Aprender pelo medo é um lixo

Rafa Monteiro

por
em às | Artigos e ensaios, Frentes, Mente e atitude, PdH Shots


Vantagens sem limites

Assim é o Citroën C4 Lounge. Um espetáculo de conforto, tecnologia e potência
em cada detalhe. Eleito a melhor compra da categoria pela Revista Quatro Rodas,
é o sedan mais premiado do Brasil. E pode ser seu próximo carro.

Surpreenda-se com o C4 Lounge.

Era uma vez um dia como qualquer outro. Eu estava sentado na frente do computador, trabalhando em alguma coisa. Minha namorada estava sentada atrás de mim, ao meu teclado, tocando Let it Be, dos Beatles.

Ela fazia o acompanhamento direitinho na mão esquerda. A direita já tocava a melodia de forma limpa e no tempo. Mas ela ainda não conseguia fazer as duas mãos tocarem como uma só. Sempre que tentava articular melodia e harmonia, errava. O que é normal.

Independência de mãos é uma das coisas mais difíceis de fazer quando se está começando no piano. É uma habilidade que demora algum tempo para amadurecer. Na época, ela devia contabilizar umas duas ou três aulas de piano. Quase nada.

A cada erro, ela ficava mais tensa, nervosa e frustrada. A irritação travava suas mãos, fazendo com que errasse cada vez mais, e que ficasse ainda mais chateada.

Aquilo que poderia ser o começo de uma “sing along night” estava virando, sem querer, uma espiral crescente de aborrecimento.

Um bilhão de vezes eu já estive no lugar dela, lutando contra o meu instrumento. Dessa vez, porém, era alguém muito especial que estava calçando meus sapatos.

Paradoxo

Por que, então, nós transformamos uma fonte de alegria e de crescimento pessoal numa fonte de aporrinhação? A impressão que fica é de que gostamos de investir nosso pouco tempo e nosso suado dinheirinho em frustração.

Colecionamos experiências sofridas enquanto vamos aprendemos coisas. Não que isso seja um pecado, mas revela muito do espírito com o qual nos engajamos em nosso treinamento. Repetimos a nós mesmos que crescer e amadurecer é difícil. No pain, no gain. Que é preciso fazer o dever de casa antes de assistir televisão. Que precisamos treinar por 10.000 horas se quisermos ser experts em algo.

Deixamos para associar boas experiências às amizades, aos amores e a momentos de diversão que vivemos. Sem querer, criamos uma profecia autocumprida sinistra, na qual toda frustração que imaginamos se concretiza pelo nosso próprio esforço. Agimos sobre algo antes mesmo de acontecer.

A minha suspeita é que o principal motivador do nosso aprendizado é o medo.

Aprendemos porque temos medo do mundo diante de nós e do que pode acontecer. Construímos nossa cultura, sociedade e nossos métodos de ensino baseados na opressão e na intimidação. Ensinamos nossas crianças a sentir medo desde cedo, fazendo com que acreditem que consequências terríveis acontecerão se as notas no boletim forem baixas.

Nos mexemos para aprender o que é necessário para proteger nossos empregos e nossos relacionamentos. Aprendemos códigos, comportamentos e valores que supomos que vão nos colocar numa zona de segurança, onde nada pode nos ameaçar.

Por medo, trocamos experimentação por validação e aprovação, não nos permitindo aprender com nossos próprios erros. Por medo, tentamos proteger nossos egos do fracasso. Não é à toa que ficamos tão irritados quando nosso desempenho não corresponde às nossas expectativas ou às (supostas) expectativas dos outros.

Por medo, queremos acreditar que é possível ir mais rápido que a nossa capacidade cognitiva. Não praticamos nada com cuidado e nem damos o devido tempo para amadurecermos nossas habilidades. Queremos virtuosismo sem comprometimento, e fazer o que é mais difícil sem dominar o básico.

Ironicamente, por medo, sabotamos o nosso próprio treinamento, ao criarmos tensões e ansiedades desnecessárias. Aumentamos a carga de stress a que nos submetemos, juntamente com o tempo que levaríamos para aprender algo simplesmente porque somos incapazes de relaxar. Criamos uma relação burocrática com o nosso aprendizado, esquecendo de relaxar e aproveitar o que nos é oferecido. Transformamos um passeio em potencial numa via crúcis.

Aliás, errar é isso também: andar sem rumo e sem destino. Se aventurar por aí.

Quero outra forma de aprender

Em tempos ancestrais, em outros contextos culturais, talvez o medo fosse o único agente capaz de motivar um ser humano a desenvolver técnicas e habilidades de sobrevivência. Afinal, era preciso proteger a entrada da caverna de possíveis predadores, e cercar o povoado com muralhas para impedir que roubassem nossas colheitas.

A impressão que fica é que, de lá para cá – estou chutando uns 40 mil anos de civilização – pouca coisa mudou nesse sentido.  Não estou dizendo para destrancarmos nossas portas à noite, mas será que a única maneira possível para fazer um ser humano se educar é por medo de uma perda, do futuro desconhecido ou de qualquer outra coisa?

Satanizamos nossos erros, como se eles fossem abortos da natureza que jamais deveriam ter acontecido. Coisas que mancham o nosso nome (olha o ego aí de novo) e nos fazem passar por incompetentes. Ignoramos seu valor em nos informar o quanto que precisamos melhorar. Esquecemos que erros são um testemunho de nosso empenho  em mudar.

Eu sinto vontade de ter aprendizados assim, movido sem medo de fazer errado embarcando num processo sem muito controle, mas com direcionamento. Vagar sem saber exatamente aonde nossas explorações nos levarão – até porque uma experimentação, por definição, pressupõe falta de controle de resultados. Sinto falta de um aprender mais livre, vivo e interessante. Sem medo.

P.S.: Este texto foi e voltou da revisão, até ficar no ponto. O que você está lendo é o final da jornada, ainda que não seja um fim em si mesmo. Foi um belo exercício de tentativa e erro. Principalmente erro.

Rafa Monteiro

Músico, nerd, gamer. Tem 29 anos, mas ainda não aprendeu a mentir. Conta piadas hediondas de efeito moral. Seu projeto de vida é tirar um ano sabático para viajar pelo mundo, palestrar no TED e zerar sua Fender Strato no hard. Tem um blog sobre guitarrismos com tiragem devezemquandenal. No twitter: @_rafa_monteiro_


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  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Rafa, acompanhei e também me envolvi bastante no processo de edição desse texto.

    Do caraleo ver o resultado final. Reforça o que falei aqui:

    http://papodehomem.com.br/quem-e-seu-autor-preferido-no-papodehomem/

    Os textos onde a mente coletiva do PdH transbordam são animais.

    //

    Sobre o texto em si, me lembrou de algo que li dia desses sobre aprendizagem natural:

    “Crianças não temem reconhecer sua ignorância e cometer erros.
    John Holt observou que quando convidava crianças em idade pré-escolar para tocar seu violoncelo, elas aceitavam imediatamente; crianças maiores e adultos sempre recusavam.
    Crianças escolarizadas em casa, que não são intimidadas pela exposição pública e por notas baixas, mantêm-se abertas para explorar o novo. As crianças aprendem perguntando, e não respondendo às perguntas dos outros. Pré-escolares fazem muitas perguntas e escolares também – mas só até a terceira série. A essa altura muitos já aprenderam o triste fato de que na escola é mais importante proteger-se, escondendo a própria ignorância, do que tentar entender melhor um assunto – por mais curioso que se esteja.
    As crianças têm prazer em aprender as coisas por seu próprio valor intrínseco.
    Não é necessário motivar as crianças com recompensas exteriores, como notas altas ou estrelinhas no caderno, que sugerem à criança que a atividade em si deve ser difícil ou desagradável. (De outro modo, porquê iriam lhe oferecer uma recompensa que não tem nada a ver com o assunto? )
    Pais sensatos dizem: “Vejo que você aprecia mesmo esse livro!” e não “Se você terminar de ler o livro, vai ganhar um doce”.
    As crianças aprendem melhor a se relacionar com outras pessoas, convivendo com gente de todas as idades.
    Os pais não dizem para um filho pequeno: “Você só vai ficar com crianças que tenham até seis meses de diferença de idade com você. Aqui está outra criança de dois anos. Vocês podem olhar um para o outro, mas não se falem!”
    John Taylor Gatto, eleito Professor do Ano do estado norte-americano de Nova York, afirma: “É absurdo, é anti-vida… sentar confinados com pessoas exatamente da mesma idade e classe social. Esse sistema consegue alienar-nos da enorme diversidade da vida” (3).
    A criança aprende mais sobre o mundo experimentando-o sozinha.
    Nenhuma mãe diria a seu filho pré-escolar: “Deixe essa lagarta aí e volte a estudar seu livro sobre lagartas”. Crianças escolarizadas em casa aprendem em contato direto com o mundo.
    Meu filho diz que estudar em casa é “aprender fazendo em vez de ser ensinado”. Ironicamente a objeção mais comum à escolarização domiciliar é que as crianças “são privadas do mundo real”.”

    http://helenab.tripod.com/jan_hunt/aprendiz.htm

    Que pensa sobre?

    abração

    • marlon c. g.

      Eu penso, e acredito que é a melhor maneira de se educar ou ofertar educação pra uma criança.
      Assim o faço com minha filha. Não sabia que você era pai Guilherme!

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Então, Marlon, não sou pai. Mas há bastante vontade. Tudo a seu tempo…

        grande abraço!

    • Luciana_Marques

      Guilherme, amei os seus acréscimos.

      Confesso que nunca busquei informações sobre as possibilidades de ensino doméstico no Brasil. Sei bem como funciona nos EUA, mas aqui nem sei quais são os mecanismos para se conseguir tal feito. (Agora que fiquei curiosa vou buscar informações – rsrs)

      Meu filho está com 5 anos e frequenta a escola há 4… Meu esposo e eu temos um trabalho muito grande na tentativa de desfazer os mitos criados já nesses poucos anos. Mas é gostoso ver os resultados.

      Por incrível que pareça para alguns, o mecanismo que mais nos ajudou foi o vídeo-game: ele entendeu a necessidade do erro para compreender os mecanismos dos jogos e passar de fase. Ontem ele “zerou” seu primeiro jogo (depois de 24 fases em um ano!)… foi uma bela vitória. Mais bonito foi vê-lo ensinando ao coleguinha que é preciso tentar até conseguir… quanto ao aprendizado valorizado (ler/escrever/fazer contas) já observamos a transferência de valores… na tentativa incansável… e quando se cansa… o melhor é parar e tentar outro dia.

      ;)

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        huahahuuha

        e qual era o jogo, Luciana?

      • Luciana_Marques

        Um joguinho bem infantil, “Crash” qualquer coisa.

      • Lucas Carvalho

        só um adendo: crash bandicoot é um jogo com estética infantil, mas fazer 100% nele sem usar a internet é descaralhantemente difícil.

      • Luciana_Marques

        Uau!!! Jura? Eu sou completamente analfabeta em jogos!!!

        Agora fiquei mais orgulhosa do que já estava ;)

        O moleque aprendeu a fuçar esse jogo de tal forma, que às vezes ele ficava uma semana na mesma fase, apenas experimentando as possibilidades, descobrindo como fazer melhor. Lembro-me de um dia em que ele pegou o controle da mão do pai e disse: “Você não sabe ainda como passar essa fase, mas deixa que eu te ensino”. kkk
        E ensinou – rsrsrsrsrsrsrs

      • marlon c. g.

        isso, qual era o jogo?

      • Luciana_Marques

        “Crash” qualquer coisa – hahaha. É bem infantil.

      • http://alinenardi.com/ Aline Nardi

        O do bichinho, raposinha sei lá o que é aquilo! rs

      • Luciana_Marques

        Exatamente! rsrsrsrs

      • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

        Aprender zerando jogos = história da minha vida Q.Q

      • http://twitter.com/_brunosilva Bruno Silva

        Não acredito muito no ensino em casa, mas também tenho receios sobre como as escolas podem não ser um ambiente fértil pra molecada se desenvolver em toda sua plenitude, muitas vezes impondo limites que tendem a nivelar os alunos, e não explorar suas capacidades ao máximo… acredito que o importante é, lembrando Vygotsky, oferecer as condições ideais para transformar o desenvolvimento potencial em real…

      • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

        Bruno, o pior problema da escola, a meu ver, é a dependencia. A gente se acostuma a pensar que o único lugar de aprender é lá. Como se o resto do mundo fora dos muros não servisse para isso.

        A gente poderia desenvolver habilidades em qualquer lugar e em qualquer circunstancia, mas continuamos acreditando que precisamos de uma instituição pra isso.

      • http://alinenardi.com/ Aline Nardi

        Isso, @rafaelspm:disqus é pensamento de educador. Não formado, aquele com esta consciência. E nem todos pensam assim. Trabalho em escola pública e te falo, muitos pais e mães, mas muitos mesmos, consideram a escola como depósito dos filhos.

      • http://alinenardi.com/ Aline Nardi

        @Luciana_Marques:disqus que dica ótima! Meu menino tem quase 8 e já ensinei a insistir apesar dos erros com os jogos de luta! Aí depois veio um de progresso de fase, não sei o nome, rs, ele e minha filha tentaram e tentaram, perguntavam pros outros personagens sobre uma tal chave que abre um tal porta que destrava tal fase… Foi super divertido. Nós três vibramos quando juntos (eles jogando e eu sendo a consultora, rs) conseguimos evoluir. Vou comprar novos jogos pra ele… ;)

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Po, valeu =D

      Eu tenho mixed feelings para com essas formas de educação não ortodoxas. Eu mesmo tenho seguido por esse caminho recentemente, estudando música por conta própria depois de frequentar aulas por muito tempo.

      Elas propiciam educação num ambiente muito mais seguro e de forma mais livre, mas privam o ser humano de algumas experiências importantes que, bem ou mal, modelos vigentes de educação proporcionam.

      Citando dois exemplos do texto: notas baixas e exposição pública. Embora o modelo tradicional não trate destes dois assuntos de forma construtiva, são duas experiencias importantes que o indivíduo precisa passar enquanto está em idade escolar, por vários motivos. São coisas que se perdem nestes modelos educacionais mais experimentais

      • http://alinenardi.com/ Aline Nardi

        Idem. E acredito na fórmula educação formal + educação livre, ambas equiparando-se, pois nenhum modelo, seja do que for, é infalível. Não existem verdades absolutas e isso é a primeira etapa do nosso próprio esclarecimento…

  • Luciana_Marques

    Ótima reflexão… Eu sempre tive a impressão de que o meu medo paralisa o meu aprendizado… Não sei como ocorre com os outros… Mas vencer o medo ainda tem sido uma luta diária.

    Como sou professora, tenho buscado mostrar aos alunos que o erro é apenas mais uma forma de aprendizagem… Mas é difícil desfazer a estrutura punitiva aprendida na vida… Como são todos adultos (sou professora de pós-graduação), no início os alunos me olham como uma grande filhadaputa que quer “dar zero para todo mundo”. Somente ao longo do curso, vendo efetivamente a valorização do erro (estranho, mas real), eles entendem a metodologia.

    Tenho tido ótimas experiências com isso tudo.

    Gostei do texto ;)

    • Santiago Queiroz

      Muito legal, Luciana…
      Se puder, compartilhe algo dessa metodologia pra nós, para que, se possível, apliquemos às nossas próprias experiências…

      =D

      • Luciana_Marques

        Obrigada Santiago… vou ter de pensar numa forma de explicar que não seja gigante como um post ;)

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Obrigado pelo feedback, Luciana

      O medo é uma coisa estranha. É uma sensação que quase todo ser vivo dotado de sistema nervoso tem, cuja função é a proteção do indivíduo. Eu não vejo o medo como algo essencialmente ruim.

      Só que o medo trava a gente mesmo, e rouba toda nossa capacidade cognitiva, pois ele nos prepara para lutar ou correr.

      Nós compramos essa péssima educação que nos empurram. A gente acaba tendo medo do que não precisa e ignorando ameaças reais, em troca de um diploma ou estrelinha no caderno.

  • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

    Agradeço do fundo do coração ao Bracht e a o Luciano e a quem mais ajudou na edição pela confiança e por todo o trabalho que eu dei. Ficou foda!

    Muito obrigado =D

  • Rafaela Calvet

    OI Rafa,
    Achei muito bom o seu texto , também sinto falta de um aprender mais livre e o aprender pelo aprender sem a busca de alguma meta ou resultado com dia e hora para acontecer. Principalmente no meu estudo musical onde as vezes o estudo vira uma chatice por causa disso.

  • Pingback: Aprender pelo medo é um lixo | Mugango

  • http://twitter.com/RenanD3z Renan

    Me identifiquei muito com o texto. Há alguns anos atrás eu aprendi programação sem compromisso, apenas pelo prazer de criar algo. Hoje, preciso aprender uma linguagem de programação especifica para me estabelecer no mercado financeiro, e sinto extrema dificuldade. Tenho dúvidas se é possível conciliar trabalho e diversão.

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Renan, essa dicotomia entre trabalho e diversão é mortal. A gente se acostuma a pensar que, se estamos nos divertindo, não é trabalho. E que se o que estamos fazendo é trabalho, não pode ser divertido em hipótese alguma.

      É um desafio tornar o trabalho uma brincadeira. Mas vale a pena tentar =)

  • http://www.facebook.com/Expostas Edson Oliveira

    Ouso ir além: tudo que tenha o medo no centro de sua motivação é um lixo!

    O medo aprisiona, nos impede de viver e amar bem. Mas ora, por que desde cedo ‘construímos nossa cultura, sociedade e nossos métodos de ensino baseados na opressão e na intimidação’? Eu sei lá! Talvez seja da natureza humana ou porque somos ensinados e motivados desde muito cedo (e desde sempre), tornando difícil lutar e encontrar outros motivadores mais lúdicos e nobres.

    O mais triste dessa cultura do medo é que paradoxalmente acabamos dependentes e muitas vezes buscamos nos nossos medos o estimulo catalisador, a motivação central para que possamos sair da inércia mental e correr atrás. Isso se deve pelo fato de estarmos acostumados ao medo e sabermos que tal motivação funciona. De forma muito distorcida por sinal.

    Distorcida por quê?

    Como imaginar uma busca sadia por sabedoria e serenidade quando esta é motivada por uma paixão miserável (o medo)? De qualquer forma, achamos que é tudo que temos no momento e seguimos com o ‘aprendizado’ e no fim, algumas pessoas se tornam mais ‘sabedores das coisas’, mas nunca (eu disse nunca) mais sábias.

    “Ah! mas nem quero ser SÁBIO, quero só aprender uns lances pra poder me dá bem na prova, no emprego, pq se eu não passar na prova e não me dá bem no emprego…”

    No fim, nos encontramos no ‘ciclo do medo’ e muitas vezes sequer notamos. Abrimos mão da sabedoria por um vislumbre, um lampejo de lucidez advindo dos nossos esforços motivados por algo que nos ameaça. Ou por medo de não chegarmos lá, de não atingir a serenidade, de não conseguirmos, enfim, vencer nossos medos.

    E a cada dia a sociedade se torna cada vez mais egoísta, mais incapaz de amar e mais estúpida… Tudo isso porque o principal motivador do nosso aprendizado é o medo? Talvez, só talvez. O que é certo pra mim é que o medo é sempre um mau conselheiro (eu disse SEMPRE)

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Edson, eu não acredito que isso seja natural.

      Fato: medo é um estimulo poderoso. Em algum momento alguém resolveu usar isso como base para educar e treinar pessoas. Funcionou, em algum nível, e a ideia se espalhou e vingou dentro da sociedade.

      O problema não é nem o medo em si – afinal, nao podemos deixar de sentir medo – mas o mindset ao redor dele. O sujeto que só esta preocupado em aprender isso ou aquilo porque almeja conseguir outra coisa – seja passar numa prova, pegar umas gostosas ou manter seu emprego – coloca uma boa dose de carencia, apego e controle na equaçao. E são esses extras que ativam o medo.

  • Carlos

    Por que o link para o blog leva para o Twitter do Beto Sampaio?

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Oooops!

      Produção! Tem que ver isso ae! :P

  • http://alinenardi.com/ Aline Nardi

    Fiquei tentadíssima a comentar por conta desse parágrafo:

    “Não praticamos nada com cuidado e nem damos o devido tempo para amadurecermos nossas habilidades. Queremos virtuosismo sem comprometimento, e fazer o que é mais difícil sem dominar o básico”.

    Minha experiência pessoal resume bem isso aí na minha vida. Canto desde criança e até este ano, 2012, “achava” minha voz bonitinha e afinada. Por isso odiava comparações bestas com cantoras bonitinhas e afinadas como eu. Isso me provocava, porque na solidão do meu quarto ou no meu compreensivo banheiro, minha voz era de cantora gospel ou de jazz! Eu simplesmente permitia a “tal” entidade baixar e me usar a seu e meu bel prazer.

    Visto isso, resolvi deixar os achismos no passado e me matriculei num curso de canto. Minha relação com a música vem de longa data, a timidez do inferno me fez ter apenas umas experiências à época da conversão religiosa numa igreja batista (estas são escolas musicais).

    Recentemente, como uma menina abusada, gravei acapellas de minha evolução e escolhi músicas que ninguém imaginaria que combinassem com minha voz. Aí mandei pros amigos músicos mais chegados, também pra meu professor de canto que no primeiro contato com meu “miado tímido” calculou que este “fetiche” de ter voz de negona ia ser só fetiche mesmo, já que ele imagina (va) que eu ficaria nas fofurinhas a la Marisa Monte da vida (amo a Marisa, inclusive).

    Recebi alguns elogios não muito técnicos, foi mais como “#$%¨não sabia que você cantava assim!”, “que evolução!”, ” que #$*& é essa?!”. O único comentário de relevância foi o do meu professor “que apontou todos os erros (construtivos) com a boca, mas ficou com aquele olhar de quem não esperava por isso”. Foi um tipo de prazer que não sei descrever, rsrs.

    Eu simplesmente enfrentei o tal medo. À época da igreja batista fechando os olhos pra ‘não ver ninguém na minha frente e ter a falsa ideia de que estava no meu quarto’, eu sentia dor de barriga momentos antes de subir no palco-púlpito. E descia de cabeça baixa, envergonhada, quase mijando nas calças. Certa vez, comentaram que meu playback (aff, playback em igreja evangélica, sacam? rs) não estava funcionando mas que eles iriam arrumar e eu: “não, não precisa” e não cantei, o medo falou mais alto.

    Tenho um amigo-parceiro que não entende porque algumas de suas coisas não tem acesso e tal (espero que ele não leia senão vai descobrir minha opinião), mas ele não tem voz! É afinado, mas ACHA que canta! Ser afinado não basta, muito menos ter o tal timbre agradável. Se você não estudar, não fazer exercícios DIÁRIOS e continuar ACHANDO que é bom, nunca progredirá. Tem que sempre pensar, com humildade, posso melhorar aqui e ali, mas nunca serei o melhor, portanto, continuarei estudando e me MOSTRANDO pro mundo!

    Eita, ficou tipo um artigo. Desculpem, me empolguei. Mas é isso, @rafa, o medo, sinceramente, é uma merda. Aprender a dominá-lo é que é o REAL aprendizado!

    Só pra ficar ON TOPIC, já que ao ler descobri que foi tudo OFF TOPIC baseado num único parágrafo, a necessidade de reforma em toda nossa forma de ensino-aprendizagem conhecida é gritante! Começa lá na sala de aula, com a dificuldade do professor em aproximar o discurso da prática, ou seja, as belas-lindas-e-maravilhosas ideias sobre educação totalmente desconexas do cotidiano, e vai até nossa casa, mexendo com o modo como educamos nossos filhos, como fomos educados e como aprendemos as coisas. Eu sou autodidata em algumas areas e matriculada em outras ou nas mesmas, e digo que são dois pontos importantes que deve-se considerar: liberdade e orientação. Os livros didáticos ou técnicos não detém a verdade absoluta. Os manuais de estilo não tem o poder total. São sugestões. Somos sugestionados a vida inteira. Já pensaram nisso?

    Fui….

  • Maverick_RJ

    O que Rocky Balboa teria a dizer sobre o medo ?

  • Mila Oliver

    … e isso tudo tem origem no grande medo do ser humano: medo de não ser amado, aceito. Precisamos nos libertar disso, quebrar paradigmas, como por exemplo: escrevendo um texto maravilhoso como o seu.

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Poxa, obrigado pelos elogios. =)

  • Juliana

    Que texto maravilhoso!
    Tenho certa resistência para voltar a dirigir ,e este texto me fez refletir sobre os medos e as frustrações que sinto sempre que este assunto me vem a mente, ou seja, sempre!
    Em cada trecho que eu li coloquei as minhas experiências, este foi o trecho que mais me identifiquei:
    “Não praticamos nada com cuidado e nem damos o devido tempo para amadurecermos nossas habilidades. Queremos virtuosismo sem comprometimento, e fazer o que é mais difícil sem dominar o básico”.

    Essa sou eu…
    Um abraço e obrigada pela reflexão proporcionada por suas palavras.
    Juliana

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Obrigado, Juliana.

      No seu caso, eu diria que o seu medo faz bastante sentido. Pegar um carro não é a mesma coisa que pegar numa guitarra.

      Mas sim, pratique bastante até dominar a direção. Isso vai te proporcionar um controle mais seguro do carro e do transito ao seu redor.

  • Chico

    Excelente texto companheiro.
    Concordo totalmente com vc em relação a precisarmos de novos motivos pra desenvolver aprendizagem. Mas como pedagogo, te falo velhinho, o que tenho visto nas escolas é que estamos sim passo a passo deixando de incutir o medo como motor da aprendizagem na garotada, no entanto, não estamos trabalhando nenhum outro motivo igualmente tão apelativo por assim dizer.rsrs Resultado é que a desmotivação é um câncer na garotada de hoje e uma fatalidade nos adultos que serão.

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Eu ainda acredito no medo como um grande motivador. Só que, de lá pra cá, quem mete medo nas pessoas não é mais o professor. São outras coisas.

      Eu vejo crianças e adolescentes em escolas com medo de bullying e de serem excluídas por seus grupos de amigos. Vejo pessoas jovens com medo de jamais conseguirem um emprego no mercado competitivo e adultos com medo de perde-los. Vejo pessoas em academias, aprendendo exercícios e cuidados com o corpo, por medo de perder a juventude.

      A mecanica é a mesma. Só o agente que mudou.

  • Patucao

    Muito bom. E já estava no clima pois li esse texto do Pierre Schurmann muito recentemente: http://t.co/1xP5oVA4

  • Renato

    Medo ou vergonha do fracasso ? Acho que essa palestra no Ted: The power of vulnerability, (by Brené Brown), está bem relacionada com o texto.

    Parabéns pelo texto.

  • http://twitter.com/iannic666 Nick


    Músico, nerd, gamer. Tem 29 anos, mas ainda não aprendeu a mentir. Conta piadas hediondas de efeito moral. Seu projeto de vida é tirar um ano sabático para viajar pelo mundo, palestrar no TED e zerar sua Fender Strato no hard. Tem um blog sobre guitarrismos com tiragem devezemquandenal. No twitter:@_rafa_monteiro_ ”

    Galera, O link de -
    guitarrismos – tá errado! Dá numa página no twitter que nao existe … ;)

    Abrç.

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Ah, sim, link quebrado.

      A conta do twitter é essa mesmo: @_rafa_monteiro_

      É so copiar e colar na busca do Twitter que você me acha. Só que eu não uso o twitter a séculos, e não tenho a menor previsão de voltar a usa-lo.

      E o meu blog é esse aqui: http://guitarrismos.wordpress.com/

  • Fulano

    Reforço positivo.

  • olhaocharlie

    ”erros são um testemunho de nosso empenho em mudar.”

  • http://www.facebook.com/people/Welington-E-Alves/1684275857 Welington E. Alves

    Em primeiro lugar, parabéns pelo texto, o assunto é muito bom! E tu escreveu coisas muito legais !

    Como músico profissional, eu entendo esse problema das frustrações e do aprendizado pelo medo “de errar a música na frente de todo mundo”. Mas, por algum motivo abençoado, eu consegui chegar a idade “adulta” ileso. Vejo meus colegas morrendo de medo de fazer um concerto sozinhos, e por isso eles começam a estudar que nem malucos e acabam agredindo seus corpos e seu processo de aprendizagem, além de transformar todo o prazer de materializar os sons em medo, angústia e nervosismo. De alguma forma eu consegui me manter despreocupado com meus possíveis erros. Eu subo no palco do teatro pra me divertir, experimentar, e possivelmente proporcionar isso pras pessoas que irão me assistir, e seu texto só me faz ver o quanto isso é importante, e o quanto eu deveria ser mais grato(a Deus), por isso.

  • Kass

    Um texto muito bom. Obrigado.

  • Pingback: Aprender pelo medo é um lixo « ZÉducando

  • Cassio Andrade

    Seu texto está muito bem escrito e articulado, o que sugere a
    utilização de “técnicas de controle e direcionamento” e não uma escrita
    “sem rumo e sem destino”, mesmo porque, deste modo sua mensagem não
    seria transmitida e ninguém iria te entender. O medo é, de fato, um dos
    motores da humanidade e do aprendizado, diz o filósofo (não consigo
    lembrar qual, acho que Aristóteles) que a primeira sensação antes do
    conhecimento é o espanto (gerado pelo medo), e sem isto não se aprende.
    Claro que o medo pode gerar apenas o susto e induzir a mais medo e
    recolhimento. O grande lance é não se deixar vencer pelo medo e aprender
    a conviver com ele e continuar no caminho do aprendizado.
    O
    que você está propondo ( a experimentação como contrário à validação e
    aprovação) é um conceito chamado “ação direta” e foi assim definido no
    início do século passado como uma aplicação prática da máxima
    “transformar o mundo sem entendë-lo” e que é basicamente se recusar a se
    sujeitar a critérios de “validação e aprovação” e passar direto para
    ação, ou seja, uma forma de barbarismo (povos bárbaros não tem padrões).
    As consequências da aplicação da tal “ação direta” foram inúmeras no
    século passado e na sua maioria catastróficas.
    O mal
    entendedor pode pensar que um artista não se submete a critérios, a
    padrões, validações e aprovações, como você colocou. Muito pelo
    contrário, caro Rafa, a produção artística nada mais é que um diálogo
    com suas referências, com seus mestres, e ela mesma deve seguir padrões,
    mesmo que originais (que virão a se tornar padrões) e que devem ser
    “aprovados e validados” pelos grandes mestres, senão não passa de pura
    masturbação (não gera nada).
    A liberdade criativa só aparece
    depois do aprendizado seguindo padrões, ou você acha que os garotos das
    fotos do filme com que você ilustrou seu texto poderiam criar sem antes
    passarem pelo “dureza” do aprendizado. Sinto muito, Rafa, não dá para
    aprender só na base da experimentação, sem esforço e dedicação baseado
    em padrões e critérios já definidos.
    Como já disse, o seu
    texto é muito bom, o problema está na idéia que você quer transmitir.

    • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

      Salve, Cassio.

      Quando eu me refiro a não aprender pelo medo, me refiro a um aprendizado que não funcione na base da coerção e da intimidação. O que é muito diferente de mandar qualquer forma de esforço, tradição e disciplina às favas.

      Eu entendo que o aprendizado dificilmente vai ser o parque de diversões dos prazeres e da diversão sem limites. Fora que o aprendizado nem sempre acontece rapidamente. Por ser demorado, eventualmente ele vai render alguns machucados. É quase uma profissão de fé.

      Mas o que eu sinto é que temos uma necessidade quase patológica de transformar qualquer forma de aprendizado numa tortura muito maior do que a necessária, submetendo o indivíduo a situações que nem sempre funcionam pedagogicamente.

      Validação e aprovação podem ser armadilhas muito perigosas sem o devido distanciamento e desapego. Significa dizer que o sujeito nunca vai viver por ele mesmo de forma autonoma e com personalidade, pois sempre estará esperando que algo ou alguém valide ou negue suas escolhas. É para esse perigo que eu chamo atenção.

      Sobre as técnicas do meu texto: você precisava ver a edição do material pra entender o que eu estou falando. Eu dei foi trabalho pros editores =)

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