Durante certos momentos da vida o ser humano encontra-se no maior e mais desagradável paradoxo de sua existência. Costuma acontecer entre os 13 e 16 anos, mas fatores cósmicos da modernidade levaram recentemente essa tendência até a vida adulta. Trata-se, claro, da infame amizade feminina.
Ainda adolescentes, iniciantes na triste vida amorosa, não temos a malemolência
conquistadora adquirida somente com o tempo. No colégio e na rua ouvimos garotas dizendo que gostam de homens carinhosos, que conversam, que as ouçam. Assim, nos aproximamos. Passamos a tarde com elas vendo um filme, saimos para conversar e, em alguns casos, alcançamos o ápice: conhecemos o quarto.
Sim, o quarto da mulher amada. É o mais singelo e puro local do mundo. Você observa atentamente a cama, local sagrado onde ela dorme todas as noites vestindo somente uma blusa branca de algodão e a mais confortável de suas calcinhas. A parede é decorada com fotos e recortes de revistas. Ah, se essas paredes falassem. São as únicas testemunhas das trocas e mais trocas de roupa dessa mulher.
Cara, como quarto de mulher é excitante na adolescência.
Enfim, você já viu o filme com ela, conversou, até comentou sobre a última capa da Capricho. Tudo se encaminha bem. Muito bem. Você faz o que ela quer, o que ela deseja, o que ela sonha num homem. Porém, contrariando todas as leis da física, da astronáutica, da matemática, da retórica e da gramática ela expele as mais duras palavras para um então jovem homem:
“Eu adoro ter você como amigo”.

E aquilo tudo que você fez? As vontades e frescuras dela suportadas? Foram em vão? Foram. Seu idiota. Quanto mais você se aproximar, maior será a queda. Pra piorar, vivemos numa sociedade não preparada para o sexo casual. Sexo entre amigos é visto como ultrajante, impróprio e fato passível de uma briga no futuro. Sentir tesão pela amiga, então? Nem fodendo (com trocadilho).
O que difere o homem do animal é que nós sabemos escrever. Só. Pensamos, agimos, comemos e desejamos como brutos e selvagens. Sentimos atração, seja ela sua secretária ou antiga colega de primeira série que cresceu e virou uma santinha. Não venha com esse papo de que o sexo pode acabar com a amizade. Uma transa entre amigos pode ser melhor que uma noite jogando Banco Imobiliário. Sexo é somente o ato físico do amor, umazinha casual não vai mudar em nada, hum-hum.
Anotem, mulheres. Quando eu me aproximar de uma gostosa que não tenha nada a ver comigo, tipo uma, sei lá, uma professora de Física Quântica (por mais que seja impossível encontrar uma professora em Física Quântica gostosa), não estarei procurando amizade.
Amiga eu arrumo no Orkut. Várias.
Fred Fagundes é editor do Papo de Homem, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Quem Matou a Tangerina?". Twitter: @fagundes.
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