Continuação da Parte I, meus caros.
Falar dos padrões femininos é contar apenas metade da história. Há incontáveis hábitos e vícios masculinos que também impedem a liberdade feminina.
Eles se dividem basicamente em dois tipos: aqueles que obstruem, reprimem e restringem uma mulher – um exemplo vem dos homens que proíbem suas parceiras de usar decotes generosos ou minissaias (sim, isso ainda existe) – e aqueles que não facilitam a radiância feminina – como aquele parceiro que age de modo previsível, faz um sexo morno e nunca propõe uma aventura.
Quer? Tenta pegar, campeão…
No entanto, em vez de falar dos comportamentos negativos dos homens, prefiro tratar de ações positivas que podemos já expressar, seja qual for o padrão ao qual estamos presos. Ações que liberam qualquer um dos padrões femininos ao apontar diretamente para nossa natureza espontânea, flexível, aberta, relaxada.
Um dos sentidos para “medíocre” é ser médio, mediano, moderado, longe dos extremos. A ousadia, ao contrário, nasce do flerte com os limites da experiência, dos extremos da vida. Como desejar uma mulher ousada se você ainda mantém opiniões arraigadas, se seu corpo não tem gingado, se você nunca testou seus limites com esportes, alucinógenos, prática espiritual ou investimentos de risco?
Ela já está cansada de mediocridade, ela não aguenta mais as conversas comuns do seus colegas, os surtos medianos de suas amigas, o bla-bla-blá pálido da mídia. Ela quer algo que a tire do chão, que a surpreenda. Vida que só se encontra nos extremos.
Por generosidade, não podemos aceitar a visão que uma mulher tem de si mesma. Ela é mais, sempre mais. Ela é essa capacidade de ser – não o movimento, mas a capacidade de se mover. Mais do que a coreografia que vemos, ela é a dança. Às vezes, os hábitos travam uma mulher, a coreografia engessa o corpo, os gestos se repetem sem novidade e lentamente perdem o brilho.
Para nos sentirmos vivos, às vezes é preciso estuprar a vida, cortar e foder com tudo. Desrespeitar uma mulher é quebrar a coreografia, interromper padrões negativos, violar condutas. Jogá-la de um lado a outro, remover qualquer trava que ela insista em reter, sorrir para os obstáculos, dançar com ela, pegá-la colo, enchê-la de si mesma. Fazer do seu carinho uma miríade de toques que vai desde o leve tangenciar (meio centímetro de distância da pele) até um tapa na cara no meio da transa.
Chão limpo, cama arrumada, ar perfumado, música gostosa, comida na hora certa, celular desligado, piscina aquecida. Ao adentrar um local assim, uma mulher se sente muito confortável para se entregar. Está tudo pronto, nenhuma decisão a ser tomada. Ela só tem de se preocupar com o copo de vinho em suas mãos.
Do mesmo modo, quando uma mulher entra na casa de um homem sem pendências, ela naturalmente se sente confortável. Ela repousa, relaxa. Vocês podem ficar deitados de olhos fechados ou dançar um pouco na sala ou ver um filme ou derreter chocolate e cortar frutas ou se comer inteiros ou sentir a brisa da noite ou… Dá aquela sensação boa de liberdade: “E agora? O que fazemos?”.
Mulher é igual música, perfume, comida e cachoeira. O feminino é isso que nos enche de energia, que se move ao nosso redor, que ativa nossos cinco sentidos. Quando comemos uma boa picanha grelhada, podemos apenas digeri-la ou realmente nos deliciar com ela.
Quando ouvimos o álbum In Rainbows, do Radiohead, podemos analisá-lo friamente ou de fato sermos movidos pelas emoções implícitas naqueles mundos. Uma mulher somente se abre quando nós estamos abertos, ela se solta quando nós estamos soltos. Para liberar o feminino, delicie-se com ele. Desfrute, deguste, sorva, abunde-se, frua, devore uma mulher. Ela é inesgotável: quanto mais você sugá-la e movimentá-la, mais ela terá a oferecer.
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Até a mais santinha guarda toda a ousadia do mundo dentro de si. Ora, se nossa essência é a liberdade, como acreditar que existam mulheres “homens”, “pastéis” ou “putas”? Como acreditar que existam “mulheres-lanchinho”, “piriguetes“, “malas” ou “santinhas”? Se vemos solidez nas qualidades negativas, isso é obstáculo nosso. Se não sabemos como se relacionar com o melhor dos outros (em vez de reclamar do pior), isso é falta de habilidade nossa.
Para que as mulheres sejam ousadas diante de nossa presença, temos primeiro que ousar ver a liberdade até mesmo na pior das prisões, ousar ver beleza nas dez direções, ousar para além das visões comuns, além de “lanchinho” e “piriguetes”. Arriscar a loucura, andar sobre o desconhecido, não temer abismos. A ousadia começa em nós.
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Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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