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A idade e a experiência de um whisky

Vítor Barreto

por
em às | Bebida, PdH Shots


Quem bebe whisky quase sempre sabe que a idade é considerada um grande fator para a qualidade da bebida. Mas não é determinante. O caráter do whisky é determinado também por um conjunto de outros fatores, como a região de produção, as propriedades da água, a queima da turfa e a qualidade dos barris de carvalho, para citar alguns desses fatores.

É possível que você conheça alguém que procure sempre beber um whisky de no mínimo 8 anos, por exemplo – mesmo que seja para misturar com energético. Temos este e este texto aqui no PdH sobre o assunto, escritos pelo camarada apreciador Rodrigo Almeida.

Eles são ótimas referências, onde você pode aprender bastante – recomendo a leitura especialmente se você deseja aprender a diferença entre Single Malt e Blended –, mas preciso fazer uma correção. O artigo do primeiro link diz que o Scotch precisa envelhecer por no mínimo 6 anos. Na realidade, o tempo mínimo de envelhecimento de um whisky é de 3 anos.

“O whisky, para ser considerado whisky, precisa ter envelhecido pelo menos 3 anos em barris de carvalho com capacidade máxima de 700 litros e ter sua gradação alcoólica entre 40% e 95,8% no ato da destilação.” –Milton Pires, no livro O mundo do Whisky: na dose certa

Livro O mundo do Whisky: na dose certa

Leitura recomendada para quem se interessa em começar a aprender

A regra também diz que, em um blended, o whisky mais novo na mistura é o que determina a idade a ser estampada no rótulo. Então, se um blended for composto 90% por um whisky 25 anos, 9% por um 12 anos e 1% por um 3 anos (o mínimo), ele terá que ser rotulado como um 3 anos, sinto muito.

Bebendo com a experiência

Sabendo que a idade não é o único fator determinante, você pode experimentar whiskies de diferentes regiões e, mesmo sem ser um expert, perceberá diferenças sutis. O autor do livro indicado Acima, Milton Pires, me apresentou ao Laphroaig. Nunca tive experiência em beber whisky, mas bastou eu aprender um e comecei a gostar de degustar a bebida.

O Laphroaig é um exemplo de whisky da região das ilhas escocesas, especificamente de Islay. O Milton serviu um pouco, colocou uma pedra de gelo para soltar os aromas e me conduziu na experiência (o whisky era um single malt).

O mais interessante e gostoso em se beber aquele whisky foi ouvir as instruções de um conhecedor e identificar o aroma da maresia (algumas destilarias armazenam os barris à beira-mar), o forte sabor da turfa (material usado na queima da cevada, que nessa região é impregnado de sabor de algas e detritos marinhos) e o gosto levemente iodado.

No livro, Milton conta que nas primeiras propagandas desse whisky o slogan era “Sua primeira prova pode ser a última”, já que muita gente não gosta do sabor forte dos spirits dessa região.

Bastou um pouco de informação para eu sentir um prazer diferente em experimentar um whisky novo.

Islay

Experimente provar um Jack Daniels após ler um pouco sobre ele e saber que ele é feito de centeio e milho. Perceba as diferenças do whisky escocês para o whiskey (com ‘e’) irlandês, que geralmente não usa turfa na queima (deixando a bebida menos defumada).

Beber, assim como qualquer outra atividade, pode ser muito mais prazeroso se você souber o que está fazendo.

A idade, no fim das contas, foi um detalhe para o qual aprendi a não dar tanta importância. Mas não significa que não deveser considerada.

Três é o mínimo, 8 é o maduro

Para sequer ser considerada um whisky, a bebida precisa ser envelhecida por no mínimo três anos. Sim. Mas isso não significa que será um bom whisky. É raríssimo encontrar um whisky considerado premium com menos de 8 anos. Há um entendimento que essa é a idade da maturidade para o whisky:

“Um whisky novo, não maturado, tem um acentuado sabor metálico. Qualquer pessoa que já pode experimentar uma amostra fresca direto do alambique é capaz de relembrar este sabor desagradável.

Com o tempo de maturação no barril, este sabor indesejado diminui cada vez mais seguindo a linha vermelha no diagrama. Depois de 5 a 8 anos, ele geralmente já desapareceu. (…) É por esta razão que praticamente não existe no mercado um whisky premium com idade abaixo de 8 anos.”

Whisky.de, “The Maturation of Whisky in casks”

Já vi garrafas estamparem 5, 6 e 7, mas é incomum. É a partir dos 8 que a bebida começa a “ter orgulho” da sua idade, estampando-a em números garrafais no rótulo.

Sendo assim, se não está escrito em lugar nenhum que é 8 anos (por exemplo, se apenas diz algo como “Red Label”, sem nenhuma indicação da idade real), não considere e nem aceite o garçom te vender como se fosse.

Chivas 38 Anos

Esta garrafa é uma festa só para maiores de 38

Chamar um blended comum de 8 anos sem ter essa informação é mostrar falta de conhecimento e desmerecer a qualidade dos blends realmente envelhecidos, que têm em suas misturas, além do brilhante trabalho dos master blenders, spirits raros, com não menos do que 12 anos, no caso de um Aged 12.

Vítor Barreto

Vítor Barreto é empresário, publisher da 2AB Editora, mora em Teresópolis e participa da Cabana PapodeHomem. Tenta ver e fazer as coisas de um jeito diferente, e bate cabeça por aí. No Twitter: @vitbarreto.


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  • Guilherme

    Recentemente pude visitar lynchburg, onde se faz o Jack, e foi muito interessante a visita. O processo é quase artesanal, e vai desde a agua até o barril, apesar de produzir 2.500 barris por dia, cada com 240 galoes!

  • http://pulse.yahoo.com/_XDO2TFDXLCT4RQMWWAMODL7B6I renato

    Engraçado isso da idade, a mística em torno do número 8, 12, 18, 21 e tal. Alguns whiskies japoneses são 5, 7, 13, 17 anos, e são pau a pau com os scotch em termos de qualidade, provavelmente por causa do clima muito parecido. Seria muito legal poder encontrá-los aqui  no Brasil.
    Fiquei muito curioso com o Laphroaig.

    • Vítor Moreira Barreto

      Oi Renato, você chegou a perceber diferenças no whisky japonês? Só duas curiosidades: a maior destilaria do mundo é japonesa e o Japão possui mais alambiques do que a Escócia!

  • http://www.facebook.com/naninha Ariana Mendonca

    E pra quem não gosta de Whisky, alguma dica?

    • Vítor Moreira Barreto

      Ariana, minha dica seria que, qualquer que seja a bebida, procure conhecer suas características. Mesmo que você não queira se tornar uma enochata, conhecer os sabores que compõem um vinho vai lhe ajudar a apreciá-lo. Tenho certeza que a aula que o Milton me deu ajudou muito na minha apreciação do whisky.

      Outra bebida interessante é muito rica são os licores. Você pode estudar um pouco e aprender muito apreciando licores como o 43, Napoleon e Limoncello de diferentes fabricantes. E assim como um whisky antes do jantar, um licor como digestivo é maravilhoso ;-)

  • Hugo Tokins

    Quando se está na dúvida entre duas ou três marcas de wisky, da mesma idade: 8, 12, 15… e composição parecida (chivas e black label). Qual as características que se devem ser levadas em conta na comparação tanto para apreciar quanto para presentear um degustador experiente?
    E outra: O Blue Label, ápice do JW, é conhecido como “O Blended”. Existe outro que chega aos pés dele? Obrigado.

    • Vítor Moreira Barreto

      Oi Hugo, eu mesmo não sou um especialista, sou um apreciador aprendiz.
      As comparações de whiskies da mesma idade poderiam ser feitas com base na região, fabricante e etc. Honestamente, não sei eleger um melhor, entre o Black Label e o Chivas 12 anos. Para presentear um degustador experiente, eu sugiro um single malt de alguma região diferente (como o exemplo do Laphroaig, ou um Irlandês). 
      Eu acredito que tanto para os experientes quanto para os interessados, a oportunidade de aperfeiçoar o paladar é o melhor presente. Portanto, inove!
      Sobre o Blue Label, acredito que existam vários produtos de outras destilarias igualmente interessantes. Novamente, a diferenciação maior, principalmente no caso de blendeds como o Blue (que não mostram a idade) se dá pelo paladar, reputação da destilaria e talvez pela sofisticação, para quem elege esse quesito como de grande importância.

  • Vítor Moreira Barreto

    Oi Matheus, realmente o Red não tem em nenhum lugar a informação da idade. Sendo assim, presume-se que é um blended que em sua formulação pode ter maltes a partir de 3 anos. Lembro que isso não afeta a qualidade da bebida!

  • Alexandre

    Vitor, 

    Parabéns pelo texto.
    Bem escrito e preciso no aspecto técnico.Geralmente paro de ler artigos sobre whiskies no primeiro parágrafo (não foi o seu caso) tamanha as besteiras que as pessoas escrevem sobre a bebida em tão poucas linhas (incluindo o pessoal do PDH há um tempo atrás).
    Novamente, seu texto é muito esclarecedor, bem escrito e pesquisado.Já que você tem interesse em whisky, e bebidas em geral, talvez goste do site da Single Malt Brasil:
    http://www.singlemalt.com.br
    Abraços,Alexandre.

    • Vítor Moreira Barreto

      Oi Alexandre, fiquei bem feliz com o comentário, obrigado!
      Estou conferindo o site e gostando bastante, parabéns.
      Um abraço

  • Alexandre

    Matheus, a questão da idade no rótulo é legislação na Escócia determinada pela Scotch Whisky Association (SWA). Se o fabricante afirmar no rótulo a idade de um whisky, esta será determinada pelo whisky mais jovem na garrafa como disse o Vitor.

    Se não existe nada em relação a idade no rótulo, o whisky é conhecido como um “non age statement”, ou seja, sem idade definida.
    Escrevi há um tempo atrás um artigo sobre os mitos do whisky que pode ajudar a colocar ainda mais luz a questão.
    http://www.singlemaltbrasil.com.br/whisky/2012/04/alguns-mitos-sobre-whisky/Abraços,
    Alexandre.

  • Diego Dubard

    Só uma curiosidade, é proibido vender bebidas alcoólicas no county onde se faz o Jack Daniel’s,
    Moore county. Legal né? (uma lei estadual permite que se venda JD na fábrica, em pequenas quantidades, mas nunca aos domingos)

  • Vítor Moreira Barreto

    Opa, obrigado pela dica, Enderson! Mas na Escócia eles escreveram o whiskey com ‘e’ mesmo?

  • KDFukuyama

    Olá Vítor,

    ótima matéria!

    Eu sou iniciante no mundo do Whisky, mas estou tentando aprender mais e mais. Com o pouco que já aprendi, concordo plenamente com sua opinião sobre a idade do Whisky.

    E acho que um bom exemplo é o Single Malt Laphroaig Quarter Cask, que é um NAS (“non age statement” como o Alexandre mencionou). Achei a bebida saborosa, uma explosão medicinal e enfumaçada! Dizem ter no máximo 8 anos, porém tem a maturidade de 12.

    Outro exemplo que não bebi, porém praticamente em todo o lugar que li dizem ser espetacular, é o Whisky da destilaria Kilchoman, o mais novo membro escocês da Ilha de Islay. A versão de inauguração dele, que tem apenas 3 anos ( o mínimo para ser chamado de Scotch Whisky) é ótima, e todos os apreciadores esperam ansiosos para o futuro promissor que a destilaria tem a oferecer. Pena que não moro no Reino Unido para poder prová-lo…

    Bem, acho que me empolguei em escrever, risos.

    Abraços!

    • Vítor Moreira Barreto

      Gostei do seu comentário @fc20f3e1043bf2b239e76c387b3ddfea:disqus Ótimos exemplos de apreciação autêntica!

  • http://www.facebook.com/rod.castilhos Rodrigo Almeida

    Fala Vítor,
    só vi a referência que me fez agora. Concordo plenamente em relação a idade não ser determinante. Tanto que prefiro Gold Label toda a vida em relação ao Blue Label. Tanto que já escrevi à respeito sobre isso também: http://www.papodebar.com/os-scotchs-de-um-connoisseur/

    • Vítor Moreira Barreto

      @facebook-100001420851548:disqus que legal você comentar aqui, obrigado! Gostei muito do texto, viu? Abraços

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