A mídia e o São Paulo, um caso de amor
Historicamente, é senso comum entre os torcedores de todos os times que a imprensa é corintiana. Quer dizer, seja lá o que estiver acontecendo com os outros times, o Corinthians sempre tem destaque.
Em bate papo no glorioso bar do Vavá, reduto dos membros do Futepoca, o jornalista Mauro Beting disse que, para a maioria das redações, se fosse colocado um guardanapo amassado no ar com o distintivo do Corinthians, teria audiência.
Tá sem pauta? Bate no Corinthians
Se querem saber, têm razão: fala-se muito do Corinthians. Muito mais do que deveriam e muitas vezes sem nenhum motivo lógico. No entanto, isso não representa torcida pró-Corinthians, pelo contrário.
A queda do Corinthians foi praticamente um presente pra mídia. Usaram até a mesma foto nas manchetes. Crédito da imagem pro grande Marmota. ;D
Na maioria das vezes, as mesas-redondas e noticiários parecem ver como sua missão sagrada desestabilizar o alvinegro (como se sua tosca diretoria não fosse o bastante para fazer o serviço). “Crise no Parque São Jorge” é a chamada dos sonhos da maioria dos jornalistas.
Por outro lado, quando se fala sobre o São Paulo, é só elogios. É a melhor diretoria, melhor estrutura, melhor elenco, melhores contratações, melhor marketing, melhor tudo. Somos agraciados de conviver diariamente com um time tão maravilhoso quanto o Tricolor paulista. Cito novamente o Mauro Beting, na mesma conversa, quando perguntado diretamente sobre as preferências clubísticas da imprensa: “A imprensa adora falar bem do São Paulo”.
Vejam o caso de uma chamada no site do diário esportivo Lance umas semanas atrás (a citação é de memória, provavelmente errada nos termos, mas a idéia era essa):
“São Paulo: Trio Maravilha pode chegar de presente no Natal”
O tal do Trio Maravilha era Adriano (o Imperador da Manguaça, mas concordo que um grande nome), a renovação de Jorge Wagner (renovação é reforço?) e o fabuloso lateral Fábio Santos. Lembram dele? Pois é, também tinha me esquecido. Como pode esse moço apagado fazer parte do “Trio Maravilha”?
Será mesmo?
Jorge Wagner é um caso interessante também. Eu vi o cara jogar no Corinthians, em 2003. Jogava bem, tocava bem a bola, fazia cruzamentos e puxava contra-ataques. Craque? Nunca, longe disso, mas bom jogador. Era, no entanto, questionado o tempo todo pela imprensa.
Hoje, no São Paulo, o cara é tratado como um gênio da bola, indispensável. Casos semelhantes ocorrem com Leandro (tido como bom jogador, mas indisciplinado no Corinthians, no Fluminense e onde mais passou) e Hugo, que “não era jogador para o Timão”, se bem me lembro. Cito os ex-alvinegros por serem os que melhor acompanhei, mas tenho certeza de que torcedores de outros times podem dar relatos semelhantes.
Os palmeirenses podem abordar outro tópico, com o caso de Ilsinho. O São Paulo, aliado ao empresário Wagner Ribeiro, fez de tudo para tirar o jogador do Parque Antártica. Se fosse outro time, haveria questionamentos da ética do processo, mas se tratava da “melhor diretoria do mundo”.
E o que eu vi recentemente foi Paulo Vinícius Coelho, em seu blog no Lance ( melhor comentarista de tática, na minha opinião), dando uma justificadazinha nas atitudes da diretoria Tricolor (recorrentes, por sinal), na base do “todo mundo faz”.
O Batismo Tricolor…
Ainda sobre a diretoria, os sábios sãopaulinos alardearam meses atrás um plano para ampliar sua torcida, dentro do qual estava o Batismo Tricolor, recebido com entusiasmo pela mídia como mais uma mostra do belo trabalho do Tricolor. Um texto de autoria de Luciano Pasqualini que rodou pela internet trata sobre o assunto.
Relata ele: “O SPFC criou este projeto em 26/08/2006. O projeto informa [ainda hoje] que o batismo é realizado aos sábados, com no máximo 20 crianças. Pois bem, em 70 semanas desde seu lançamento, 60 delas não houve a cerimônia por falta de quorum… Houve apenas 10 cerimônias, uma delas num brinde aos associados, ou seja, menos de 200 pais sãopaulinos se dispuseram a pagar os R$ 120,00 propostos pelo Marketing tricolor.” Resumindo, um fracasso amplamente ignorado pela imprensa.
E a “conversão” de torcedores
Mas não parou por aí, como narra Luciano: “Para salvar o projeto, o diretor de marketing veio com esta bravata, de que se um torcedor assinar um documento dizendo que era torcedor rival e virou sãopaulino, poderá fazer o batizado de graça, ou seja, receberá o kit composto por uma camisa + 2 fotos + 1 DVD do batismo + 1 botom + 1 vaso com grama do Morumbi.
Bonequinho vodu-anti São Paulo. Vai ser sucesso. Criação de um aluno da ESPM bem esperto.
Resultado previsível: Torcedores sãopaulinos que não tinham recursos para participar, ou achavam caro demais, poderão assinar este documento [é prometido o sigilo das informações], e assim receberá de graça o kit. Em semanas vão divulgar grande procura [ponto positivo], mas não terão nenhum resultado prático de conversão [ponto negativo], terão prejuízo com todo mundo querendo kit de graça [ponto negativo] e vão acabar de enterrar o projeto [ponto negativo].” E isso sem comentar o quão ridículo é pregar a “conversão” de torcedores.
A torcida do São Paulo está crescendo mesmo?
Aliás, para terminar, mais uma história que vem se sustentando, a de que a torcida do São Paulo tem crescido nos últimos anos. O companheiro futepoquense Glauco Faria fez um levantamento sobre isso num post recente que mostra que, segundo pesquisas do Datafolha, trata-se de uma inverdade.
Diz Glauco: “De acordo com as pesquisas do Datafolha com série iniciada em 1993, o São Paulo tinha 7% dos torcedores do país, enquanto o Palmeiras tinha 5%. Na última pesquisa, o Tricolor tinha 8%, variação dentro da margem de erro, enquanto o Verdão tinha os mesmos 8%. O Palmeiras é o único grande que cresceu fora da margem de erro em todo o período analisado, 14 anos.”
Enfim, são vários capítulos de uma trajetória recente de preferência midiática pelo São Paulo que não é tão inexplicável: o time está numa fase ótima e todo mundo quer explicar um pouco o sucesso.
Assim, parece que tudo é uma maravilha, quando não é bem assim. Espero, e não poderia ser de outra forma, que a boa fase tricolor acabe logo, agora, se possível. Mas espero ainda mais que a imprensa equilibre melhor sua cobertura esportiva.
Nicolau Soares é jornalista, corintiano, maloqueiro, sofredor e, se ninguém percebeu, anda com raiva do São Paulo. Orgulhosamente integra (e bebe com) a equipe do Futepoca, Melhor Blog Esportivo de 2007.
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