Semana passada, acompanhei a discussão, via twitter, sobre mulheres santinhas e ousadas. Decidi então fazer alguns comentários que excedem um pouco o limite de 140 caracteres…
Antes de prosseguir, uma observação importante: todos os tipos e categorizações usados no texto são para efeito lúdico e não pretendem representar de modo algum a realidade. Eles apontam para padrões, não pessoas.
Por exemplo, é errado chamar de “fumante” alguém que é livre para deixar de fumar a qualquer momento, mas como não chamar de “fumante” alguém que teima em manter o mesmo hábito com frequência diária? Todas as pessoas são naturalmente livres de qualquer padrão (negativo ou positivo) que elas possam manifestar.
Com isso em mente, vamos analisar alguns tipos de padrões atuais nos quais muitas mulheres se movem. Para que a autêntica ousadia surja sem impedimentos, não pode existir nenhuma fixação obstruindo o fluxo da liberdade feminina. Ao analisar os padrões, não vamos congelar as mulheres e sim entender como facilitar o processo de liberação. O texto se destina aos homens, até porque eu não saberia dizer o que as mulheres podem fazer para ir além desses padrões – afinal, dar conselhos para as mulheres, sem ser uma, é algo um pouco estranho, não?
Se prepara, pendejo
Ela vai encontrá-lo direto no restaurante pois vai sair em cima da hora de uma reunião importantíssima com seu maior cliente. Ela escolheu o restaurante, a comida, o dia e o horário. Pratica corrida, fuma e tem todos os gostos e opiniões consolidadas: música, cinema, literatura, filosofia etc.
Quando quer pizza em casa, não pede para você ligar. Quando está com frio, não diz “Estou com frio”: ela vai lá fechar a janela. Em sua realidade, homem é mais um acessório, igual ao revisteiro novo que ela comprou. Isto porque ela já possui aquilo que um homem tem, mas não desconfia do que poderia nela surgir assim que recebesse, de fora, toda essa potência masculina. A mulher-homem não aceita ser conduzida, não se entrega, dificilmente é rendida.
A saída? O homem que ama uma mulher que possui muita energia masculina deve se relacionar com o feminino, caso contrário vai competir com o masculino presente nela. Você não vai abraçar a mulher-homem, você vai abraçar a mulher. Ela vai chegar em casa e agir, por hábito, do mesmo modo que age no trabalho: tomando decisões, antecipando, planejando, se preocupando com tudo.
Você fará um favor a ela se quebrar esse padrão. Coloque-a na posição feminina, convide-a para dançar tango ou gafieira. Ela vai resistir ou tentar conduzir os movimentos, mas você pacientemente observa como ela cada vez mais vai se sentir confortável na posição de entrega, na confiança de sua condução. Ensine algo (a posição da aluna facilita a entrega), faça uso de surpresas, coloque-a no carro e não conte o destino, quebre planejamentos, não aceite nada menos do que sua completa rendição.
Ela definitivamente não brilha. Cabelos presos, pouca maquiagem, roupas que parecem ser de sua avó. Ombros caídos para frente, cabeça baixa, andar hesitante. Ela não cuida do cabelo, não usa aquele Victoria’s Secret de pêra que você adorava cheirar em suas ex-namoradas. Ela sorri pouco e não bebe. Você não consegue imaginá-la fazendo sexo, de quatro, gritando. Ela sempre namorou com homens pouco ousados. Ainda assim, projeta sua feminilidade em filmes e novelas, nos vários livros que lê e nos espetáculos de dança e teatro que vê toda semana.
Se ama uma mulher com esse padrão descolorido, você naturalmente já vê qualidades positivas e pontos de liberdade. Você vê cores. Para superar o padrão, basta agir com essa perspectiva, sem acreditar que ela seja mesmo uma mulher-pastel. Ela chora com a história de Jesse e Celine no filme Antes do Amanhecer, mas ainda não sabe que ela mesmo pode ser a personagem principal, que pode incorporar Celine em sua vida, com seu corpo. Antes de fazê-la se exibir ao mundo, você terá de desamarrá-la, soltar seu cabelos, retirar a tensão, fazer massagem e passar você mesmo o Victoria’s Secret de pêra em todo o corpo dela. Você se apresentará com a ousadia de Jesse e não aceitará nada menos do que a mesma ousadia dela.
Ela é o contrário da mulher-pastel. Cabelos sempre impecáveis, roupas que parecem ser da única atriz pornô cujo nome você lembra, ombros para trás, bunda empinada, peitos colados e saltando na sua direção. Ela anda como se já estivesse de quatro, urrando na cama. Ela já está toda solta. Isto chega a ser frustrante pois não deixa trabalho algum para você! Como no caso da mulher-homem, aqui também um homem é apenas acessório para o show que ela quer encenar.
A saída é ignorar a identidade de puta e se relacionar com aquilo que ela não mostra. Como ela exibe o corpo, nos primeiros encontros você não vai olhá-lo nem tocá-lo. Vai propor longas conversas para mostrar que sexo também se faz com olhares e jogos sutis de linguagem. Eventualmente, você descobrirá que ela tem dificuldades em ter prazer na cama, que a manifestação pública de libido escondia uma mulher como qualquer outra, que ela acha mais fácil dar a boca para 20 homens na balada do que entregar seu corpo ao único homem que ama.
…
Eis alguns exemplos caricaturais para explicitar a seguinte estrutura de liberação: ignorar o padrão, focar e se relacionar com a liberdade do outro. Agora, se você adora o padrão e se vinculou a ele, sua situação é bem pior. Um homem-mulher adora ser conduzido por uma mulher-homem, um homem-pastel ama uma mulher-pastel que não exige sua transformação, um homem-cafetão só quer saber de mostrar sua mulher-puta aos amigos (como ele não é bom de cama, nada melhor do que uma parceira que também finge ser).
Aguardem a segunda parte do artigo, com…
Ações masculinas que liberam a ousadia de uma mulher
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Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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