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8 de março, Dia Internacional da Mulher. Sobre o que falar? O que fazer?
Muitas reclamam quando damos um beijo especial (“Todo dia é nosso dia!”), algumas dispensam o cumprimento exigindo tratamento em pé de igualdade (“Quem comemora o dia internacional do homem?”) e outras preferem valorizar o dia e receber o presente: se existiu e ainda permanece um forte movimento de desvalorização e subjugação da mulher, então ótimo, vamos escolher um dia para nos lembrar dos problemas e celebrar os avanços do espírito feminino.
Neste post curto, vou falar de Chico Buarque, de machismo e de cornflake girls. Por fim, abro os comentários para que as mulheres possam listar músicas e trechos de letras (do Chico ou não) com os quais elas se identificam e que teriam muito a ensinar aos homens.
“É sempre um grande mistério a alma feminina. Eu tenho uma grande curiosidade com relação à mulher, como ela pensa, como ela age. Eu sou um espectador, um vouyer, um vedor de mulher. Gosto de ver como elas se movem, como elas raciocinam, como elas reagem diante das coisas. É sempre uma surpresa pra mim. Não acaba. Conversa não resolve nada, você fala, fala, fala, mas há coisas que permanecem numa zona de mistério.
Eu me considero um grande desconhecedor da alma feminina. Ao contrário do que se fala, virou um lugar-comum por causa das canções e tal… Mas eu sou um sujeito muito curioso exatamente por desconhecer, por querer saber, querer entender e não entender nunca.” –Chico Buarque
Humilde, não? Se o Chico Buarque se considera um grande desconhecedor, nós do PapodeHomem tiramos o “grande” e ficamos ainda mais abaixo, como meros desconhecedores da alma feminina.
Todo homem que rejeita esse papel contemplativo – que não aceita essa posição desconfortável de não saber bem como agir diante de uma mulher – termina por enquadrá-la e oprimi-la para poder ganhar segurança. É o homem conhecedor de mulher.
É ele que chama a Geisy ou a Tessália de “puta”. É o cara que deseja casar com uma garota de família, virgem, mas que é uma puta na cama. É quem, por medo, acaba subjugando a potência de sua mulher, reprimindo a liberdade do desejo feminino. Para poder navegar de acordo com o planejamento, com controle, ele transforma rio em represa, oceano em lago.
Curiosamente, um homem que sabe o que fazer com uma mulher é justamente aquele que age a partir de sua incerteza, de seu desconforto. Ele avança sobre um terreno desconhecido, tem coragem, arrisca, entra na onda, cai na correnteza, aposta e muitas vezes recebe mais do que pede. Ele amplifica a liberdade de sua mulher, ainda que isso possa jogar contra ele no futuro.
O homem não ajuda o desenvolvimento feminino quando não abre espaço para que as mulheres o surpreendam. Quando não enxerga possibilidades para além das posições sociais pré-estabelecidas que às vezes elas mesmas incorporam e encenam no piloto automático.
Link YouTube | “Cornflake Girl” – Tori Amos (essa versão aqui é mais foda)
Muitas mulheres não ajudam também. Abrem as pernas para olhos muito menos penetrantes que os do Chico, julgam suas amigas com uma mente masculina (do pior tipo), aceitam quando o marido diz “Vou ganhar mais, você pode parar de trabalhar (sim, isso ainda existe!), vinculam sua felicidade exclusivamente ao relacionamento, ao amor, ao casamento, aos filhos.
Elas violentam a si mesmas, cortam suas cabeças e clitóris, perdem potência de vida, restringem suas possibilidades de ação. Machistas, ajudam a produzir o veneno que as destrói. São “cornflake girls”.
Eu já disse que conhecer uma mulher é desconhecê-la e já afirmei a superioridade da poética feminina. Já fingi entender para conquistar, já fiz voto de nunca entender quando perdi. Hoje prefiro me deliciar, contemplar, me surpreender, sorrir e às vezes me perder. Errar.
Se é pra perguntar, descarto “O que você está sentindo?” e vou de “Quer dançar?”.
Em vez de falar, é só ouvir. Elas falam. E olhar: elas se movem e sorriem e choram. E às vezes mandam músicas do Chico, como a belíssima “Futuros amantes”, que recebi por email (“É você cantando pra mim”), e “Ela faz cinema”, seu perfeito retrato, que ela me pede para carregar, decorar, cantar, sempre lembrar. Pois é, elas todas fazem cinema, mesmo quando não são atrizes de profissão.
Convido as mulheres a continuarem essa lista. Não só de letras e músicas. Valem desejos, pedidos, sussurros, gritos, reclamações. Poesia ou prosa, com suavidade ou violência. Vale tudo. Vale ensinar os homens. Ou bater.
E a gente fica aqui ouvindo, no papel de desconhecedores, nessa posição um pouco desconfortável, sem saber bem o que fazer no Dia Internacional das Mulheres. Não falar nada, dar um beijo, um presente, apelar pro Chico, escrever um post?
Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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