Como explicar o homem? – Parte 3

Rodolfo Viana

por
em às | Debates, PdH Shots


Depois de falarmos do homem como ser racional limitado e como um indivíduo além das explicações biológicas, trazemos para a discussão a questão do nosso posicionamento diante de nossos pares de maneira a influenciá-los e a sermos influenciados.

Ok, nenhum homem é uma ilha. E estamos mais ligados do que podemos imaginar. É uma das leituras possíveis do texto escrito por Alana Conner e Hazel Rose Markus, o terceiro e último artigo da série “Como explicar o homem?”. (Leia o primeiro e o segundo.)

Você pensa; logo, eu existo

Por Alana Conner, escritora especializada em ciência e curadora do Museu de Tecnologia de San Jose, Califórnia; Hazel Rose Markus, professora de Ciências Comportamentais da Universidade de Stanford

“Penso; logo, existo.” Cogito ergo sum. Lembra desta ideia profunda e elegante do livro Princípios da Filosofia, de René Descartes? O fato da pessoa contemplar se ela existe, Descartes apontou, prova que, de fato, ela existe. Com esta simples afirmação, Descartes costurou duas ideias centrais da filosofia ocidental: 1) pensar é algo poderoso, e 2) indivíduos têm um grande papel na criação dos seus próprios “eus” – isto é, suas piquês, suas mentes, suas almas.

Muitos de nós aprendemos a parte do “cogito” em algum momento da nossa educação formal. Ainda assim, a minoria estuda uma ideia igualmente profunda e elegante em psicologia social: o pensamento de outras pessoas moldam de maneira poderosa os nossos “eus”. De fato, em muitas situações, o pensamento de outras pessoas tem um impacto maior nos nossos pensamentos, sentimentos e ações do que os pensamentos que temos enquanto filosofamos sozinhos.

Em outros termos, na maioria das vezes, “você pensa; logo, eu existo.” Para o bem e para o mal.

Um exemplo diário de como seu pensamento afeta o estado das outras pessoas é o efeito Pigmalião. Os psicólogos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson capturaram este efeito em um estudo clássico de 1963. Depois de dar um teste de QI para alunos do ensino fundamental, os pesquisadores disseram aos professores que os alunos seriam “surtos acadêmicos” por causa do seus QIs supostamente elevados. Na realidade, os QIs destes estudantes não eram superiores aos dos alunos “normais”. No final do ano letivo, os pesquisadores descobriram que os “surtos” tinha alcançado as melhores notas e QIs mais altos do que os “normais”. O motivo? Os professores esperavam mais dos surtos e, portanto, dedicaram a eles mais tempo, atenção e cuidado. E a conclusão? Espere mais de alunos e obtenha melhores resultados.

(…)

Como o planeta fica menor e mais quente, saber que “você pensa; logo, eu existo” pode nos ajudar a entender com mais rapidez o quanto afetamos os nossos vizinhos e o quanto somos afetados por eles. Não ter a ciência do quanto impactamos a vida um do outro pode nos levar a repetir os mesmos erros.

Com este artigo, encerramos nossa seleção dos textos do site Edge. Lembramos que nenhum dos textos deve ser percebido como verdade absoluta. O objetivo de cada um deles é apenas iniciar um debate. Você concorda com as autoras? As ideias fazem sentido para você ou soam como blablablá? Conhecem visões melhores ou complementares?

Rodolfo Viana

Torce para o Marília Atlético Clube. Nunca aprendeu a dirigir. Cozinha bem. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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15 comentários

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  • http://www.facebook.com/people/Diego-Borin-Reeberg/100001265593110 Diego Borin Reeberg

    Assisti esse vídeo hoje onde o psicólogo-logoterapeuta Viktor Frankl fala em breves 4 minutos quase que dialogando com essa ideia postada: 
    http://www.ted.com/talks/viktor_frankl_youth_in_search_of_meaning.html?source=facebook#.T0OGKPQHa1d.facebook

  • http://facebook.com/lourenzoavelar Lourenço Avelar

    “Penso, logo existo” considerando a frase muita gente não existe.

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Eu acredito que boa parte do que uma pessoa aprende, se dá através de outras pessoas. Eu acho que até as fontes onde as pessoas vão buscar conhecimento depende das indicações de amigos, mestres ou familiares.

  • Geraldo Franca

    Liberdade, em minha opinião, é quando a opinião dos outros deixa de moldar nosso “eu” e como tomamos nossas decisões.

    É claro que a pressão e consciência da não realização pelas expectativas dos outros, faz com que eu passe não considerar mais viver dessa forma espelhada e tente tomar minhas decisões pelo que sou.

    Mas é um beco sem saída, mais uma vez em minha opinião, pois alguém vai dizer que o meu eu foi moldado e mesmo que eu pense que estou saindo fora disso, na verdade essa saída é apenas de um “eu” que é produto da sociedade.

    Tem uma entrevista que pode complementar isso, é do filósofo Alain de Botton. Não conheço a obra dele, mas achei pertinente o que ele fala sobre ambição e desejo de status.

    Ele fala que: Diferentemente da ambição, que é uma vontade de crescer para satisfação pessoal, o “desejo de status” se origina da preocupação com o que os outros vão pensar. As consequências podem ser várias, desde a riqueza até o suicídio.

    Link: http://revistaalfa.abril.com.br/estilo-de-vida/sociedade/nos-somos-uma-especie-ingrata%E2%80%9D-diz-filosofo-alain-de-botton/

    • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

      Olha que legal esse exemplo. O Geraldo Franca escreveu e eu concordo: “Liberdade, em minha opinião, é quando a opinião dos outros deixa de moldar nosso “eu” e como tomamos nossas decisões.”A situação da atual sociedade de mercado moldando a nossa existência é observada quando a pergunta é: Qual a importância do dinheiro?? E a resposta bem comum; Ahh é que o dinheiro te dá liberdade.

  • http://twitter.com/Feijacolate André Andrade

    “Penso, logo existo.” A pergunta que vem depois seria: Mas quem sou?
    É a partir dai que precisamos das outras pessoas, eu sou o que acham de mim, de acordo com alguns parâmetros. 
    É por isso também que as vezes somos mais de uma pessoa, dependendo do ambiente.

    E tomo aqui ainda um exemplo fictício, mas porem muito interessante: o menino Mogly criado por lobos, realmente achava que era um lobo. Ou será que não?

  • http://shotsarge.blogspot.com Marcio Sarge

    Esse texto foi o mais interessante até agora, ao menos para mim, que já acreditava que nossa consciência sobre nos mesmo esbarra nas pessoas que nos cerca. O título “Você pensa, logo, eu existo” não poderia ser melhor.

    Acredito que isso pode ir até muito mais além que nossas conexões sociais do dia a dia, tipo escola, trabalho, amigos do bairro… por exemplo, pessoas que leem muito tende a ser consideradas mais sábias, donas de um temperamento controlado, bons julgadores etc. Pois bem, pessoas que leem muito de certa forma absorveram muito da personalidade dos seus autores preferidos, o pensamento deles compõem parte da personalidade daqueles que os leram.

    Nesse ponto tão importante quanto escolhermos bons amigos é escolher bons livros, bons filmes, bons sites, boas revistas… com a internet, alias, nos dividimos tanto em vários pensamentos que corremos o risco de não sermos.

    • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001076566798 Edgar Moreno

      Bem no alvo esse último parágrafo…

  • http://www.facebook.com/andre.nascentes André Nascentes

    Me lembrou o texto “Você sabe que é fake, né?” do Clayton Bruno aqui no PdH (
    http://papodehomem.com.br/voce-sabe-que-e-fake-ne/). Em muitas situações criamos as personagens  de acordo com o que os outros pensam e esperam de nós.

    • http://www.facebook.com/people/Isa-Belli/1584206490 Isa Belli

      Eu diria que bem mais que isso, Bruno: grande parte do que esperamos de nós mesmos também se dá em função do que esperam de nós. Nos vemos como parte ou não parte de algo que se impõe ou é apresentado a nós, seja esse algo uma família, um time de futebol, uma instituição acadêmica, uma tribo, nação, uma preferência musical ou literária, uma geração. Sempre há um referencial  positivo ou negativo para nos definir de alguma maneira. Há mais contingente do que essência em nós.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1066327634 Dani Stark

    Esse texto, pra mim, faz todo sentido. Mostra a forma como o individuo se relaciona com a sociedade. Você não existe fora de um contexto social, e a suas atitudes se transformam dependendo de onde você está, e do que aquele grupo social espera de você. 

    Sim, cada um tem sua personalidade, mas ela também é moldada pelo contexto social. O importante é refletir e avaliar qual sua posição na sociedade, e, de que forma você se relaciona com ela.

    Um texto muito bom pra refletir.

     

  • Lúcio

    A relação entre o que foi pensado pelas pessoas ao meu redor e como isso impacta na formação do meu eu (você pensa, logo, eu existo) é um dos principais pontos a se trabalhar nessa sociedade hiper conectada.

  • http://www.facebook.com/people/Breno-Caíque/100001043598134 Breno Caíque

    É a obviedade escancarada e jogada na nossa fuça. Qualquer contato com o outro nos afeta e o afeta de maneira direta e indireta, os pensamentos como parte racional e limitada atuam em função de outro ser. Nos preocupamos com opiniões alheias e menos com o que realmente importa, e ao mesmo tempo não conseguimos medir o grau da intensidade que nossos atos e pensamentos afetam os demais. Logo isso afeta diretamente o conflito entre os sexos. Os 3 textos dialogam entre si na medida que tentam explicar o ser humano de maneira racional, o que é impossível, somos seres inconstantes que mudam a cada experiência vivida! É como querer comparar apenas o genótipo humano esquecendo seu fenótipo – e vice-versa. A beleza da vida está justamente na incerteza que ela nos proporciona.

  • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

    Também gostei da integração entre os 3 textos. Esse último é o mais discutível em minha opinião.

    O motivo? Os professores esperavam mais dos surtos e, portanto, dedicaram a eles mais tempo, atenção e cuidado. E a conclusão? Espere mais de alunos e obtenha melhores resultados. 

    A conclusão aqui é inversa em minha opinião; dediquem mais tempo, atenção e cuidados aos alunos que eles apresentaram melhores resultados. É complexo, meio “The Secret” + Efeito Placebo.

    Por exemplo, quando informamos ao paciente que a aspirina custou 5 reais ele se cura mais rápido do que se souber que custou 0,50 centavos (a mesmo aspirina).

  • http://www.facebook.com/people/Isa-Belli/1584206490 Isa Belli

    Rodolfo, seus textos são ótimos e confesso que já estava sentindo muita falta deles… mas essa série foi especialmente fantástica e engrandecedora. Parabéns!

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