A pior viagem da minha vida | Na Estrada #25

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Meia-noite, você acabou de acordar de uma noite mal dormida, em um acampamento que se encontra a 5.300m de altitude. Sua cabeça dói e não dá para comer quase nada, uma vez que você se sente um pouco enjoado. Só de pensar que tem 3 camadas de calças para tirar e que o banheiro é longe, precário e frio, qualquer vontade é suprimida, enquanto a seguinte frase lateja na sua cabeça: "o que estou fazendo aqui?"

Mas a escolha já está feita e não dá pra voltar atrás.

Quando sai, existe muita neve ao seu redor, uma temperatura de -15°C e você sabe que ainda tem que organizar seus equipamentos de escalada, vestir uma bota dupla de quase 2Kg cada pé, colocar os crampons para andar na neve, pegar a piqueta e caminhar no mínimo 7 horas, carregando mochila, encordoado ao guia e mais uma pessoa, para alcançar um objetivo: o cume da montanha.

Parece cenário de documentário de lugares extremos, certo? Mas essa foi a minha noite do dia 14 de julho de 2014, quando decidi passar férias fazendo um curso de escalada em gelo de alta montanha.

Quando parti rumo à Bolívia, a fim de escalar a montanha Huayna Potosi, de 6.088m de altitude, estava cheia de expectativas. Acreditava que ao chegar ao topo, chegaria a algum nível de contemplação que me preencheria. Algo que nunca tinha visto antes, um tipo de encontro com Deus. Na minha cabeça era certo que lá estavam as respostas para algumas perguntas. Lá estava o que não conseguia encontrar em mim.

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Foram 13 dias de expedição, divididos entre a cidade de La Paz (3.600m), Refúgio I (4.300m), Refúgio II (5.300m) e cume (6.088m).

A aclimatação para enfrentar esse cenário é regada a muita água, dores de cabeças, enjoo, falta de ar e diversão.

Sim, apesar de todo o sofrimento, em uma expedição como essa, o grupo tem que se divertir. Isso foi essencial para preencher de leveza a dura jornada que estávamos encarando.

Para mim foi tudo muito novo. Nunca estive em altitude antes, nunca tinha enfrentado temperaturas negativas, nunca tinha subido nenhuma montanha acima de 3.000m e nunca tinha visto neve. Que coragem, você deve estar pensando, certo? Mas a motivação de encontrar algo maior me movia tanto que todas essas adversidades pareciam ser pequenas. A realidade é que não foi nada fácil.

Meu objetivo, minha busca, tudo o que eu esperava alcançar foram frustrados por um detalhe: não cheguei ao cume.

Porém, com certeza esta foi a viagem com a qual mais aprendi. Se eu pensava que era só chegando ao topo que encontraria as respostas, estava totalmente enganada. Estava enganada sobre tudo, pois não encontrei resposta alguma. Percebi, na verdade, que não precisava delas, aliás, não precisava nem das perguntas, porque o que realmente era essencial, estava lá, em mim.

Tirei 3 grandes lições disso tudo.

A primeira, sobre limites. Meus, dos outros e entre ser humano e se deparar com a natureza. Entendi que limites são bons, mas é ótimo testar e entender até onde é o seu, pois a partir do momento que você descobre até onde dá para ir, essa linha limitadora, se expande um pouco mais e isso é mágico.

A segunda é sobre respeito. Respeito pela montanha, que é, sim, perigosa. Deve-se ter muito preparo, planejamento, cuidado e conhecimento sobre altitude, escalada e montanhismo para subir. Mas quando respeitada, essa natureza que é tão assustadora, mostra-se a provedora da vida que é.

E a terceira lição, sobre o valor de cada pequeno detalhe da vida. Eu fui e conheci o frio, o vento, a neve, o medo, a exaustão e, definitivamente, a minha força. Compreendi a preciosidade de um raio de sol que aquece, de uma palavra motivadora, um abraço sincero, um banho quente, uma boa noite de sono, o ar úmido, da comida de casa de um xixi sentada no vaso.

Falhei, por isso classifico esta como a pior viagem da minha vida. Mas acho que aprendi muito mais fracassando do que se tivesse atingido meus objetivos.

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publicado em 25 de Julho de 2014, 13:57
Perfil autora

Carina Costa

Formada em Dança pela UNICAMP, já trabalhou como bailarina profissional, professora de dança e com eventos de formatura na B2 Agência. Hoje se diz viajante e escritora, compartilhando seus textos e aventuras através do blog Natrilhas.Natrilhas. Pode ser encontrada no Facebook.

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