A pulada de cerca fatal
O tema desse artigo é a análise dos fatores que aumentaram sobremaneira a incidência da AIDS em mulheres. Inclusive, chamar a atenção para a responsabilidade que os homens têm nisso. Inspirei-me em minha maravilhosa caixa de emails (já estou no email número 1766, quando chegar a 2000 vai ter festa).
Com o surgimento da epidemia de AIDS, os grupos iniciais de risco eram, como de conhecimento de todos, os homossexuais e os usuários de drogas injetáveis, obviamente com predominância da população do sexo masculino. Entretanto, da década de 90 em diante, houve uma tendência ao aumento da contaminação entre mulheres, chegando praticamente ao equilíbrio. Na África, inclusive, as mulheres já superam os homens em número de pessoas contaminadas.
“Hahaha, lero lero!”
—
Um dos fatores conhecidos e amplamente debatidos aqui é que, em uma relação heterossexual, a mulher apresenta facilidade maior de contágio que o homem. Isto se deve ao fato de que enquanto o contato para o homem resume-se ao tempo de penetração, para a mulher é como se a relação se prolongasse indefinidamente. Pois o sêmen está lá dentro. Já sabemos que, quanto maior o tempo de contágio, maior a possibilidade disto ocorrer. Some-se a isso o fato de algumas DSTs femininas não apresentarem manifestações visíveis (exemplo: o cancro sifilítico intra-vaginal é invisível e indolor).
Mas o principal motivo que me levou a escrever este artigo é um padrão muito comum que costuma aparecer nos emails que recebo. Aliás, um offtopic: O anonimato conferido pela Internet está me fazendo receber dúvidas incríveis. Impressionante como a frase “tive vergonha de ir ao médico” se repete. Está sendo uma experiência altamente positiva.
Voltando ao assunto.
O padrão é o seguinte, um homem escreve assim:
“Dr, tive uma relação com __________ (uma mulher/um homem/um travesti) e houve contato de risco…”
Até aí nada. Inclusive ressalto aqui que, a julgar pelos emails que recebo, os travestis devem ter muito trabalho, não é, Fenômeno?
Bota o capuz na banana, meu filho. E na dele, também!
—
Continuando:
“… agora estou na angústia. Posso ter contraído o HIV?”
A resposta é sim, e aqui eles recebem orientação sobre a janela imunológica (tempo que leva para a detecção dos anticorpos pelos testes de HIV, classicamente 90 dias, mas com exames mais modernos, pode cair até 45-60 dias).
Mas Dr, onde entram as mulheres nisso?
Aqui:
“… Estou muito nervoso, e minha mulher está desconfiada. Tenho medo de contaminá-la.”
É, parceiro, na hora de pular a cerca você não pensou nisso. E agora é um possível problema de saúde que você está causando a uma pessoa inocente (ou não, até que se prove o contrário, né?).
Hoje recebi um email de um cara nessa situação. Ele perguntava se não havia algum meio de saber se está contaminado com antecedência. Infelizmente não, a natureza não quer saber se você fez besteira e colocou a saúde da esposa em risco, e não vai mudar só para aliviar a sua barra.
Esta observação que faço no artigo é um bom exercício de Epidemiologia, parte da Medicina que estuda, entre outras coisas, os fatores de risco e os comportamentos das doenças em relação às populações humanas.
Você tem uma cabeça pensante. E o que é melhor, pode usá-la!
—
E também um alerta para a responsabilidade dos homens: Amigos, se vão pular a cerca, tenham vergonha na cara e não coloquem a saúde de suas companheiras em risco. Eu cansei de ver casos de esposas que nunca entenderam como pegaram HIV, no meu estágio na Infectologia da UFRJ. Algumas botavam a mão no fogo pelo marido. E nós calávamos a boca, pois o que havia acontecido era óbvio, à luz da ciência.
Muito da culpa da incidência aumentada do HIV em mulheres é fruto desse comportamento.
Dr Health, impressionado com a quantidade de emails que recebe de homens que tiveram relações com travestis.
Mauricio Garcia é flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico. Ele é o nosso grande Dr. Health.
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