Bob Guccione, criador da Penthouse | Homens que você deveria conhecer #12

Thiago Rocha Kiwi

por
em às | Cultura, Entrevistas e perfis


“Se me fosse pedida uma resposta de uma linha à pergunta ‘O que faz uma mulher ser boa de cama’, eu diria ‘Um homem que é bom de cama’” –Robert Guccione (1930-2010).

Semana passada morreu um cara responsável por revolucionar o mercado editorial erótico mundial. Bob Guccione, um americano filho de italianos nascido em pleno Brooklyn, em Nova York, construiu um império graças ao atrevimento de trazer o nu frontal para as páginas das revistas masculinas.

Se não fosse ele, essa ainda podia ser a cara das revistas masculinas hoje.

Guccione cresceu em uma família tradicional católica e casou-se com a primeira de sua três esposas muito cedo, antes mesmo de completar vinte anos. O casamento, entretanto, não deu certo. Bob sentia que ainda tinha um mundo para explorar e desejos para realizar. Com esse pensamento, mesmo com uma filha pequena, abandonou sua família e decidiu ir para a Europa para realizar seu sonho de estudar artes plásticas e se tornar um pintor.

Morando e estudando na Velho Continente, Bob conheceu Muriel Hudson, a inglesa que viria a se tornar sua segunda esposa. Com ela, Guccione teve outros dois filhos. Mas a vida em Londres não era fácil. Para sustentar sua família, Bob trabalhava em uma rede de lavanderias enquanto fazia freelances como desenhista para alguns jornais.

Capa da primeira Penthouse, de 1965, com fotos tiradas por Guccione. Compare com as da Playboy abaixo...

O que deu a Guccione o insight para que ele desse início a uma nova carreira foi perceber o sucesso que sua mulher estava tendo com a venda de posteres com fotos de pin-ups. Vendo que havia um grande público masculino em busca fotos de mulheres, Bob criou, então, a Penthouse, cuja primeira edição foi publicada em 1965, na Inglaterra, com fotos tiradas por ele mesmo em um estúdio improvisado.

A revista tentava concorrer com a americana Playboy, que, era a líder de vendas nos Estados Unidos. A Penthouse, entretanto, era diferente. Seu conteúdo era muito mais explícito e sensacionalista do que o da revista de Hugh Hefner. A Penthouse era voltada para o público da classe trabalhadora, sendo a primeira a ter de fato o nu frontal.

Duas edições da Playboy em 1965. Ficou clara a diferença com a Penthouse?

Não demorou muito para que Bob e seu império chegassem ao maior mercado consumidor do mundo. Em 1969 a revista foi lançada nos Estados Unidos oferecendo um conteúdo sexual muito mais explícito do que a maioria das publicações masculinas daquela época.

Guccione também não tinha vergonha de jogar baixo. Para aumentar as vendas de sua revista, ele, diversas vezes publicou fotos não autorizadas de modelos e celebridades como Madonna. Um desses ensaios, inclusive, acabou custando à Vanessa Lynn Williams o seu título de Miss America, que ela havia conquistado em 1983.

Poucos anos depois, no início dos anos 1990, Bob inovava novamente, colocando nas páginas de sua revista imagens de sexo explícito, tendência que o mercado norte-americano só começaria a seguir dez anos mais tarde.

O sucesso que a Penthouse fazia permitiu que Guccione investisse ainda mais no mercado editoral. Sob o selo da Penthouse International Inc., foram lançadas diversas novas revistas sobre os mais variados temas. O império criado por ele lhe permitiu uma vida de luxos e acesso a tudo aquilo que ele não teve quando jovem. Sua mansão de 30 quartos, por exemplo, era uma das maiores e mais caras de Manhattan. Bob ainda possuía uma vasta coleção de obras de arte com pinturas e esculturas de nomes como Botticelli, Salvador Dalí, Renoir e Van Gogh.

Ah, e se você assistiu ao filme Calígula (1979) quando era adolescente, agradeça a Bob Guccione, um dos produtores.


Link YouTube | Entrevista na qual ele fala sobre todos os seus projetos, incluindo uma revista de ciência, a Omni.

Entrentanto, uma série de decisões mal tomadas e o crescimento da pornografia gratuita na Internet fizeram com que Guccione perdesse muito dinheiro. Sua mansão e toda a sua coleção tiveram que ser vendidas para que ele pudesse quitar as dívidas que acumulara durante os anos de luxo e luxúria.

Sua última esposa foi a sul-africana Kathy Keeton, com quem ele permaneceu casado até 1997, quando ela morreu. Pouco tempo depois Guccione foi diagnosticado com câncer, primeiramente na garganta e, depois, em estágio terminal no pulmão. Ele morreu no último dia 20 de outubro.

Da equipe do PdH, fica registrado o adeus e o nosso muito obrigado a um homem que nunca se preocupou em servir de exemplo, mas que mostrou ao mundo que vale a pena ser um pouco atrevido.

Dizem que Bob tinha um cachorro para cada 5 mulheres. E alguns deles não saíram nessa foto...

Thiago Rocha Kiwi

É nosso correspondente em Londres. Jornalista, nascido e criado na selva paulistana, gosta das oportunidades desafiadoras. Apaixonado por informação e conhecimento, enxerga o trabalho como uma forma de evolução e a internet como revolução. No Twitter, @thiagokiwi.


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21 comentários

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  • http://twitter.com/brunoregolin Bruno Regolin

    O texto ficou legal e a ousadia do cara é admirável. Mas achei meio exagerado colocar ele na coluna do “Homens que você deveria conhecer”.

    Claro que todos tem defeitos, mas abandonar a esposa com a filha e usar fotos não autorizadas é MUITO baixo!

    • http://flavors.me/veronicagunther Veronica Gunther

      Acho que a série não quer mostrar homens perfeitos, Bruno. Tem a ver com homens que fizeram algo a mais, seja bom ou ruim.

      • Kiwi

        Concordo contigo, Veronica.

        O Guccione pode não ter sido o melhor exemplo a ser seguido, mas, não há dúvidas que o cara inovou e conseguiu fazer algo a mais. Se ele não entrasse nessa coluna, talvez a galera aqui não ia conhecer toda a trajetória que o levou até o sucesso que a Penthouse se tornou.

    • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

      Bruno,

      Não julgamos os caras e também não ficamos pescando buracos. Por exemplo, se o Gandhi tivesse batido uma vez na cara da esposa ou se tivesse abandonado um filho, ainda sim seria um grande homem.

      • Vladimir Almeida

        É exatamente o caso do Mandela, bateu na mulher (algo extremamente reprovável), mas nem por isso deixou de ser um grande homem. Aliás, o fato foi confessado espontaneamente pelo próprio em sua biografia, o que não deixa de ser louvável.

      • http://twitter.com/brunoregolin Bruno Regolin

        “Eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim”. Comparar Mandela e Gandhi com o criador da Penthouse é desproporcional.

        Eu sei que a coluna não é de Homens Perfeitos e eu até falei que todos tem defeitos. Mas vamos colocar assim: Dos homens que você deveria conhecer, esse é o último que eu quero conhecer melhor… só se sobrar tempo! IUAHWeiuAEiu

      • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

        Ah, claro, tem homens que já saíram aqui que não me interessam tanto. O Bob é um deles. Não é referência alguma pra mim, exceto pela ousadia e pelo espírito empreendedor.

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Aqui teremos tanto heróis como vilões, Bruno. São homens que de alguma maneira moveram o mundo.

  • http://twitter.com/Victorccg Victor Cavalcanti

    Coragem é pra quem pode, não pra quem quer :P

  • Tibolla

    Um belo exemplo pro cara da uns peitaço e ser mais ousado de vez em qndo.

  • Henrique E Borges

    Concordo com o Bruno e acredito que, apesar de alguns feitos interessantes, ele não merecia estar na coluna “Homens que você deveria conhecer”.

  • http://twitter.com/RafaAllegretti Rafael Allegretti

    Só pq ele usou conteúdo proibido? o cara teve culhão pra isso, acho que merece sim estar nessa coluna…

    e um grande viva a nudez frontal!

    • Andre Grunge

      um grande viva a nudez frontal! [2]

  • Raul Rezende

    Apesar de o cara ter feito umas coisas reprováveis, eu acho que ele merece estar aqui sim… ele veio do nada e construiu um puta império… se ele entrasse só nos shots, a gente nao ia saber como tudo isso aconteceu

  • K. Navet

    Quem nunca errou na vida? Se o cara abandonou a família, ele deve ter tido um motivo muito maior, que não foi colocado no texto.

    Eu ja fiz muita merda nessa vida, mas, se um dia eu inventasse a cura da Aids, eu nao iria querer ser lembrado pelos meus erros do passado.

    Anyway, belo texto cara!

  • Anônimo

    É um cara de atitude e visão.

    Eu ri da foto da garota “sensual” limpando o chão com aspirador hahahaah. A coitada ainda deve ter sido chamada de vadia pra baixo na época.

  • http://twitter.com/RChicuta Ricardo Chicuta

    Minha mão direita homenageia o cara.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1335664732 Henrique Audi

    “(…) Com esse pensamento, mesmo com uma filha pequena, abandonou sua família e decidiu ir para a Europa para realizar seu sonho de estudar artes plásticas e se tornar um pintor.”
    Foda, realmente um cara que viveu a vida que queria, um exemplo de Bon Vivant.

    Ps: Existem vários exemplos de brasileiros, gente humilde, que mereciam uma homenagem nessa Coluna. Cartola é um exemplo

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Não entendi como esse puta perfil foi tão pouco comentado e compartilhado, Kiwi.

    Faço questão de dar os parabéns pela escolha de incluir Bob Guccione em nossa série Homens que você deveria conhecer.

    Interessante como tanto ele como Hugh Hefner não são, nem de longe, “cafetões toscos”. São homens das artes, filósofos, empresários, líderes de grande vulto – julgamentos morais à parte, claro.

    • http://twitter.com/thiagokiwi Kiwi

      Pois é, Guilherme.
      O Guccione era um artista. Mas não dá pra esquecer que ele também era um empresário em um mercado em que, se ele não tivesse a audácia de fazer as coisas que fez, teria sido engolido pelos concorrentes.Não sou empresário, mas acho que esse princípio é válido para qualquer um que toca o próprio negócio. Se vc não fizer, alguém vai fazer antes.

  • http://twitter.com/ellengalvao Ellen Albuquerque

    Gostei da escolha também, Thiago. Mas temos que concordar que o cara era um oportunista. HAHA Não estou julgando, cada um vive como pode e como quer, ele teve coragem e audácia, mas não vamos dar mais crédito do que o que ele merece.

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