Enquanto o mundo relembra os acontecimentos de maio de 1968, o futebol fica completamente de escanteio. Até já estou ouvindo dizerem que “futebol é o ópio do povo”.
Mas o fato é que, depois de muita pesquisa, duas mudanças e uma porção de fatos interessantes apareceram relacionados à bola e ao “ano que não terminou”.
As mudanças começam pela Taça Brasil, uma lambança. O torneio que lembra a Copa do Brasil atual, servia para indicar os brasileiros na Libertadores do ano seguinte. Os times disputavam torneios regionais e avançavam na competição.
No fatídico 68, a competição ficou parada por quatro meses, e só foi acabar em outubro de 1969. A crise ocorreu em virtude de um imbróglio entre Botafogo e Metropol de Criciúma, em Santa Catarina. E qual praga, o Metropol fechou seu departamento de futebol em 1969, apesar de ter se sagrado campeão de seu estado.
Já o time da Estrela Solitária sagrou-se campeão do torneio que não mais existiria depois daquele enrosco. Mas os anos dourados para o Botafogo – bicampeão do carioca e da Taça Guanabara em 1968 – teriam fim ali. O clube só voltou a erguer um caneco em 1989. Vale dizer que o técnico do clube era Mário Jorge Lobo Zagallo, em sua primeira experiência como treinador, que duraria até 1970 – de onde saiu para substituir o cronista João Saldanha.
Na seleção brasileira, o “titular” do banco era Aymoré Moreira, comandante do Brasil em 1962, reempossado no cargo. Da seleção brasileira profissional, não constam jogos em maio, o mês símbolo das mudanças. Lá pelo mês de junho, foi a primeira excursão do time brasileiro para a Europa depois da desastrosa campanha de 1966, na Inglaterra. Sem Pelé, o Brasil teve duas derrotas e três vitórias no cômputo geral. Na estréia, a Alemanha Ocidental venceu por 2 a 1, mas consta um verdadeiro passeio dos então vice-campeões mundiais, não refletido no placar final.
Admildo Chirol era o preparador físico da seleção. Ele chegou a atuar como técnico do Santos de Pelé em algumas partidas, e também do Flamengo e do Vasco, onde revelou Roberto Dinamite, em 1971, [http://www.robertodinamite.com.br/?page=carreiragols]. É ele quem assegura [http://www.geocities.com/Colosseum/Stadium/1659/excursao_68.htm] que a ausência do Rei chegou a ser “comemorada” por Aymoré Moreira. Isso porque permitiu acabar com a ilusão de que a técnica resolveria tudo.
Foi depois da derrota para os germânicos que Carlos Alberto Parreira apresentou uma série de slides com fotos da desastrosa partida. Aquele, um mero estagiário em cursos de aperfeiçoamento de uma escola vinculada à federação germânica de futebol, explicou o esquema tático e a necessidade de recuar um meia, apertar a marcação, melhorar o rendimento físico. Seria necessário correr mais e se preocupar com a defesa.
Convencido, Aymoré mexeu no time. Viu-se um certo trio de canhotos ser escalado como titular pela primeira vez: Tostão, Rivellino e Gérson. Contra a vontade, até Gérson voltou para marcar, num revezamento auxiliado pelo mineiro Tostão. Ora recuavam, ora armavam o jogo. Foi 6 a 3 para o Brasil contra a Polônia. Tudo bem que a defesa não funcionou às mil maravilhas. Mas o trio estaria na Copa de 1970. E, pelo menos para Admildo Chirol, foi o dia em que o futebol brasileiro mudou.
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista, e um dos autores do Futepoca.
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