A escravidão moderna no Brasil e como ajudar a acabar com ela

Jader Pires

por
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E se eu dissesse que um menino doce e inteligente de 12 anos, recém chegado da Bolívia, mora em uma casa de apenas 90m² no centro de São Paulo com mais 27 pessoas, entre parentes e desconhecidos? Que essa casa velha e úmida mal comporta todas as beliches cobertas com roupas de cama maltrapilhas, porque tem que ceder espaço para colunas babilônicas de tecidos e máquinas de costura?

E se eu dissesse que esses 28 trabalham cerca de 13 horas quase ininterruptas por dia, no mesmo lugar em que moram e comem e vão ao banheiro e dormem e acordam e começam tudo outra vez, por R$350,00 mensais?

E se eu dissesse ainda que todos os 28, por não terem como pagar pela casa velha e pela comida úmida, contraem dívidas absurdas e infindáveis com o indivíduo que os contratou, e, por isso, tem seus passaportes e pertences apreendidos até que o pagamento venha?

E se eu dissesse que quem financia isso tudo é você?

Quantos escravos trabalham pra você?

Em abril do ano passado, a Anna Haddad veio ao PapodeHomem para falar sobre o trabalho escravo no mercado da indústria têxtil no Brasil.

Abrindo o leque, temos essa informação bem pesada. No final do ano passado, foi divulgado pela ONG Walk Free Foundation — de acordo com números do Índice de Escravidão Global, que o Brasil tem 200 mil pessoas em situação de trabalho escravo.

Em sua primeira edição, de 162 países, a pesquisa revela que o Brasil se encontra em 94º lugar no ranking dos países com maior registro de trabalho escravo. No mundo, são 29 milhões de pessoas vivendo em regime de escravidão moderna,  uma situação de trabalho em que pessoas são forçadas a realizar atividades contra a sua vontade, sob diversos tipos de ameaça.

São vítimas de trabalho forçado, tráfico humano, trabalho servil derivado de casamento ou dívida, exploração sexual e exploração infantil.

[...] No Brasil, o trabalho quase escravo se concentra nas indústrias madeireira, carvoeira e de mineração, de construção civil e nas lavouras de cana, algodão e soja. Outro campo sensível é o turismo sexual no Nordeste e a exploração da mão de obra de imigrantes bolivianos em oficinas de costura.

Jornal O Globo – 17/10/2013

A gente come, veste e senta em cima de algo que, com grande probabilidade, tem ligação direta com algum tipo de trabalho escravo. Estamos em 2014, caso seja necessária a informação.

Pensar que se trata de 0,1% da nossa população ou que parte dessa fatia é formada por imigrantes que vieram se arriscar em nosso país é normal. Pensamentos infelizes, mas mais comuns do que imaginamos. No mesmo texto, a Anna também nos mostra um vpideo muito interessante do escritor, psicólogo e jornalista da ciência, Daniel Goleman, sobre a nossa capacidade de desconexão com o outro e/ou com o processo passado pelas coisas que consumimos.

Fácil nos distanciar dessa realidade, uma vez que consumimos o produto final e podemos imaginar que o problema não é nosso, mas de quem vendeu ou das autoridades.


Link Vídeo | Daniel Goleman fala da sua desconexão

Mas ainda há muitas pessoas que veem essa conexão e buscam maneiras de limar o seu cotidiano do trabalho escravo. Mais há ainda, existe gente engajada em denunciar as práticas de trabalho escravo no Brasil.

Conheçam o Repórter Brasil

Um grupo formado por jornalistas, cientistas sociais e educadores. Esse é o pessoal que faz correr o Repórter Brasil, ONG focada em denúncias de trabalho escravo no Brasil.

Nos últimos 19 anos, mais de 45 mil pessoas foram libertadas do trabalho escravo em fazendas, carvoarias, oficinas de costura e canteiros de obras espalhados pelo país.

Para que essa violação aos direitos humanos cesse é necessário, antes de mais nada, informação de qualidade. Reportagens que mostrem onde o problema está, investigações que desvendem quem ganha com ele, análises que indiquem como resolvê-lo.

As informações da Repórter Brasil são usadas, há 13 anos, pelo poder público, o setor empresarial e a sociedade civil como instrumentos de combate a esse crime e na promoção da dignidade de milhões de brasileiros.

do Repórter Brasil.

Há, no site deles, uma lista detalhada — intitulada “Lista Suja do Trabalho Escravo” — sobre as empresas que possuem, hoje, alguma prática de trabalho escravo no Brasil. Eles também divulgam as exclusões, quando há, de empresas que se adequaram.

São denúncias importantes e pesquisas de extrema relevância que apontam todas as pontas do trabalho escravo por aqui. E, para isso, eles precisam de ajuda.

R$9,00 é o valor pedido pela ONG, para ajudar a manter a operação do Repórter Brasil por aí.

Com apenas R$ 9,00, que serão descontados automaticamente todo o mês do seu cartão de crédito, você vai ajudar a Repórter Brasil a continuar produzindo conteúdo totalmente aberto, gratuito e de qualidade sobre a escravidão contemporânea no Brasil.

Todos os apoiadores receberão, ao final de cada ano de sua contribuição, um relatório digital mostrando como a Repórter Brasil aplicou o seu dinheiro, e um balanço feito por uma empresa independente de auditoria.

O Brasil está em um caminho bom

Voltando ao estudo divulgado pela Walk Free, o Responsável pelo ranking — o sociólogo norte-americano Kevin Bales — disse que o Brasil está trilhando um bom caminho contra a escravidão moderna:

No Brasil, segundo o estudo, cerca 1 em cada mil moradores trabalha em condições análogas à escravidão.

Bales disse que o país é o que “provavelmente criou o melhor conjunto de políticas do mundo” para combate da escravidão, mas é necessário acelerar a sua implantação.

Entre as medidas elogiadas pelo sociólogo está a “lista suja”, cadastro oficial de empregadores que foram flagrados explorando mão de obra análoga à escravidão.

Folha de S. Paulo, 17/10/2013

A ideia é continuar a luta e minar cada vez mais a ação de quem, com uma facilidade grande de desconexão, possa ampliar esses números de escravidão forçada. fechando com o Goleman, lindamente citado pelo texto da Anna:

“Os objetos que compramos e usamos têm consequências ocultas. Somos todos vítimas passivas do nosso ponto cego coletivo. Nós não notamos. E não notamos que não notamos. Somos indiferentes às consequências ecológicas, de saúde pública, sociais e econômicas das coisas que compramos e usamos. De certa forma, a própria sala é o elefante branco na sala, e nós não vemos. E nos tornamos vítimas de um sistema que nos aponta para o outro lado.”

Update! Operação flagra trabalho escravo e infantil em carvoarias do interior (de São Paulo)

Dezenove trabalhadores foram encontrados nesta terça-feira (21) em condições análogas à de escravos em carvoarias do interior de São Paulo. Sete crianças e adolescentes também foram flagrados trabalhando durante uma megaoperação conjunta para combater o crime em Pedra Bela, Joanópolis e Piracaia. Ao todo, dez estabelecimentos foram alvo da blitz, e seis acabaram interditados.

[...] Segundo ele [o superintendente regional do Trabalho e Emprego de São Paulo, Luiz Antonio de Medeiros], os produtos abastecem grandes supermercados da capital. “Eles precisam saber de onde compram o carvão. Não podem se eximir.” Medeiros afirma que toda a cadeia será investigada. “Agora é dar continuidade à operação. São milhares de carvoarias que querem competir entre si recorrendo, para isso, a um trabalho degradante.”

G1 São Paulo, 21/01/2014 (ontem), 18h35.

Está acontecendo. Todos os dias.

Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Lançou, nesse ano, seu primeiro livro de contos, o Ela Prefere as Uvas Verdes e outras histórias de perdas e encontros.


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  • alexmamed

    E sobre os médicos cubanos, nada? Queria uma análise do grupo, se possível, pois conheço 05 médicos que recebem apenas R$ 800,00, dos R$ 10.000,00 que o Brasil paga à OPAS, e esta repassa Cuba, após reter uma pequena comissão.

    Eles não podem se ausentar do Município, sem autorização do CAPATAZ de Cuba que está na Capital do Estado. Não podem mudar de cidade, para trabalhar em outro Município; Minitros já avisaram que se pedirem aviso, serão devolvidos a Cuba; eles estão com a família lá, sem permissão de que esses familiares os visitem no Brasil.

    Se isso não caracteriza uma forma análoga, então, eu também não sei mais de nada.

    • W. P. Neto

      Qual é a fonte destas informações?

      • alexmamed

        Qual parte do “conheco 05 médicos que recebem” você nao entendeu? Eu conheço casos concretos, não foi que me disseram. So o valor gasto pelo município com hospedagem e alimentação, e maior que o valor que eles recebem de Cuba.

        Não bastasse o valor aviltante, ainda tem a restrição da liberdade.

      • W. P. Neto

        Parei de ler na primeira frase.. Educação também é importante, meu caro. Principalmente porque não perguntei por mal e nem com intenção de desmentir seu testemunho. Abraço.

  • Sérgio Werneck de Figueiredo

    O mais complicado desta questão é o papel do empresário decente e honesto, que não consegue custo e preço viáveis, na concorrência desleal com o trabalho escravo brasileiro ou estrangeiro.
    Veja que a indústria nacional está sendo sumariamente sucateada pela concorrência do trabalho escravo chinês, vitorioso, principalmente, nos grandes centros consumidores.
    Veja que o empresário brasileiro ainda conta com o componente de corrupção, facilitador do trânsito de mercadorias e serviços privilegiados pelo preço baixo, daqueles que enriquecem com a lavagem de dinheiro de produtos e serviços que não podem dar lucro, mas obrigatoriamente sucessivos prejuízos.
    Ainda importunados e até impedidos por uma legislação trabalhista anacrônica e cruel para funcionários e empresários, o trabalho informal e escravo crescem e concorrem com a decência e dignidade do empregado e do patrão formal.
    Aliás, a informalidade é a principal propulsora das populosas comunidades da periferia, onde se finge distribuir direitos e não se cobram deveres. Outra situação evidente de opressão e escravidão de um povo largado ao sabor da ignorância conveniente ao voto dado a uma democracia inexistente.
    Este escravo dos interesses políticos está no lado oposto do abismo que o separa da cidadania e da dignidade e ainda é doutrinado a odiar quem preserve tais dons que deveriam ser inafiançáveis para todos os indivíduos do mundo.

  • alexmamed

    Médico cubano diz que era um escravo qualificado na Venezuela

    Atenção. Isso foi em 2010:

    A Venezuela mantém boa parte dos 30 mil profissionais de saúde cubanos que sustentam a Missão Bairro Adentro sob um regime de prisão.
    Miguel Majfud, médico cubano da cidade de Holguín, relata à Flávia Marreiro ter vivido por mais de quatro anos num circuito fechado: do trabalho numa unidade do programa Bairro Adentro para o alojamento designado pelo governo venezuelano e vice-versa.
    “Em Cuba, há fome. E viajar é uma maneira de garantir um pouco de bem-estar a sua família”, afirma ele, que fugiu no final de 2008 e buscou um visto especial do governo americano para “profissionais de saúde cubanos em terceiros países”.
    Mas, segundo Majfud, as condições de trabalho fazem a oportunidade virar uma “senzala”. “Eu gosto de falar assim, de senzala. Não tem preço o estresse que brota da ameaça constante. Se não cumprimos as metas, somos castigados e enviados, em uma semana, à grande cadeia que é Cuba.” “Somos a força escrava mais qualificada do mundo”, diz ele.

    fonte: http://reporterbrasil.org.br/2010/12/medico-cubano-diz-que-era-um-escravo-qualificado-na-venezuela/

    • jaderpires

      O site existe justamente para isso, Alex. Denunciar escravidão moderna em território nacional.

      Agora, se achou o conteúdo realmente relevante, como o fez aqui, pode colaborar com 9 contos e ver mais disso. =]

      • Pablon

        Você não respondeu o comentário do Alex. Eu acharia pertinente uma resposta sua, baseada no conteúdo da pergunta formulada pelo comentarista.

        Seria possível?

      • jaderpires

        Pablon, não estou aqui para falar dos méritos ou deméritos do programa ‘Mais Médicos’.

        Trata-se de um texto informativo sobre dados da escravidão moderna no Brasil e um apontamento para o site Repórter Brasil, que investiga situações de trabalho forçado por aqui.

        Caso o @alexmamed:disqus ache que o programa Mais Médicos do Governo Federal incita, propicia, provoca ou faz abertamente situações de trabalho escravo, pode (e deve) denunciar. Um dos meios é o próprio site que recomendo.

        Minha opinião sobre o programa é completamente desnecessário para o propósito do post.

        Um abraço!

      • Pablon

        Não creio. Veja o que você escreveu logo no inicio do seu texto: “E se eu dissesse que quem financia isso tudo é você?”

        Se você realmente pensa dessa forma, precisa ampliar o debate. Mesmo que para isso, precise sair do teu mundinho esquerdista e patrocinado.

        Sds.

      • jaderpires

        Essa é uma citação da autora do texto citado no início do texto. Não fui eu quem escreveu.

        Mesmo assim, não há nenhuma relação da afirmação com uma necessidade de falar de outro assunto, no caso, o programa de médicos cubanos.

        Essa – a escravidão moderna – é uma questão social (mesmo que envolva a política) que deve ser combatida. Novamente, se o alex crê que o governo federal está se utilizando de escravidão para manter médicos cubanos aqui, acho que ele deve sim procurar as esferas cabíveis ou o Repórter Brasil.

        A minha opinião não ajudaria nem ele e nem os médicos que ele quer salvar.

      • Pablon

        Entendo. Então, existem vitimas e “vitimas” dessa suporta escravidão moderna. Algumas interessam, outras não…

      • alexmamed

        Isso mesmo.

      • Carvalho

        Eu escutei uma história que tem a ver também com sua posição. Em Rondônia um proprietário de terras decidiu desenvolver uma área para montar uma fazenda. Era uma área de mata, não havia nada ali. Os trabalhadores que foram para fazer o trabalho inicial de limpar a área dormiam em redes ao relento, não havia o alojamento que eles mesmos iriam construir. Um fiscal do trabalho apareceu com a polícia e queria multar o proprietário. Não duvido que isso tenha sido classificado como trabalho escravo…
        Mas os médicos cubanos não !!! Esses tem pedigree !!

      • Alexandre

        O dono do local poderia ter locado conteiner alojamento e enviado para os funcionários. Problemas e dificuldades existem, mas devem ser contornadas. Funcionario durmir ao relento em rede é filhadaputice mesmo, ninguem me faz pensar ao contrário.

      • alexmamed

        Já desisti, Jader.

        Só questionei o PdH porque o assunto veio à tona. Há escravos e escravos. Quem tem pedigree e ONGs para sua causa é escravo. Quem não tem, aliás, quem é feito de escravo pelo Progressismo, fica sem pai, sem mãe e sem ONG.

        Vícios para uns tornam-se virtudes nas mãos, pensamentos e conceitos de pessoas bem intencionadas que querem salvar o mundo.

      • alexmamed

        Pois é. Mas eu acho estranho o fato de haver uma pequena notícia sobre o mesmo programa na Venezuela, enquanto o site faz um estrondoso silêncio sobre o Mais Médicos no Brasil, em relação aos cubanos, que vivem sob as mesmas condições.

        Eu vejo que essa questão merece ser tratada sem alarmismo e com mais serenidade, pois conheço duas cidades do Amazonas listadas como sendo trabalho escravo, e que na verdade é a natureza do trabalhe impõe a condição penosa, extenuante, perigosa ou mesmo insalubre.

        Vou exemplificar. (Atenção aos apressados: eu repudio o trabalho escravo! Não o apoio. Apenas entendo que é preciso olhar com cuidado, para não pregar pecha disso onde não há.) É material e humanamente impossível cumprir o que o MPT pede em fazendas, nos confins da Amazônia, onde certos trabalhadores são “resgatados”, justamente por ser o limite entre as fazendas e a floresta. Os caras estão justamente utilizando motosserras para expandir os limites dos campos. São áreas distastes e longínquas, e sob condições severas, pois enfrentar a floresta, ainda que com motosserra, não é coisa pra qualquer um.

        Só acho que deve haver serenidade na apuração. Uma vez constatado, deve haver rigor na punição, pois o que se observa, em muitos casos espetacularizados pela mídia e por algumas ONGs é justamente o inverso: há rigor na apuração e denúncia, e quase nada na punição.

  • Tiago Cunha

    Sabe qual é a real solução para esse problema(e o do desmatamento também)?
    Parar de consumir quem pratica esse tipo de ação.
    A exigência de certificação e regularidade ambiental para exportação, ao menos aqui no MT, levou muitos produtores a agirem dentro da lei e se regularizarem(o papel das secretarias municipais de meio ambiente foi importante em muitos lugares por tornarem o processo menos burocrático).
    Todavia, ainda existe quem faça isso por um só motivo: Tem quem compre.No momento que o mercado interno(entenda-se: regulação do governo) impedir que haja o comércio desses produtos sem uma certificação ambiental/trabalhista com a eficiência que o mercado externo impõe, o problema se resolve.

  • Brubru

    A condição do menino boliviano citado no início é degradante, sem dúvida. Mas em muitas situações, o fato de o trabalhador sentar no chão para comer caracteriza o serviço todo como escravo. Assim como você ter beliches com 90 cm de separação entre a cama de cima e a de baixo, ou o fato de o vaso sanitário estar com o assento quebrado. Fora que no setor agropecuário, por exemplo, é muito comum empregado ameaçar denunciar a fazenda de trabalho escravo se o dono não fizer um bom acordo em dinheiro na hora da demissão. Cuidado com essas denúncias, pois esse discurso do trabalho escravo é muito coisa de quem nunca viu uma fazenda de grande porte de perto.
    As novas leis e exigências brasileiras de regularização socioambiental são muito bem vistas pela enorme maioria dos produtores rurais, porque assim estamos nos protegendo e tornando as relações trabalhistas mais justas. Só acho que problema maior é que no Brasil, pelo menos, a mídia sempre divulga o lado do trabalhador pobrezinho, ignorante, que explorado pelo capitalista predador e destruidor do meio ambiente, sem sequer checar informações, ou o “outro lado da história”…

    • Kat Munster

      Esse discurso é bem usado por setores conservadores da sociedade que desejam manter a situação como está. O Repórter Brasil, citado neste texto, vive tentando desconstruir esse discurso nas denúncias. Sugiro também ler alguns textos do Sakamoto (que faz parte do RB), tem uns pontos de vista legais para elucidar o que é, de fato, trabalho análogo à escravidão.

      • Brubru

        Vou ler, Kat.
        Mas esse “discurso”, as ameaças e tal já foram testemunhados por mim mesma.

      • Kat Munster

        Sério Bru? Conta aí então! ~curiosa~

      • Brubru

        Oi, Kat.

        Acompanhei dois casos. O primeiro foi na propriedade de um primo meu, o segundo foi na nossa. Um funcionário safrista (que trabalha apenas um curto período de tempo, tipo um temporário mesmo) que na hora de encerrar o contrato, pediu dinheiro para não nos denunciar de trabalho escravo, sendo que ele tinha todos os direitos e registros em ordem. Acontece que em época de safra, a gente precisa trabalhar cerca de 10 horas com almoço rápido por dia para aproveitar a luz do sol. Normalmente o tempo é curto para colher. O cara alegou que não teve horário de almoço e isso poderia ser enquadrado como análogo a escravidão. Pediu dinheiro, chegou a comunicar o ministério do trabalho, que também pediu dinheiro para “abafar o caso”.
        A segunda vez, essa foi com a gente, um cara que não trabalhou para nós acionou direto o ministério do trabalho com acusação de trabalho escravo. O ministério também pediu dinheiro e tivemos que pagar para nos livrar de uma falsa acusação.
        Infelizmente essa é a única linguagem que os fiscais entendem… E no nosso país, quem tem dinheiro, quem detém meios de produção e tal é sempre ladrão, safado e sem vergonha, enquanto o pobre trabalhador é inocente, coitadinho… Afff, poderia passar horas falando disso, só que sei que soa conservador e de direita. Pena que ninguém está interessado em vir conhecer a realidade do campo…

      • alexmamed

        O Sakamoto que você sugere é o mesmo idiota que acusou a sociedade de matar o rapaz homossexual em São Paulo? Que acusou homofobia antes mesmo dos laudos da Polícia? Que mesmo após a família reconhecer suicídio, ele se recusa a pedir desculpas, e tá levando de burra nas redes sociais, pela falta de vergonha na cara?

        Se for, eu iria até contribuir, mas já desisti. Se um sujeito que enxerga homofobia num suicídio colabora para ELUCIDAR o que é de fato um trabalho análogo à escravidão, então fudeu-se tudo.

        Só gostaria de lembrar que o agronegócio vem sustentando esse país há uma década, com alimento barato, de qualidade e garantindo saldos na balança comercial. Deixar essa elucidação nas mãos de um indigente como o Sakamoto pode inviabilizar o agronegócio, e em vez de proteger alguém, vocês verão quebras de safras, fome, inflação alta. Estão brincando com fogo, testando os limites das pessoas, pois outro dia a Cynara questionou qual o papel do latifúndio, tendo sido humilhada com os números que provam quem alimenta a nação.

        Tem gente que pensa, jura e briga com quem diz que alimentos não nascem em gondolas de supermercados.

      • Kat Munster

        Calma moço, quanta raiva no seu coraçãozinho. Particularmente, concordo com o Sakamoto que o rapaz homossexual foi assassinado, afinal, não é muito comum um suicida perder todos os dentes e ter a perna trespassada por uma barra de ferro. Me parece bem estranha essa história.

        Sobre agronegócio, o problema a ser debatido é: o uso de mão de obra análoga à escrava e nossa responsabilidade. Não vou aqui tirar a importância do setor em nossa economia, mas não me deixa feliz ter uma economia boa aos custos do sofrimento dos outros. Podemos balancear a atividade com boas práticas de trabalho.

      • alexmamed

        Posé. Como jornalista, o Sakamoto tem o direito de questionar quem ou quê bem entender. O que não se pode aceitar é que ele faça afirmações e acusações baseadas em achismos e sobre o que ele entende como certo ou errado, e já explico.

        No caso do rapaz, não sei o que há de estranho, pois a queda foi considerável, e os traumas no corpo são condizentes com a queda e o impacto. Além disso, o que há de estranho em um suicida deixaruma carta de despedida, junto a outros fatos que fizeram a família aceitar essa hipótese.

        Voltando ao tema, concordo com você, que o ponto é coibir o uso de mão de obra análoga à escravidão. Aqui reside a discordência, pois existem fatos que em nada lembra a analogia, e o que dificulta o debate é justamente pessoas com o pensamento enviesado do Sakamoto ajudar a definir o que é, de fato, trabalho análogo à escravidão. Algo que ele entende que seja anánologo, pode muito bem n ão ser aos olhos de outros. E é justamente isso que dificulta o debate e a correta definição jurídica do tema, tornando por demais subjetiva a subsunção da norma aos casos concretos.

        Resumindo: se o Sakamoto ainda defende que foi homofobia uma morte, em que todos os indícios apontam para suícidio, mesmo que por mero capricho (achar que um suicida não possa perder os dentes após uma queda de dezenas de metros, com impacto que decorre), como poderá ter o discernimento adequado em colaborar para uma correta e justa definição do que seja trabalho análogo à escravidão?

        Como testemunha a Brubru, existem casos que nem passam perto do que as denúncias indicam. E também não estou a negar que não exista. O importante é definir o que seja aceitável ou não; definir uma relação custo-benefício, onde todos possam sair ganhando. Economia não é um jogo de soma zero. É possível sim que toda a cadeia saia ganhando com as boas práticas que você cita.

        O que se deve evitar é o proselitismo político do assunto e o sociologismo barato e raso de botequim, pois o tema não comporta opiniões de quem vive somente disparando opiniões de um teclado, ignorando um mundo real, dinâmico, cumpridor das leis e que colabora para os avanços do país e das pessoas.

      • Brubru

        Obrigada pela participação, @alexmamed:disqus. O pessoal do agronegócio está cansado de levar bordoada dos cidadãos urbanos. Parece que eles realmente acham que alimento nasce nos estoques dos supermercados, embora afirmem com aquele tom de “dãr, a gente sabe que não nasce no mercado”. Mas é difícil ser visto como o grande vilão mundial, viu… A gente destrói o meio ambiente, escraviza… E o que sai na mídia é a pura realidade para quem vive em cidades, ninguém quer vir aqui e ver o que é feito, como é feito…
        Fora que eu sempre digo que os “verdes” são muito mais conectados, modernos e com mais tempo livre do que a gente. Produtor rural tem tanto serviço o ano inteiro que não sobra muito tempo para rebater as críticas, para tentar mostrar o nosso lado… Aí fica uma voz muito alta e esganiçada gritando que nós vamos acabar com o planeta terra contra a voz quase muda do campo. Luta desigual.

  • Rica Baldin

    Concordo que esta prática esta errada!!!!!!!!!!
    Não há o que discutir.
    Mas “escravidão moderna” não é isso.

    Escravidão moderna é isso aqui:

    http://www.youtube.com/watch?v=Ybp5s9ElmcY

    O que é MUITO, mas MUITO, MUITO, MUITO, pior… pois acontece comigo, com você e com quase todos que conhecemos.

    • Iara

      Pior, não. O que esse vídeo mostra está conectado com a questão que o texto traz. O conceito de escravidão mostrado no vídeo não elimina a escravidão propriamente dita da qual o texto trata.
      Uma coisa é ser um escravo do consumo, do trabalho, do capitalismo enfim, não importa quanto você ganhe nem qual seja seu trabalho. Outra coisa é trabalhar 15 horas por dia numa confecção, comer uma comida fria e dormir num cubículo úmido e desconfortável.

  • Bob

    No primeiro gráfico eu só não entendi o setor de segurança privada.
    Como é possível trabalho escravo nesse setor?

    • jaderpires
      • Bob

        Obrigado pelo link Jader.

        Mas mesmo assim continuo não entendendo. Certamente esses seguranças trabalhavam em condições insalubres, perigosas além do necessário inerente à profissão, e sem dúvida a empresa deve estar desrespeitando uma porrada de leis trabalhistas.
        Certo que escravidão é a definição máxima de insalubre, mas para alguém ser escravo algum tipo de coerção tem que ter. Posso ter entendido tudo errado, mas não me pareceu que os seguranças não tinham a opção de simplesmente pedir demissão e sair do emprego. Além de um possível medo de ficar desempregado, mas aí quase todo mundo é escravo então.
        E também para manter homens armados como escravos ou coisa análoga, algum tipo de coerção extrema tem que existir.

      • Alan Nakano

        tb n tem nada indicando um endividamento inevitável dos seguranças com o patrão

      • Bob

        Pois é, exato, eu achei muito estranho esse caso. Nenhuma coerção, nenhuma chantagem. Violação das leis trabalhistas sem dúvidas, mas daí para trabalho escravo vai uma distância.

  • Juliana

    seja vegano.

    • nicolas

      veganos usam papel, roupas ? se sim, ser vegano não adianta muita coisa.. acho que só a parte da pecuária que diminui….

      • Juliana

        não sei se você reparou, mas a pecuária é o setor mais problemático desse esquema.
        a ação mais simples e efetiva que uma pessoa comum pode fazer com relação a essa situação é boicotar estas indústrias.
        veganos usam, sim, papel e roupas, mas geralmente com muito mais consciência.

      • Alexandre

        A questão então nao é usar ou nao coisas vindas de escravidão, e sim ter consciencia disso. Então se eu tenho consciencia tá tudo certo!!!
        Veganos, os reis da hipocrisia!!

  • Alexandre

    Engraçado é o texto pedir R$9,00 mensais e o autor ter como sua frase de descrição “Prometeu que, se um dia ganhar na loteria, vai doar cem reais para caridade. E não há cristo que o faça pensar o contrário.”
    Sem falar na provação escondida…

  • http://blog-do-lucho.blogspot.com/ Lucho

    Assim como aquele texto mostrando quantos escravos trabalharam para você (o meu escore foi 70. Alguém conseguiu mais?), eis mais um exemplo de sofativismo misturado com pseudoconsciência social, expiação de culpa burguesa e boas intenções.

    Aposto todas as minhas economias que todos aqui (todos, sem exceção. Inclusive o conhecedor da situação dos médicos cubanos) nunca fizeram coisa alguma para combater esse mal. Mas posam de pessoas boazinhas com consciência social. Gente boazinha assim me enoja.

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