Cometi Orkuticídio
Conversei dia desses com um amigo sobre a massiva presença brasileira no Orkut, e tentamos fazer previsões sobre as possíveis atitudes do Google sobre esse fato.: Publicidade ultra-segmentada? Assinatura do serviço? Extinção? Em suma: Nenhuma conclusão sobre o porvir deste fenômeno que, apesar de americano, é a coisa mais brasileira da Internet.
Se o futuro é incerto, no momento o Orkut está decadente, pois perdeu o frescor de novidade. Antes, a curiosidade guiava as pessoas até lá; hoje, me parece ser a lucidez que as mantém longe. Esse desacordo me assolou com a necessidade de entender o impacto do site sobre a vida das pessoas. Como ponto de partida, observei os exemplos de pessoas próximas e a mim mesmo. Recentemente, e depois de alguns fatos testemunhados, eu cometi orkuticídio (eliminação voluntária do perfil).
Seria o Orkut um totem da nossa inerente necessidade de sociabilização? Marcelo Coelho, em sua coluna na Folha de S. Paulo, definiu que é assim que o histórico espírito de cordialidade brasileira (o tapinha nas costas) sobrevive também no meio dessa modernidade. Mas achei que isso seria apenas um sintoma, e algo maior está velado na relação com o site.
Mr. Orkut, obrigado? Not!
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Hoje, à distância, o Orkut se mostra a mim algo como um emblema reducionista. Ainda que eu reconheça o que ele me ofereceu quanto ao resgate da minha história – amigos de infância e adolescência fragmentados em lembranças; a volta de pessoas queridas, mas distanciadas – entendi que a brincadeira foi transformada em exercícios de vaidade esquizofrênica.
Ainda não vi pesquisas, mas li opiniões e presenciei acontecimentos, e isso me causou firmes impressões sobre possíveis prejuízos quanto ao uso do Orkut. Intuo que esses arremedos de agregação social podem debilitar personalidades, pois reduzem muito do esforço necessário e imprescindível que temos na vida para manter relações interpessoais. Isto, o site simula com maestria e ameniza a ansiedade desse processo. A alma humana precisa de ritos, bem como impor restrições a si mesma. Facilidade nem sempre é virtude. As situações bem-sucedidas que acontecem – reencontro feliz com o passado, histórias de amor que dão certo, novas amizades que serão aprofundadas – não têm sua realização atrelada à tecnologia. Independente do ambiente, essas coisas são possíveis.
O brasileiro e sua relação de amor e ódio.
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Mas no Orkut não existe uma linha que separe o público e o privado, uma vez que normalmente os scrapbooks são abertos e todos podem ler conversas inteiras. Penso também na ansiedade repetitiva que a chance de novas mensagens pode gerar. Qual o motivo para alguém expor particularidades desabonadoras, escancarar a vida afetiva e agonizar nessa praça pública virtual como assim o fazem? O “about me” é um palco irresistível, pois permite o desfile de identidades em múltiplos trajes virtuais.
Depoimentos são atestados tortos sobre a índole de desconhecidos, já que não é costume falar mal dos amigos em público. Conceitos se confundem, valores se camuflam, a intimidade é falsa e superlativos tornam-se moeda de troca. Têm-se desde uma honestidade pungente – que, desconectada, na vida social seria revogada pela concepção de respeito ao outro – até mentiras complexas. Tudo em busca de um reflexo impossível de ser conseguido num cotidiano concreto; mas, forjada e anônima, essa dissimulação pode fazer frustrações encontrarem cumplicidade e solidariedade, além de animar egos.
“Quantos testimonials… Eu sou o máximo!”
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De modo ilusório, as verdades sociais são minimizadas, a geografia torna-se irrelevante, o status é nivelado. Quem faz sucesso – ou quem coleciona maior número de pessoas e/ou recebe maior número de scraps – são aqueles que têm habilidade em se comunicar. Ou talvez as pessoas que melhor repliquem, por meio de seu perfil, os estereótipos românticos e sexuais vigentes, autônomos a preferências de gênero, e sejam projeções desejáveis – a elas destinam-se o resplendor e a certeza de adulação. Eis a regra do Orkut: uma pálida, porém leal, imitação da vida.
Soube de uma história de amor que começou no Orkut, mas, ao ser convertida à vida real, ruiu dramaticamente. Até o encontro efetivo, que prometia ser a concretização de um desejo compartilhado por duas pessoas desconhecidas separadas pelo destino, o efeito de realidade norteou e legitimou a esperança do afeto ser verdadeiro. Infelizmente não era. Enfrentada, a realidade fez emergir os defeitos que voluntariamente se ocultaram por entre e-mails, chats no messenger e telefonemas interurbanos. Faltou aos amantes a consciência de que a ausência do corpo, a falta de convivência e a omissão de detalhes das personalidades de ambos não sustentam a concretude que uma relação exige. A despeito da dor imobilizante para uma das partes, a relação, baseada em valores desatrelados da verdade, terminou com a previsível facilidade de desligamento pela outra. A virtualidade justifica atitudes.
Pesei a relação custo-benefício e fugi dessa floresta digital paranóide. No momento em que eu apagava meu perfil e lembrava da “lista de amigos”, uma frase de Proust ecoava em mim: “A amizade não é mais que uma mentira que nos faz acreditar que não estamos irremediavelmente sós”. Os simulacros do Orkut autenticaram para mim o ceticismo dele. Ao contrapor com a vida real, meu orkuticídio foi feito com alívio e paz de espírito.
Keid vem do Suriname.
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