A primeira vez é sempre foda

Eduardo Amuri

por
em às | Crônicas e contos


Aquela restrição estava matando-o. Porque só depois da meia-noite? Porque o Papai Noel não escolhia um horário melhor? Num cansaço sentido, emburrou no sofá, de frente pro relógio. O tio gordo gritava, seus primos suavam as camisetas correndo desenfreadamente pela casa. Todos bem vestidos. “Final de ano pede roupa nova”, disse a mãe. Ele, do fundo do coração, esperava que o bom velhinho trouxesse tudo, menos uma roupa nova.

Com toda aquela barulheira, ele se mantinha concentrado. Seus três anos recém chegados juravam que aquele relógio estava andando mais devagar que o habitual. Cabia uma vida inteira entre o “tic” e o “tac”.

“Venham para a lavanderia, senão o Papai Noel não chega”, disse a mãe. E lá se foi a pirralhada toda. Dois ou três minutinhos de distração e eles poderiam voltar a para a sala. Debaixo da árvore, em meio a muitos e muitos embrulhos coloridos, estava aquela caixa grande, bem embalada e com um belo laço. Rasgou a embalagem com força e foi delirantemente feliz.

Era o primeiro presente de natal da sua vida.

***

Não conseguia respirar direito. Ela já havia aceitado. Todo mundo sabia que ela queria. Era só ir com o rosto em direção ao dela e…

Bom, tudo é muito fácil depois que você já fez. Desejava estar com os braços amarrados atrás do corpo, assim talvez soubesse onde colocá-los nesse momento tão constrangedor.

Os joelhos estavam moles, a moça um pouco impaciente, sorrindo em consolo, meio que achando graça daquela ingenuidade boba e sincera. “Patético, mas bonitinho”, ela pensava.

Trident de menta, vídeo na Internet, conversas com os amigos mais experientes, selinho na prima. Havia feito a lição de casa. Respirou fundo. Não sabia se fechava os olhos antes de tocar os lábios da donzela ou depois. Porque havia de ser tão dificil, meu Deus? Resolveu fechar os olhos antes, em pról do romantismo. Não haveria de falhar.

Finalmente os lábios se encontraram. Ele estava orgulhoso por ter largado o fardo número um da existência juvenil. Ela achava graça por ter tido que se abaixar quase meio metro para fazer com que aquele tapado conseguisse finalmente achar sua boca.

Não foi dos melhores, mas saiu o primeiro beijo.

***

Juntou dinheiro por muito tempo. Tornou-se um PHD em economia pessoal. Economizava no McDonalds (batata grande nem pensar), na escolha motel, na compra das roupas e no presente do dia das mães.

“Nogueira, a documentação saiu?”
“Só semana que vem, meu jovem”

Ligava diariamente. Tinha vontade de falar que ele mesmo poderia pintar um documento com tinta guache, se necessário. Podia imprimí-lo na HP Deskjet 660C da sua casa.

Mas o dia finalmente chegou. Entrou na concessionária com aquele ar fajuto e maquiado que só um adolescente tentando impressionar consegue fazer. Se alguém lhe fizesse cócegas, todo o ar que mantinha o peito estufado sairia de uma vez só. Mas ele se manteve. Queria que parecesse natural.

“É esse, Nogueira?”
“Isso, filho. Pode entrar”
“Mas Nogueira, estou acelerando e o carro não sai do lugar. Nem tirei o carro daqui e já está com problema!”
“Solte o freio de mão”

Ficou vermelho, engatou a primeira e saiu. De carro novo.

Era, claro, o seu primeiro.

***

“Esse menina vai brilhar na faculdade”. Escutava isso semanalmente, a cada dez alcançado, a cada pequena conquista, a cada dia. Estava cansada. O fardo era pesado, a expectativa alta e a vontade de sustentá-la diminuía a cada pensamento sincero que precisava deixar de canto para suprir o mar de vontade dos outros.

Dessa vez, não havia estudado. Há tempos não prestava atenção na aula. Nunca havia sentido essa sensação de não saber nada, de não desconfiar do conteúdo que seria cobrado. Como não sabia nada de nada, não precisava calcular quanto tempo tem para cada questão. Isso era libertador.

Nem tentou. O fracasso irremediável era doce. Ficou uns 10 minutos degustando a delícia de não ter expectativas. Dessa vez, não ficaria ansiosa pela nota. Não cobraria o professor. Nem ao menos participaria do insuportável grupo que discute as questões da prova no maldito recreio. Assinou seu nome na lista de presença e foi para casa.

— Como foi a prova, filha?
— Uma delícia, mãe, um tesão.

Largou a mãe na sala, com semblante de interrogação.

“!?”

Era a primeira vez que ignorava uma regra, que contrariava o mundo e cagava em cima de uma regra. Sorriu com o canto da boca. Subiu as escadas de alma lavada.

***

“Você começa no dia 3. Parabéns”. Fora a última de uma extensa série de entrevistas. Líder da equipe, gerente e gestor. Cativou um a um. Tentou dormir cedo no dia anterior, mas foi em vão. Rolava na cama. Quando se cobria, sentia calor. Quando deixava o cobertor de lado, sentia frio. A madrugada não passava.

Abriu os olhos esperando que pesassem, como os olhos de quem está prestes a cair no sono. Mas eles abriram leves e deram de cara com o relógio indicando que havia passado 7 minutos desde a última olhada.

Acordou de sobressalto, enfiou-se no chuveiro, mal regulou a temperatura. Lavou o que dava para lavar. Vestiu o que se tornaria seu uniforme pelos próximos anos. Camisa e calça social. A camisa teimava em sair de dentro da calça.

Chegou cedíssimo, ainda não havia ninguém no escritório. Pegou um café e ligou seu computador. Popups pipocavam na tela. Usar o mouse é para os fracos, pensou. Ele os fechava teclando ESC. Com maestria. Faltava apenas um. Esse vai até de mão trocada, na canhota. E ai aconteceu a tragédia. O dedinho, aquele maldito, esbarrou no copo plástico. Nenhuma tecla escapou ilesa ao batismo com café.

Ouviu a porta do escritório abrir. Seu chefe lhe apertou a mão, vigorosamente.

“Você é o novo estagiário, certo?”
“Sou sim.”
“Começou bem.”

Debutou bem no trabalho.

***

Boas ou ruins, planejadas ou não, são sensações que nunca mais serão sentidas. Passaremos a vida tentando sentir tudo novamente, mas será em vão. Surgirão presentes melhores, aparecerão outros empregos, compraremos outros carros, beijaremos outras bocas e desrespeitaremos novas regras. Mas nada disso fará com que nosso estômago pareça um saco com pedras de gelo.

Nada trará um êxtase igual.

Ao menos não como na primeira vez.

Eduardo Amuri

Cuida da grana e das operações do PapodeHomem e do lugar, além de oferecer consultoria para pessoas e empresas. Possui MBA em Gestão de Negócios, pós-graduação em Psicologia Econômica pela USP e em Estratégia de Negócios pela University of La Verne. Estuda nossa relação com o dinheiro. No G+ e no Facebook. Seu site: amuri.com.br


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  • http://www.facebook.com/people/Reysi-Pegorini/1398276764 Reysi Pegorini

    Lembro da primeira vez que coloquei um par de tênis na janela pro papai noel saber q estava esperando o presente de natal, a nossa primeira arvore de natal que foi um pé de pimentão com todos os pimentões embalados em papel pra presente, lembro do primeiro dia na faculdade, do meu primeiro beijo que foi no melhor amigo do garoto que eu era apaixonada, hahaha e a minha sempre primeira vez, as tremedeiras nas pernas e a garrafa de vodka no banco de trás do carro. São fodas mesmo.

  • http://blog.paulovelho.com Paulo Henrique Martins

    Faltou só dizer que o que a gente tem que buscar é mais primeiras-vezes.

    A primeira vez que pulou de pára-quedas, a primeira vez que viu o deserto, a primeira vez que completou uma maratona, a primeira vez que viu neve, a primeira vez que…

    Sempre há uma primeira vez pra tudo. É só ir atrás do que ainda não se fez… =)

    • Eduardo Amuri

      Mas é tudo muito dificil, né?

      “Não dá porque tenho emprego. Não dá porque tem família. Não dá porque tem faculdade. Não dá porque [insira um desculpa esfarrapada aqui]“.

  • http://www.estrategistas.com/ Paulo Roberto

    Sabe o que é mais foda nesse texto?
    Não caiu no lugar comum de falar da primeira foda, como o título sugeria.

    Parabéns, Eduardo.

    • Eduardo Amuri

      Obrigado, Paulo ;)

    • Rafael.

       Faço coro com a colega comentarista, escapou do lugar comum desse site.

    • Cristina

       Até pq a primeira foda mtas vezes mais do q lembrança de uma primeira vez é a lembrança de um desastre! :P

  • http://www.facebook.com/people/Jéssica-Tolentino/100000150950484 Jéssica Tolentino

    :D

  • Graziella

    Parabéns pelo texto, já faz algum tempo que eu não lia um post aqui no PdH tão bom. Além disso as imagens utilizadas para ilustrar o texto são incriveis.

    • Eduardo Amuri

      Gostei das imagens também, Graziella.
      Culpa do editor ;)

  • http://www.facebook.com/lordtormenta Bruno A Alves

    A primeira vez, o primeiro beijo o primeiro elogio… uma lembrança de quando poco era muito

  • http://www.facebook.com/lordtormenta Bruno A Alves

    A primeira vez, o primeiro beijo o primeiro elogio.. uma lembrança do poco que era tudo

  • Renan

    Nossa, que texto excelente! É incrível o jeito que você escreveu, como conseguiu passar todo este êxtase em apenas algumas linhas! Uma verdadeira lição para nós.

  • Eduardo Amuri

    É como se qualquer vez pudesse ser a primeira.

  • http://twitter.com/ronigomes Roni Gomes

    Cara, que excelente texto! 
    Li com os olhos cheios d’água pois me  trouxe várias lembranças, como meu primeiro dia no meu primeiro emprego (que foi logo depois de eu terminar o ensino médio, então foi o primeiro ano sem escola) lembrei do meu primeiro dia na faculdade (inesquecível trote). 
    Valeu pela sensação que o texto me proporcionou cara! Entrou pra minha lista dos melhores textos do PdH. Mandou muito bem, Eduardo!
    Abraço!

  • http://www.facebook.com/viictor7 Victor Alexandre

    Texto sublime, Amuri.

    As imagens me fizeram voltar a infância, reviver minhas primeiras vezes em tudo que pude lembrar. Sempre existirá a mágica primeira vez. A segunda, pra provar que gostamos. E as demais vezes infelizmente sem aquele frio na barriga.

    Lembro quando comentei no PdH pela primeira vez. Único.

    Parabéns, Amauri.

  • http://www.facebook.com/naninha Ariana Mendonca

    Foda o texto! Mas, em geral, minhas primeiras vezes não são muito boas.. A ansiedade sempre torna tudo meio estranho… Sou melhor com a prática :)

  • http://www.facebook.com/people/Renan-Bartalo/100002112822415 Renan Bartalo

    Textos sensacionais! Me trouxe varias lembranças. 

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001660856391 Gabriel Henrique Alves

    O melhor texto que já li aqui no papo de homem parabens :D

  • Bruno Pimenta

    Excelente texto. Só faltou a primeira transa… Esse dia, meu amigo….

    • Eduardo Amuri

      Esse você já esperava encontrar, Bruno.

      Tem beijo que vale mais que sexo.

      • Bruno Pimenta

        Vai… concordo! Rsrsrsrss

  • Thiago Rullez

    Incrível.

  • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

    De novo a porra do beijo e a porra do desrespeitar as regras. Caralho.

    • Eduardo Amuri

      Nem tinha notado…. mas até que faz sentido. Esse subconsciente é terrível.

      A propósito, celebro casamentos. Preço especial para amigos.

  • http://www.facebook.com/Yokutxa Yolanda Marixe

    Gostei muito! As vezes a primeira vez é incrivelmente boa e as vezes é estupidamente má, mas o factor comum é “primeira vez”. Tanto há nessa vida que podiamos todos ter uma primeira vez ods os dias.

  • Fernanda Bortolom

    Adorei! Vou ler outras vezes com certeza, mas nenhuma será como a primeira vez!

  • cicero aj

    Realmente você descreveu muito bem como é a primeira vez, mas no meu ponto de vista só faltou a ressalta do sentimento de medo antes de todas as primeiras vezes.
    Acho que se deve lembrar daquele frio na barriga que se sente antes da quebra de uma regra, de receber seu carro, de ficar pela primeira vez e sua primeira briga. 

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