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A ordem natural foi alterada, apesar de teimarmos em manter sua construção intacta para que nossos alicerces de certezas não sejam implodidos. Hoje em dia, colocam um pau num corpo de mulher. Ou colocam uma mulher num pau sem corpo. Ou colocam peitos em um corpo de homem que tinha um pau e virou mulher… Isso é confuso demais para o sistema binário que nos ensinaram. Ou é homem ou é mulher e pronto. Não há lugar para mais um, para o concomitante, para a ambivalência.
Aprendemos assim a amar os dualismos que explicam tudo de forma tão calma e suficiente. Ninguém passa a fronteira do outro e estamos assim entendidos, certo?
Não.
Link TED | No seu trabalho, a médica e pesquisadora Alice Dreger observa que a linha entre os gêneros é difusa. Então, por que nós deixamos nossa anatomia determinar o nosso destino?
Felizmente, tudo foi borrado e a vida se espalhou, trêmula e líquida, por milhares de arenas, de embates tortos entre sexos, de inquietudes, de transtornos e incertezas. Precisamos desconstruir, ampliar, desnaturalizar, pois o que é tido como dado nos acomete sem nem notarmos, e aí, quando vamos ver, estamos lá, repetindo que “isso tudo existe desde sempre”, “nasceu assim”, “é da natureza” e “é pra ser assim”.
Bem e mal definidos de maneira maniqueísta. Homem e mulher. Feminino e masculino. Tudo separado.
Afinal, o que são gênero, orientação sexual e identidade? O psicólogo e autor do PdH Fred Mattos sugere os significados:
Uma aula ministrada pela acadêmica Marilyn Roxie sobre História LGBT Norte-Americana põe em xeque alguns conceitos. Um extenso glossário aponta para as mais variadas terminologias para definir orientação e identidade sexuais (o que ficou cunhado como genderqueer). Seguem alguns que nos fazem ponderar: definir alguém exclusivamente com os termos atuais não é reducionismo demais?
Se fosse um gráfico, ficariam assim:

Gráfico extraído de genderqueer.tumblr.com
Leia mais terminologias aqui e aqui. Acredite, elas são fascinantes e expandem o conceito binário.
E para ler mais sobre genderqueer, acesse Art of Transliness e Genderqueers: beyond the binaries.
Somos matéria e construímos realidades. A realidade só existe enquanto produção de sentido – se não existe um sentido para o signo, ele não é signo e a realidade nada mais é que morta. Assim, demos um sentido ao biológico, criamos os gêneros e tudo passou a ser natural, advindo da mais pura essência, com a mais tênue naturalidade.
Devemos ser civilizados e ter gêneros muito bem separados. Mas e a civilização sempre existiu? Não. Ela é datada e, no seu íntimo de ser calma, com seus mecanismos de controle, ainda assim ela transtorna. Depois dela, pudemos, como indivíduos, nos projetar. Não estávamos mais presos à introdireção, nos tornamos sujeitos alterdirigidos e a partir daí, pudemos mudar muita coisa. Abrimos as portas de nossas casas, nossa vida, buscamos incessantemente afirmação, identificação. Precisamos ser, desesperadamente.
Mas quem somos? O que somos? Aí então, alegremente, mudamos e misturamos os sexos, os gêneros.
Saímos às ruas e precisamos identificar as pessoas. Nos incomodamos quando não conseguimos dizer se é “ele” ou “ela”. Vestimos nossas filhas de rosa e nossos filhos de azul na esperança de que a realidade se construa para eles, assim, num mundo dicromático simples e fácil de se entender e aceitar. Então, posso dizer que nascemos biologicamente diferentes e definidos? O resto deu-se na construção: feminino e masculino. O que diferencia dois bebês nus? O sexo ou o gênero? São duas coisas completamente diferentes.
Hoje, o dicotômico, o híbrido, o sistema binário transtornado e desfeito, o ambíguo, o ambivalente, todos esses tomaram nossas cidades e nossas ruas. Carnavalizaram o lugar da saturação no cotidiano. Bagunçaram o nosso sexo.
E por isso, “tudo que é sólido se desmancha no ar” ainda hoje, num outro patamar, numa outra esfera, numa outra lógica, num correlato de realidade líquida contemporânea. O que define uma mulher, biologicamente falando, por exemplo? Ter uma vagina? Então por que muitos transexuais não são considerados mulheres? Ah, preciso então nascer com uma vagina, mas o que seria do mundo se não vivêssemos de transmutações, evoluções, transformações, construções e desconstruções, seja pelo meio que for?

Tirinha de Laerte
Por que o homem não pode ousar mudar a sua natureza? Se assim o fizer, ele encontrará uma legião para expurgá-lo de suas realidades e de suas vidas calmas e binárias. Se não é homem e nem mulher, então não é nada!
A ideia do sistema binário foi explorada aqui no PdH por Jeanne Callegari, no artigo “O que é um homem? O que é uma mulher?“:
Nossa sociedade decidiu, em algum momento, dividir as pessoas em dois tipos: homens e mulheres. São caixinhas. A divisão podia ser entre seres altos e baixos, sardentos e lisos, pessoas com manchinha de nascença no joelho e pessoas sem manchinha. A sexualidade seria definida entre quem gosta de pessoas com manchinha e pessoas que não gostam, por exemplo.
Precisamos negar e criar algo. Mas insistimos em cantar em coro um mundo onde se vive sem se misturar, onde não há a subversão da ordem para carnavalizar o banal, não há a mistura de híbrido para atormentar. Assim, não conseguimos encarar as idiossincrasias e a alteridade do outro e nos trancamos.
Fechamo-nos na natureza segura que, por repetição, já entendemos e sabemos de cor e salteado. Memória e hábito que insistem em se atualizarem iguais todos os dias. Não percebemos; logo, não agimos. A nossa falta de percepção se configura numa não-ação possível sobre o mundo que não queremos mudar. Um mundo onde tudo é naturalizado, porque fica mais fácil. Assim, pronto, estamos seguros, nada muda e não há o caos. Mas não. Eu, você, nós não queremos isso.
Precisamos de mais do que isso. Não podemos e não queremos aceitar o binarismo. Queremos confundir, transtornar, enlouquecer, contradizer, instaurar o caos, a bagunça, a incerteza e o mal estar. A angústia boa dos questionamentos contínuos.
Somos tudo ao mesmo tempo, misturado, aglutinado, não sei onde começa um e nem onde termina outro. Somos nada intrínsecos. Somos a confusão visceral na plena alteração da ordem.
Nayara Barreto é jornalista formada em Estudos de Mídia pela UFF e mestranda em comunicação e cultura pela mesma instituição. Estuda pornografia, nudez e feminismo. É autora do O viajante e sua sombra.
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