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A Enciclopédia Britânica acabou, e eu também não estou me sentindo muito bem

Alex Castro

por
em às | Ciência e tecnologia, Cultura e arte, Debates, PdH Shots


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Essa semana, a Enciclopédia Britânica anunciou o fim da sua edição impressa. Depois de 244 anos em catálogo, a edição de 2010 será a última em papel.

Mas ela não está acabando: eles simplesmente vão concentrar suas atividades na internet, onde o conteúdo pode ser corrigido instantaneamente.

Em termos de vendagem, o melhor ano da Enciclopédia Britânica foi 1990, com 120 mil coleções vendidas só nos Estados Unidos. Quatro anos depois, comecei a acessar internet de casa, pelo Ibase/Alternex.

Cresci com uma Enciclopédia Britânica em casa. Edição de 1978, comprada com sacrifício pelos meus jovens pais, que nem falavam inglês tão bem assim, mas que acreditavam no ideal de que toda casa classe média tinha que ter uma Britânica. A cada ano que passava, a edição se tornava mais escandalosamente obsoleta mas, fazer o quê? Qual era a opção?

Eu gostava mesmo era da coleção que veio junto, a Britannica Great Books, que foi onde li pela primeira vez os autores que moldaram a minha vida, como Homero, Sófocles, Eurípides, Herótodo, Tucídides, Lucrécio, Virgílio, Tomás de Aquino, Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Descartes, Sterne, Gibbon, Marx, Darwin, Freud, Melville, Shakespeare, Tolstoi e Dostoievski.

Hoje, tenho todos esses livros no meu Kindle.

Por André Dahmer, www.malvados.com.br

Por André Dahmer, www.malvados.com.br

Alguns dinossauros mortos

Só nos últimos poucos anos, eis algumas instituições que importavam para mim e que se foram, em maior ou menor grau:

2008, outubro: meu jornal norte-americano favorito, de incrível cobertura internacional e sempre muito independente, o Christian Science Monitor, torna-se um dos primeiros grandes jornais do país a migrar para a internet. Eu era assinante até o ano anterior, mas tinha cancelado minha assinatura.

2009, janeiro: fecha a Virgin Megastore de Times Square, em Nova Iorque. Nas décadas de 80 e 90, ela foi importantíssima na minha vida. No meu aniversário de vinte anos, em 1994, me dei de presente uns 15 CDs de ska, para conhecer melhor o gênero. No século XXI, estive em Nova Iorque diversas vezes, mas não voltei mais lá.

2010, julho: o Jornal do Brasil, um dos principais e mais antigos do país, depois de uma longa agonia, torna-se o primeiro jornal importante a migrar para a internet. O Rio de Janeiro, agora, na prática, é uma metrópole de seis milhões de habitantes com um único jornal. Minha família já não assinava o JB desde 2000 e eu esporadicamente comprava às sextas, para ler a Revista Programa.

2011, janeiro: fecha a Modern Sound de Copacabana, no Rio de Janeiro, uma das maiores e mais importantes lojas de música no Brasil. Não tendo acesso à Virgin o ano inteiro, foi lá que comprei os CDs mais raros e interessantes. Houve época, ó jovens, que você ouvia uma música legal na rádio, às vezes tinha que ligar pra perguntar qual foi (porque não havia sites) e a sua única esperança de ouvir essa música de novo, e outras do mesmo artista, era indo a lojas com catálogo gigantesco, como a Virgin e a Modern Sound. Que eu saiba, também não pisei lá no século XXI.

Modern Sound, fechada.

Modern Sound, fechada.

O responsável sou eu… e não me sinto culpado

Quem matou esses dinossauros fui eu. Eu sou o típico cliente para quem essas empresas tinham significado e importância, e que mesmo assim foi lentamente abandonando-as.

E claro que não fiz isso sozinho. Você, leitor, provavelmente foi meu cúmplice.

Essas empresas acabaram (ou quase) porque se tornaram irrelevantes justamente para as pessoas que mais gostavam delas. Se a Virgin ou a Modern Sound fossem fazer falta na minha vida, eu não estaria sem visitá-las há mais de dez anos. Se o Jornal do Brasil ou o Christian Science Monitor fossem realmente importantes para mim, eu teria assinado até o último dia.

Virgin Megastore, Times Square, NY.

Virgin Megastore, Times Square, NY.

As pessoas querem música e notícia, não celulose e metal

As carpideiras da indústria fonográfica e da imprensa impressa parecem aquelas pessoas que lamentavam o fim das diligências quando inventaram os trens. Sim, como tem gosto pra tudo, acredito que houvesse pessoas que realmente gostassem das diligências em si, como objeto. Mas, convenhamos, a maioria das pessoas quer somente ir daqui pra ali. Se inventam um novo método, melhor e mais rápido, elas mudam para ele sem chorar e sem pensar duas vezes.

Não é à toa que a Modern Sound e a Virgin desapareceram, enquanto o Jornal do Brasil, o Christian Science Monitor e a Enciclopédia Britânica ainda estão vivos e tentando se reinventar. Os dois primeiros não produziam nada, eram apenas intermediários e, por isso, se tornaram totalmente irrelevantes. Os três últimos ficaram famosos justo pela qualidade do conteúdo que produziam e, mesmo se o antigo suporte desse conteúdo esteja em crise, o conteúdo em si continua interessando ao consumidor final.

(Ano passado, por exemplo, a Enciclopédia Britânica fechou acordo com a Capes e, agora, todo o conteúdo da enciclopédia está disponível para estudantes do ensino fundamental de escolas públicas brasileiras.)

As pessoas frequentavam a Virgin Megastore e assinavam o Jornal do Brasil porque gostavam de música e de informação, não necessariamente de discos de metal e folhas de papel. Ainda vamos ouvir muito chororô por parte dos amantes de disquinhos e papeizinhos, mas a grande maioria das pessoas estará muito feliz e satisfeita curtindo suas músicas e consumindo sua informação por outros meios.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação.


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  • TZinmi

    Eu não compro um CD há uns 5 anos no mínimo, Adoro frequentar bancas de jornais, só que elas estão cada vez mais raras e em breve sumirão completamente.

    Assinava pelo menos três revistas (a INFO, a TRIP e a Quatro Rodas), hoje nem lembro a última que comprei.

    Locadora de vídeos? Meses sem por os pés em uma.

    Apesar de tudo isso, continuo consumindo muita música, continuo lendo revistas e assistindo a filmes em casa, porém por vias mais modernas.

    A única coisa “velha” que me recuso a abandonar são os livros em papel, quase que por fetiche, mesmo sabendo que com um Kindle ou IPad acabaria lendo mais do que atualmente, mas ainda gosto do contato com as páginas de papel de um livro.

    • http://www.facebook.com/people/Tiago-Portuga/1530944566 Tiago Portuga

       Concordo com amigo acima, as folhas amareladas ou cheirando cola parece ser insubsitituível, mas eu posso estar sendo ranzinza e antiquado ao me orgulhar de usar minhas noites de férias pra reler Os tres Mosqueteiros, que a propósito foi recém lançado em um filme, com uma história completamente diferente.

    • Dora_Delano

      eu tinha a impressão [leiga e superficial] de que o livro seria o único sobrevivente desse processo tecnológico de substituição e obsolescência, exatamente pelo prazer do contato com as páginas do livro, o cheiro, a textura.

      prevejo que eu serei aquelas velhinhas cheias de livros enquanto meus netos tentam me convencer de ler em seus aparelhos eletrônicos sofisticados…

      • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

         assim como o automovel nao matou o cavalo. um bando de gente continua montando. mas passa a ser uma atividade de saudosos, puristas, diletantes — não é mais um meio de transporte.

      • Dora_Delano

        mas cavalo é um ser vivo!

        A vitrola hoje é artigo de antiquário, embora meu pai insista em colecionar LPs quando nem CDs usamos mais.

        p.s.: entendi a ideia. Estou sendo implicante.

  • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

    teste.

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Confesso que eu gosto dos livros de papel, sensação do papel na minhas mãos me causa um certo conforto, um bem estar. No entanto, eu confesso que a gente vai acumulando tantos livros ao longo da vida que uma bela hora você que escolher passar algo adiante.

    Chega um ponte onde o espaço não permite mais você ter todos aqueles livros, fora o trabalho que dá a manutenção… 

  • Dado Teles

    Eu tenho tendências saudosistas/nostálgicas. Notícias como a da Enciclopédia Britânica também não me deixam muito bem.

    Quanto aos discos, sinto saudades do vinil pelo som mais puro e principalmente pelas capas: antes se tinha mais espaço para as artes das capas, hoje em dia, com o cd, o espaço diminuiu proporcionalmente à criatividade.

    Embora atualmente passe anos sem comprar um cd devido a Internet, ainda compro quando se trata de algum de meus artistas favoritos. Gosto de ler o encarte, acompanhar as letras, os créditos, etc.

  • André Kaminski

    Ainda coleciono cds, compro regularmente e meu sonho é ter uma coleção gigantesca de mais de mil cds, boxes, singles, EPs e tudo mais das minhas bandas preferidas. 

    Sei que começarão a sumir em breve e se tornarão itens de nicho, mas espero que demore ainda mais alguns anos. 

  • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

    Schumpeter.

    • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

       o problema do schumpeter é (em sua monomania temática capitalista) achar que destruição criadora era inerente ou característica do capitalismo, ao invés de inerente à grande aventura humana por definição.

      • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

        Concordo plenamente Alex Castro, ele também não considerava preferências, como as nossas por livros em papel ou kindles.

        A monomania temática capitalista é minha ou do Schumpeter? hahaha.

        Eu prefiro acreditar que essas novas tecnologias apareçam pelo ímpeto de grande aventura humana e que possam de fato melhorar nossas vidas e nossa relação com o mundo.

        Fatos históricos podem alterar conjunturas e a estrutura permanecer. Exemplos até mesmo escritos por você como racismo e homossexualismo, a questão do posicionamento das mulheres na sociedade etc…

        Como disse Raul: O presente é um furo no futuro por onde o passado começa jorrar.

      • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

         a monomania é do schumpeter, vc eu não conheço. :)

  • http://www.facebook.com/marcelorraposo Marcelo Raposo

    Ontem aconteceu uma situação engraçada:
    Ao sair do Metrô, na estação Consolação recebo um jornal chamado Rodonews.
    Diferente dos já costumeiros DESTAK e Metronews, me atentei a edição: Ano 01 – nº 1.
    SIM, começaram a distribuir um jornal ontem…
    E fiquei meia hora pensando nisso… a maioria dos jornais está migrando para internet/aplicativos. Qual a idéia de um jornal que tramita no sentido inverso?
    Enfim… espero que dure bastante, porque uma das coisas que mais gosto na Av. Paulista é receber as notícias de graça em Jornais.

  • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

    nao. falei q era o meu jornal gringo favorito pq odiava a linha editorial deles….

  • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

     se fossem espertos, tinham seguido publicando só a programa

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000263625120 Otávio Caetano

    Mas no caso de uma mídia que lida com informação real é uma migração natural, até por causa da praticidade de se atualizar e de se conferir uma informação pela internet.

    Pesquisas científicas também estão sofrendo disso, mas ninguém reclama, né?Já quando falamos de obras de ficção ou livros atemporais, o que vemos por aí é que as livrarias e bibliotecas não estão migrando virtualmente como era se esperar.

  • pedro volpe

    O lamento pelo fim de coisas obsoletas é apenas fetiche e todos temos os nossos.

    Eu adoro discos de vinil, puro fetiche.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1616975845 Blanca Aleks

    Pela falta do que comentar, mas com muita culpa mesmo assim, venho só dizer que o senhor escreve muito bem e eu amo teus textos. ♥

  • Ernani Almeida

    Sou um jovem de 44 anos, meus filhos (19, 17 e 14) não conhecem vinil e k7. Já não temos CDs em casa (tive perto de 500). Na década de 90/00 tive sete assinaturas de revistas/jornais (playboy, info, veja, super, seleções e dois jornais locais). Não deixamos de ler e ouvir músicas , hoje fazemos através de iPods, portais de noticias/editoras diversase leitores digitais. Sinto saudades, mais acho que em nome da praticidade, seria (quase) obrigatória essa mudança.
    ps: não resisti, essa semana assinei a revista piauí (edição impressa)

  • Danilo Oliveira

    Concordo com tudo o que você falou, exceto com “música e informação não passam por problemas”. Mas aí o problema é na parte criativa :) 
    95% das músicas que são divulgadas nas mídias são uma porcaria.

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