as palavras certo ou errado nesse assunto, mas com certeza tentar impedir o livre compartilhamento de informação é um equivoco, alem de impossível como explicito no texto.Alem é claro de ser uma estupidez ao meus ver. A maioria das coisas que consumimos conhecemos através do velho “boca-a-boca”, a diferença é que agora ele é digital. Impedir isso é arremessar um paralelepipédico contra a maior e melhor vitrine de qualquer tipo de produção intelectual.Mais uma vez parabéns, e obrigado pelos sabios argumentos. Espero ver mais textos seu por aqui!

    o/

  • Thiago Amâncio

    como assim mais ou menos ilegal? uma coisa não é mais ilegal que a outra, não existe uma escala de legalidade (ou falta dela); uma coisa é ou não ilegal.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Um princípio constitucional é superior a uma lei ordinária, mas uma lei ordinária tem mais valor que um princípio constitucional. A maioria das decisões legais pesa duas leis uma contra a outra: é ilegal matar, mas é lícito defender a própria vida. E ilegal censurar, mas o que foi censurado era fala incitando ódio racial. Na constituição americana, o direito de propriedade vem depois do direito à livre expressão. Etc.

      Mas não se foque tanto na minha expressão imprecisa: o que eu quis dízer é claro. Você não pode violar direito de privacidade sem evidência de ação ilegal — você precisa de um mandato, não é mesmo? O que é justo (prefere esta expressão?), violar privacidade de comunicaçao preemptivamente para evitar violação de direito autoral, ou manter a privacidade às custas de possível atividade que viole esse direito? Isso na verdade é irrelevante, porque a privacidade, como o direito de cópia, são, agora, no mundo digital, de facto, não impostas por lei. Qualquer processador caseiro manda seus dados criptografados de um jeito que seria inviável examinar o que eles contém por um processo que não vai render mais do que algumas centenas ou milhares de dólares (o processo por um arquivo entre duas pessoas). Mas o lobby tenta legislar para que o provedor, o site, o facebook, o blogger, o host, etc, examinem o que voce está postando — tambem invíável. Ou seria melhor monitorar tudo para evitar violaçao de direitos autorais? Nao, o direito geral a privacidade é mais forte do que algunmas instâncias de violaçao de de propriedades de alguns. Isso significa “mais legal”.

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Explicação bem clara e didática, Pinheiro. Excelente.

  • http://www.facebook.com/people/Henrique-Werneck/100002259454038 Henrique Werneck

    Gostei do texto, inclusive na parte que o Guilherme comentou: Quando a obra é liberada ao público, não há como ter controle sobre ela. Interessante o ponto de vista abordado no texto.Mas não sei se concordo com a visão geral do texto. Não acho justo alguém trabalhar para criar algo e depois, quando for vender o produto ao público, este toma como se já fosse anteriormente seu.Você citou músicas e filmes. Pois bem, hoje, essas indústrias rendem muito mais do que nas épocas dos LPs e CDs (que aliás, acho que já foi a época dos CDs). Mesmo assim, os filmes contam também com as bilheterias e os músicos com seus shows (que estão ficando cada vez mais caros, diga-se de passagem). Mas no caso dos jogos por exemplo (tendo para este lado, pois ainda quero trabalhar com isso), não vejo como compartilhamento desenfreado de jogos possa ser uma vantagem. Aumenta sim a popularidade do jogo, mas não adianta já que o jogo é o único (acho) jeito de ele mesmo fazer dinheiro.Ainda assim, estou aberto a uma correção ou observação (aliás, conto com uma).

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Jogos podem colocar publicidade e, quando multiplayer, podem cobrar por recursos de rede. Quando eu era criança jogávamos Atari 2600, e os cartuchos (eproms com 4 ou 8kb) custavam caríssimo, digamos agora seria algo como uns 60 reais. Depois comprei um Zx Spectrum, e eu ia numa loja numa galeria (antes dos shoppings haviam “galerias”, algumas já existem) e levava minha fitinha cassete para que eles copiassem algum jogo. Com a reserva de mercado era impossível comprar um jogo, mesmo se você quisesse. Depois vieram os disquetes, 5 1/4, 3 1/2… mesma coisa, você ia num pirata central e pagava (era pouco) para eles gravarem uma cópia. Quando eu tinha um Amiga 500 vinham várias demos e intros nos jogos do pessoal da cena de pirataria na europa, alemanha em especial. Eles craqueavam os jogos e burlavam as proteções. Em 94 eu parei de jogar. Mas não acho que vá ser muito fácil de ganhar dinheiro com games, exceto criando estruturas de rede e hardwares próprios (coisa de grana mais alta), e… mesmo assim nesse caso teremos os piratas comerciais, a grande pirataria chinesa, etc. Reparei que o Tetris que baixei no meu smaphone (e que é grátis) tem publicidade frequente. Talvez chegue uma hora que os crackers fiquem com preguiça de alterar o software para tirar so a publicidade. Mas e um grande “nag”.

      Mas, novamente, a questao nao é se vai ser (já é) vantajoso ou desvantajoso para essa ou aquela produção intelectual. A questão é a impossibilidade de proteção legal ou técnica, e até mesmo da duvidosa ideologia ética que atribui preço a bens não-competitivos e imateriais. Em outras palavras, se alguem estiver ganhando dinheiro ou outra satisfaçao ao produzir algo, esse algo vai continuar a ser produzido.Se não ganhar dinheiro ou outra recompensa, vai deixar de existir.

  • Jonathan

    Discordo, tudo tem dois lados, pra quem não produz nada é fácil se colocar na posição de liberdade total.

  • Anônimo

    Haha, achei engraçado porque eu fiz exatamente o caminho inverso pois sou funcionário público e agora estou saindo pra me dedicar à arte, porque arrumei uma maneira de capitalizar o que eu realmente gosgo: música.

    Tudo bem, talvez eu não fique rico, mas tenho a certeza de que consigo sobreviver disso, e isso já me basta.

    Na verdade cara, eu acho a “pirataria” bem positiva pra te ser bem sincero, pois ela propiciou (juntamente com os recursos tecnológicos como redes sociais, internet, etc..) um intercambio de pessoas com o mesmo propósito e com muitos artistas e pessoas criativas reunidas pode ter certeza de que arrumamos alguma maneira de capitalizar nosso trabalho coletivamente.

    Agora, se vai continuar a aparecer fenômenos nas proporções de Beatles, Elvis, Bieber, sei lá.. que eram como dizia Lennon “mais famosos do que Jesus Cristo entre a juventude da época”, não sei, tomara que não. Acho que nós, enquanto coletivo humano já estamos bem grandinhos pra ficar nessa de cultuar super-herois, não acha?

  • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

    É isso mesmo. E 70 anos após a morte do autor…. é muito tempo. O Partido Pirata luta por uma redução para 5 anos de direito de propriedade intelectual. Isto é, um filme feito agora estaria no domínio público (pela lei) em 2017.

  • Philadelfo

    Um dos textos mais lúcidos sobre o assunto que já li.

  • http://www.facebook.com/kerber.com.br Claudio Kerber

    Muito bom, contudo, para que exista um mercado creio que seja necessário haver alguma troca e apenas darmos a nossa atenção pode não ser suficiente para justificar o investimento de tempo e trabalho dos outros.

    Em 2001 eu escrevi esse artigo para a Fenasoft (http://blog.claudiobr.com/artigo-um-mercado-com-mais-internet-um-mundo) e nele coloco uma alternativa, pelo menos para a música, que ao longo dos anos foi se mostrando válida.

    Eu gostaria muito de ter uma forma de remunerar diretamente quem faz algo que me entretém.

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  • Leonardo Silva

    Amigo, meus parabéns. Eu meus posts, costumo escrever muros de texto (muito maiores que esse) pra debater assuntos, mas nesse eu praticamente não tenho o que discordar. “Bizarro era a situação anterior (com relação à informação), não a atual”.

    Exatamente o que penso. E como os filmes, séries e músicas boas continuam subindo cada vez mais em rentabilidade – mesmo em meio a tanta pirataria, o argumento do prejuízo que afastaria produtores e criadores de trabalhar em suas ideias tem se demonstrado cada vez mais falacioso.

    Estudar a Seleção Natural é bem interessante pelo fato de que ela nos ensina que na Natureza, quem não despende alguma energia para tentar se adaptar está fadado a morrer. Sem drama, é só como as coisas funcionam! E se tem empresa quebrando ou gente falindo nesse meio ainda é porque eles simplesmente não sabem se adaptar aos novos tempos, não atualizam seus modelos de negócio e querem manter seus lucros artificialmente altos no mercado por meio de manobras que estão pela lógica fadadas ao fracasso.

    Conheci um mestre Yogi que dizia que na Índia se caça macacos usando cumbucas com pequenos furos, cheias de grãos-de-bico. Quando o macaco enfia a mão pra pegar os grãos, ele não consegue se soltar porque o espaço do furo é pequeno. E a armadilha funciona porque quando o macaco está preso, a sua cobiça pelos grãos de bico o impedem de soltá-los pra tentar fugir dos caçadores. O mesmo está acontecendo com muitas das produtoras… elas perdem e quebram porque não querem largar o osso e tentar desenvolver um novo sistema de compartilhamento de informações mais coerente com a realidade.

    Mais uma vez, um belo texto.

    Abs.

  • salvador

    Ninguém nega que informação é um bem público (não consumível e não rival). É justamente por ser um bem público que uma sociedade sem defesa de “propriedade intelectual” vai ter muito mais gente DEMANDANDO informação do que PRODUZINDO.

    Dessa forma, o raciocínio no papel parece lindo, mas não explica POR QUE alguém iria produzir bens informacionais na quantidade que a sociedade deseja CASO não possa ganhar praticamente nada por isso. Vai ficar só dependendo do amor à arte mesmo, o que pode até gerar arte, não cultura na forma de bens de consumo (que também são desejáveis pelas pessoas).

    Se não existisse o cenário em questão, Elvis seria só um menestrel, que tocaria de bar em bar. E todo seu talento já teria sido esquecido. O mesmo vale para Beatles, Michael Jackson, etc. E ninguém teria sido beneficiado pelo consumo de suas músicas.

    É fácil fingir que não existe custo de oportunidade. Revela profundo analfabetismo econômico e invalidada a conclusão alcançada, mas tudo ok.

    Fico no aguardo de que, um dia, alguma “tradução” sua seja copiada, digamos, pela Martin Claret. Sem autorização. Alguém vai lá e se apropria do seu trabalho.

    Isso significa que você recebeu um pedaço do valor do seu serviço muito inferior ao que seria adequado para que as pessoas continuem a produzir esse serviço… em um volume desejado para a sociedade.

    Ah é verdade, se não tiver sido substituído por um Pietro Nassetti qualquer, você terá a incrível REGALIA de ter sido lembrado. Mas uma vez que ATENÇÃO não enche barriga de ninguém, a maioria das pessoas quer coisas mais palpáveis.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Uma única produção pode atingir a todos via cópias, então a demanda é por novidade, que pode ser provida por um mecenas, por exemplo. A ideia de que a demanda aumente é absurda: na verdade as leis de direito intelectual e o capitalismo tendem a causar obsolescência programada e competição por recursos artificialmente tornado escassos que então criam uma ILUSÃO de demanda. Em outras palavras, não existe “avanço” cultural: é perda NOSSA não apreciarmos tanto Shakespeare, que está no domínio público, e pagarmos uma nota por Dan Brown. Fazemos isso por pressões artificialmente criadas, isto é, a cultura de massa criada pelo direito intelectual.

      Quanto a minhas traduções, depois que me pagam pelo trabalho que fiz, em geral não recebo mais nada. É comissionado. Há casos de tradutores que tiveram suas obras compradas pelo governo, por exemplo, e nesse caso os direitos de tradutor passam a render algo. De outra forma, antes de 5000 cópias, não há direitos de tradução, que são 0,4 ou 0,8% do lucro líquido (acima de 5000 cópias) na Alemanha, por exemplo. E já assinei contratos abrindo mão desses direitos, — nada que traduzi chegaria nesse montante de 5000, de toda forma. E acho que o preço comissionado está de bom tamanho. Se o editor quiser pagar, ótimo, senão a comissão é suficiente.

      E na verdade cobro o mesmo de uma editora ou de um um individuo, um professor, que está pagando uma tradução que vai usar em sala de aula, do seu bolso, sem comprar os direitos de publicação. O trabalho é o mesmo para mim. A saber, cobro seis centavos a palavra.

      • Salvador

        Sim, pode ser produzida por um mecenas, vamos todos voltar à época do império romano ou do renascimento, quando não havia indústria cultural.

        É justamente o direito intelectual que AZEITA essa indústria de massa (cf. vc reconhece, embora dê de barato que, se não existisse, as pessoas estariam melhor, pois consumiriam arte).

        Sua resposta trata arte e cultura de massa como substitutas, e pressupõe que quem não consome uma passaria a apreciar a arte. Presunção esta inválida: até o século XIX, não existia cultura de massa como atividade economicamente organizada, mesmo assim a arte era restrita a uma elite/aristocracia. Meio que parecido com a situação atual.

        MAS o fato de ser um produto, um bem de consumo, não o torna algo inferior nem que mereça ser extinto. Se alguém escolhe consumir Dan Brown a ler Shakespeare, embora o segundo seja inegavelmente mais elaborado, isso é assunto de preferência individual e a priori ninguém tem procuração pra ditar como alguém adquire satisfação em seus momentos de lazer.

        Sem falar que a fronteira existe, mas pode ser transposta, de acordo com a convenção. O romance romântico folhetinesco (De Dumas a José de Alencar) e o jazz são exemplos.

        Claro que a demanda por cultura de massa é “criada”. E DAÍ??? A de arte também. Nesse raciocínio, TODAS SÃO, só a demanda por comida e abrigo seria autêntica…

        A indústria cultural pode existir sem o direito autoral, claro. Mas terá uma produção INFERIOR à ideal, deixando assim menos pessoas satisfeitas do que seria possível.

        CONCLUINDO: o direito autoral é uma criação que OTIMIZA a indústria cultural de massa. Considerando que as pessoas a consomem E não é algo proibido por escolha coletiva, é uma coisa boa para elas, e não deveria ter seu tamanho diminuído.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Não sei se você leu meu texto mas a minha argumentação pressupõe muito mais que direitos intelectuais sejam IRRELEVANTES do que entre na questão deles serem melhores ou piores para “a humanidade”. Isto pelas inovações que se deram, isto é, pela realidade da facilidade de cópia.

        Tendo em vista isso, o desenvolvimento que se segue é que não NECESSARIAMENTE é pior sem direitos intelectuais, visto que os direitos intelectuais criam uma “indústria”, o que por si só não necessariamente é bom. Aliás, é meio vergonhoso pensar em “indústria” intelectual como algo bom. E de fato, cultura de massa é inferior. Mas novamente, essa valoração é irrelevante, porque já passamos á cultura de nicho. E a cultura de nicho se dá muito bem com as práticas de cópia e o natural IGNORAR de direitos que não podem ser preservados pela natureza da realidade.

        Na minha valoração, derrubar a indústria cultural é bom para a cultura. :)

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