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A revolução educacional da Apple

Rodrigo Ghedin

por
em às | Artigos e ensaios, Ciência e tecnologia, Cultura e arte, PdH Shots


A educação está em crise. Não só a brasileira, que sofre com a falta de infraestrutura, de professores capacitados/interessados e, muito, com a sina do “estudar para o vestibular”. Nos Estados Unidos, estão preocupados com o que e como suas crianças e adolescentes estão aprendendo.

Se aqui faltam elementos básicos para fazer a máquina funcionar bem, por lá a situação, pelo que se lê e pelo que se extrai das estatísticas, não é muito diferente. Parece que, com exceção da infraestrutura, todo o resto vai muito mal também.


Link TED | Sir Ken Robinson falando sobre os problemas do sistema de educação bem antes do iPad, em 2006

A Broad Foundation, cuja missão é melhorar os primeiros anos de escola pública dos pequenos norte americanos, divulgou dados alarmantes: 68% dos oitavanistas não conseguem ler no nível que deles se esperam, 1,2 milhão de jovens abandonam o Ensino Médio todo ano e, comparados a estudantes de outras 30 potências industrializadas, os estudantes da terra do tio Sam têm desempenho bastante modesto em matemática (25º lugar) e ciências (21º). No frigir dos ovos, todos esses números geram outros bem ruins para a economia, população mais pobre e infeliz e têm até conexão com as taxas de criminalidade.

Qual a receita para melhorar? Norman Pearlstine, chairman da Bloomberg Businessweek, reuniu um time de peso para tentar elucidar essa questão. Margaret Spellings, ex-Secretária de Educação, acha que a tecnologia pode desempenhar um papel de destaque nesse contexto.

Sabe quem mais acha isso? A Apple.

iTunes U, iBooks 2 e iBooks Author

Da distribuição de tablets xing-ling nas escolas, passando pela eterna promessa do OLPC e outras investidas tão frustradas quanto, chegamos ao evento da Apple realizado em Nova York no último dia 19 de janeiro.

Ele foi totalmente focado em educação, algo que já se esperava graças a diversas pistas dispostas na biografia autorizada de Steve Jobs. Pode ser que dê certo, pode ser que não, mas a Apple tem, agora, um leque de aplicativos que abrange boa parte do que um estudante precisa para aprender – tudo interligado, conectado, com a supervisão de professores e, mais importante, na plataforma computacional mais divertida da história, o iPad.

Te trouxe uma Apple, professor

A Apple anunciou três novidades semana passada, dois aplicativos para iOS (tablet/smartphone) e um para Mac OS X (computadores tradicionais).

O iTunes U é a evolução de um programa relativamente antigo, de 2007, que oferece cursos gratuitos por universidades e instituições renomadas. Convertido em aplicativo para o iOS, ele dá acesso imediato e irrestrito a dezenas de cursos das mais variadas áreas, com arquivos em áudio, vídeo, lições, anotações etc. O mais importante: tudo pode ser supervisionado por professores. Trata-se de uma real plataforma de ensino de mão dupla; o professor pode aproveitá-la para disparar exercícios, anotações e outros arquivos aos alunos.

A bibliografia é digitalizada através do iBooks 2, nova versão do aplicativo/loja de ebooks da Apple que, com essa atualização, passa a contar com livros didáticos. Antes de lançá-la, Tim Cook, CEO da empresa, firmou parcerias com as três maiores editoras de livros do gênero nos EUA, responsáveis por mais de 90% desse segmento, garantindo uma boa dose de livros de alto nível para o lançamento, um belo show case para escritores e editoras que queiram explorar essa novidade — e a Apple já mostrou no passado, com iTunes e App Store, que sabe criar filões milionários com a venda no esquema 70/30. Com preços bem em conta (nenhum livro custa mais do que US$ 15), a economia com material tende a ser enorme.

O que importa no iBooks, além do acesso, é que os livros são dinâmicos. Ao passear pelas páginas, o curioso estudante se depara com gráficos interativos, galerias de imagens em alta definição, vídeos saltando das páginas e revisões no esquema “Show do Milhão” ao final dos capítulos. A metáfora da Apple para o livro é um pouco diferente do que se viu até agora em abordagens como a do do Kindle, da Amazon: não é a simples transposição da leitura para um meio eletrônico, é a total transformação da experiência, aproveitando-se todo o potencial da nova plataforma.

Poder esse, aliás, que não está só nas mãos das grandes editoras. Com o iBooks Author, programa gratuito para Mac OS X, qualquer um ganha super poderes para criar seus livros didáticos com a maior facilidade do mundo. Com o espírito da suíte iWork (o equivalente-Apple ao Microsoft Office), o novo programa corta dificuldades e burocracias comuns à editoração, deixando ao autor apenas o trabalho da escrita e o arranjo dos elementos na tela.

Clique na imagem para ver outros exemplos de como ficarão os livros didáticos no iPad

Tudo muito bom, mas me diga os problemas

A Apple quer mudar a forma como se educa nas escolas e isso é muito nobre, digno de nota. Mas como toda empresa – e, veja bem, não há mal algum nisso –, o que ela quer mesmo é lucrar.

As ferramentas são todas gratuitas; os livros, muito baratos; mas há quem conteste a forma autoritária e fechada com que a Apple lida com seu ecossistema. No iBooks Author, por exemplo, os livros pagos produzidos por lá só podem ser vendidos pela iBookstore, a lojinha da Apple. É um contrato de exclusividade bem estranho, atrelado à ferramenta, não ao conteúdo, o que, embora não invalide, diminui a força da analogia dos contratos com editoras.

Essa questão vem suscitando muito debate, mas a conclusão mais lógica, aparentemente, é de que a Apple simplesmente repete o “modus operandi” de outras áreas, como na dos aplicativos para iOS. Em resumo: nós damos as ferramentas gratuitamente, mas mordemos 30% do que você lucrar em cima dela. Tenho lá minhas restrições quanto a esse pensamento, mas, reitero, a Apple está no seu direito.

Outro ponto polêmico é a barreira de entrada para esse novo mundo — o iPad. Mesmo nos Estados Unidos, a terra dos gadgets baratos, um tablet da Apple não é comprado com troco de pinga. O modelo básico, com conectividade Wi-Fi e 16 GB de espaço (que é um espaço bem pequeno para quem quer armazenar todos os seus pesados livros didáticos), sai por US$ 500. Uma grana boa, ainda mais se considerarmos que o objeto ficará sob os cuidados de crianças ou adolescentes, pessoas que se encontram numa fase da vida mais… “desastrada”, por assim dizer.

Os que defendem a ideia alegam que a economia com os livros (lembre-se: no máximo US$ 15; um livro didático convencional custa fácil US$ 80~100 por lá), somada ao universo de possibilidades que essa tábua mágica abre, valem o investimento. Não discordo, mas a família norte americana que passa apertada, com o desemprego e a hipoteca batendo à porta, provavelmente pensa um pouquinho diferente.


Link YouTube | Pink Floyd falando sobre os problemas do sistema de educação bem antes de Sir Ken Robinson, em 1982

Por que isso pode dar certo?

Apesar das críticas, ainda há muita coisa boa nessa investida educacional. Elementos que dão esperança, à Apple e aos apoiadores da revolução educacional, de mudanças.

Primeiro porque é algo alinhado com a realidade dos jovens, principalmente a dos norte americanos. O iPad foi o produto mais desejado no último Natal, é o tablet mais vendido do mundo por larga margem e… bem, preciso repetir, é a plataforma computacional mais divertida da história. A Apple, por sua vez, tem um longo histórico de forte presença e bom relacionamento em ambientes escolares e acadêmicos. Nota-se um harmônico casamento entre oferta e procura aqui.

O conjunto de ferramentas (iTunes U, iBooks e iBookstore) oferece um complemento realmente empolgante ao aprendizado tradicional que, por sua vez, não deve sumir — apenas ser aperfeiçoado. Integra diversos pontos cruciais à educação em uma experiência unificada, centralizada e funcional.

Pode ser que dê certo, pode ser que não. Talvez seja com a Apple, ou talvez uma nova startup ou outra empresa consolidada apareça com algo novo que “pegue”. De qualquer forma, é o primeiro passo para algo revolucionário. O mundo mudou, o sistema de ensino precisa mudar também.

Aliás, já deveria ter mudado há tempos.

Rodrigo Ghedin

Paranaense com 25 anos. Escreve sobre tecnologia desde o Ensino Médio e nem a graduação em Direito lhe tirou o gosto pela escovação de bits. É repórter do Gizmodo Brasil, colunista do TechTudo, podcaster do Gemind e culpado pelo blog pessoal. Procura manter hábitos saudáveis, papos instigantes com gente bacana e música boa na playlist.


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  • Gabriel Terra

    Nada contra a tecnologia, ela é indispensável e isso, apesar
    de soar como, não é um clichê.

     

    No entanto, vale lembrar que a educação não padece pela
    falta de livros ou de aparelhos que possam representá-los. A educação apodrece
    por sua base corrompida, a não adequada forma como ela é tratada.

     

    Ficamos muito, mas muito distantes do que pensavam os gregos
    do conceito de escola:

     

    Etimologicamente “a palavra school, obviamente ligada
    à palavra ‘escola’ do português, tem sua origem mais próxima no latim clássico schola,
    que por sua vez originou-se do grego skhole, que significava ‘lazer’. Se
    para os gregos que viveram um século antes de Cristo, busca de conhecimento era
    lazer, parece uma ironia do destino que muitas escolas hoje representam um
    verdadeiro tormento a seus jovens freqüentadores.”

     

    E não é verdade? Como diz o trecho acima – extraído de um
    site – é mesmo uma ironia.

     

    A escola é um tormento para seus jovens freqüentadores
    porque não dá a eles liberdade. Como o mostrado pelos mestres do Pink Floyd, a
    escola parece estar mais interessada em massificar conhecimentos e opiniões
    para um fim (um tal mercado de trabalho), do que em formar um aluno que não
    fique preso às amarras do adestramento e faça algo efetivo pela sociedade.

     

    Sim, adestramento (palavra forte, não?). Mas, segundo
    Bartolomeu Campos de Queirós, é isso que nossas escolas estão fazendo:

     

    “O homem é o único animal que pode ser educado. Todos os
    outros animais podem ser adestrados. Educar pressupõe deixar o outro ser dono
    do seu próprio destino. A educação se faz pela liberdade. Liberdade que você dá
    ao outro para que ele escolha o seu destino. Vejo que os processos de educação,
    o que chamamos de escola, não deixam de ser processos de adestramento. Não é
    uma educação plena, é um processo de adestramento. É uma criança sujeita ao
    desejo do professor. E é o professor sujeito ao desejo do poder político.
    Então, a criança é sem autonomia. Ela deveria ser o senhor da coisa. No
    entanto, é o objeto.”

     

    Por isso, a questão mais importante não é o meio pelo qual é
    passado o conhecimento e, sim, com que intuito esse é transmitido: Formando
    para a vida or just to be another brick in the wall?

     

    Enfim, penso que enquanto este processo de (des)educação que
    vivemos continuar, não haverá espaço para uma Educação concreta -  seja ela feita com livros ou tablets.

  • http://shotsarge.blogspot.com Marcio Sarge

    Oferecer tecnologia que facilite a interação dos alunos com as matérias, livros e todo conhecimento ofertado um um passo importante para se renovar a educação, o problema é que no Brasil tudo é muito caro e costuma enfrentar uma montanha de burocracia, além do mais precisamos renovar a formação dos professores não só no âmbito da tecnologia mas a formação básica de todos.

  • Rodolfo Espinosa

    Gabriel, achei seu comentário simplesmente fantástico, se não se importar, vou salvá-lo pra mim.

    • Gabriel Terra

       Obrigado pelo elogio… e nada contra, se quiser, pode salvá-lo.

  • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

    Muito bacana a Apple criar sua própria ferramenta educativa. É sempre bom ter mais ferramentas. Fora que a Apple tem uma capacidade de influência incrível. Eu não me espantaria se daqui a pouco outras empresas de tecnologia resolvessem fazer seus próprios aplicativos educativos. Sem contar que os produtos dela são muito bonitos, e estudar com material bom ajuda pra caralho.

    Só que o que eles estão fazendo não é revolução. Convergencia de texto, audio e video não são novidade (alguém lembra dos CD-Roms?). Aplicativos educativos intuitivos não são por si só uma mudança de paradigma nem de nada. Aliás, desde que eu me entendo por gente que inventam novas metodologias revolucionárias que vão mudar o destino da humanidade, até perceberem que não são mais do que ferramentas.

    A Apple não é boba e tá vendendo o produto como revolucionário, e muita gente já tá comprando essa ideia, como se ter um iPad fosse o diferencial entre o fazer o filho virar PhD em medicina e chapeiro do Burger King.

    De qualquer forma, parabens pra Apple. Já tava mais do que na hora da gente parar de gastar tanto papel com livro e andar pra cima e pra baixo carregando pilhas de livros.

    • http://www.gemind.com.br Rodrigo Ghedin

      É muito Apple essa estratégia de pegar coisas que estão dando sopa no mercado, reciclá-las e lançá-las como revolucionárias — em boa parte dos casos, com sucesso.

      O próprio tablet já existia antes do iPad. Eles eram notebooks desengonçados, com Windows e tela resistiva. Inúteis. iPhone? Smartphone já existia antes dele, mas nenhum era tão bonito, gostoso de usar e pouquíssimos tinha tela capacitiva. Sobram exemplos e essa tríade de aplicativos educacionais é mais um para a lista. Já existe material educativo em abundância, mas quantos deles são gostosos de usar? Quem já mexeu com o Moodle, seja como professor, seja como aluno, sabe o parto que é usar aquele troço. Com o iTunes U tudo parece simplesmente… funcionar. O mesmo para o iBooks Author, um maravilhoso e facílimo aplicativo de editoração.

      []‘s!

      • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

        Rodrigo, concordo com tudo que você diz. Praticamente tudo que a Apple faz hoje é sucesso de vendas, independentemente dos problemas ou da qualidade. Não que ela faça coisas ruins, mas esse “culto à Apple” garante que tudo que eles façam seja relativamente bem recebido por nós consumidores.

        Por melhores que sejam os aplicativos – e eu acredito que a Apple não vai dar mole e lançar um programa tosco de educação – isso não vai resolver todos os problemas da educação atual, a começar pelo próprio papel da educação. E se a gente não sabe pra que ela serve e nem o que fazer com ela, como vamos desenvolver nossos aplicativos geniais?

        Não vai mudar muita coisa se aqui a uns dez anos nego estiver comprando o iPad 10 como ferramenta obrigatoria para tirar nota boa no Enem. Só as ações da Apple que vão valorizar mais.

  • http://www.myspace.com/bluesy_marcos Matsuura Junichiro

    Você pode dar iPad, iPhone, iMac, iOCACETEAQUATRO, mas isso não vai adiantar nada se os estudantes insistirem em “aprender Shakespeare sem ler o texto original”. Não adiantar ter tecnologia sem aparelhar corretamente os educadores. Isso inclui melhores condições de trabalho, melhores salários, etc, etc, etc. Pra que endeusar indiscriminadamente a tecnologia???? Pra ensinar os estudantes a enfiar, e/ou permitir que outros enfiem os objetos mais disparatados nos seus orifícios anais????

  • Gabriel Terra

     Bem falado, um problema antingo que acessa a internet não muda nada.

    É como o Rodrigo Ghedin disse acima: “O mundo mudou, o sistema de ensino precisa mudar também. Aliás, já deveria ter mudado há tempos.”

    O caso é que estamos muito, mas muito atrasados…

  • Daniel

    Sou amplamente contra a inserção exagerada de tecnologia na educação. Já foi provado que a “papagaiação” do ensino é um dos piores males que pode acontecer na vida estudantil. O caso daquele ônibus espacio que o diga.

    Um bom ensino precisa de boa estrurua sim, mas não é um gadget ou um tablet ou coisa assim que irá melhorar alguma coisa.

    Cadeiras confortáveis, ventiladores bons/ar condicionado, quadro negro, gizes variados e professores bons são mais do que suficiente.

  • http://www.facebook.com/people/Leonardo-Anselmo/693682563 Leonardo Anselmo

    Ótimo artigo, muito bom mesmo, principalmente o video no TEDx. Concordo que realmente devemos pensar em mudar a educação de uma formal geral, so acrescentando tecnologia em sala de aula isso não vai adiantar. É um processo muito maior desde a infra-estrutura das salas, professores que queiram e sejam capacitados, educação familiar que falta muito, se for citar são infinitas coisas. E em relação a Apple, como foi falado: qualquer uma empresa pode fazer isso. A Apple esta apenas enxergando mais um mercado a ser explorado.

    Leonardo Anselmo

  • http://twitter.com/tiao_jr Tião

    Artigo fraco. Ideia piega. Deixa quieto… vou parar de usar eufemismos.

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